Leonardo Soares/Estadão
Leonardo Soares/Estadão

Ministério da Agricultura suspende exportação de carne bovina para a China

Medida foi adotada, temporariamente, depois da confirmação de um caso atípico de 'mal da vaca louca' em Mato Grosso

Augusto Decker e Tânia Rabello, O Estado de S.Paulo

03 de junho de 2019 | 16h48

O Ministério da Agricultura suspendeu nesta segunda-feira, 3, temporariamente, a exportação de carne bovina para a China em razão do caso atípico de encefalopatia espongiforme bovina (EEB) confirmado em Mato Grosso pela Pasta no dia 31 de maio. A doença é conhecida popularmente como "mal da vaca louca". 

"A suspensão temporária protocolar é uma medida automática, prevista em documento de 2015 assinado com a China", disse a assessoria do ministério. "Como se trata de medida protocolar - e não de risco sanitário - a expectativa é que logo se levante o embargo. Em tempo razoável para que as autoridades chinesas avaliem os documentos já entregues pela embaixada de Pequim ao governo chinês."

É o que diz o ofício-circular n.º 48/2019, do Dipoa/SDA/Mapa, distribuído para os frigoríficos habilitados a exportar para o país asiático e obtido pelo Broadcast Agro. O ministério informa que a medida foi tomada em respeito ao Protocolo Provisório bilateral número 7472602, firmado entre a Administração-Geral de Supervisão de Qualidade, Inspeção e Quarentena da República Popular da China e o Ministério da Agricultura do Brasil.

O texto relata que "está suspensa, temporariamente, a produção e a certificação sanitária para a República Popular da China, de carne bovina a partir de 31 de maio de 2019, data da ciência do resultado (de caso atípico de EEB em MT)". Acrescenta, ainda, que carregamentos expedidos até o dia 30 de maio de 2019 serão internalizados na China.

No mesmo ofício, o ministério informa que o caso atípico de EEB foi confirmado e notificado à Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) em 31 de maio de 2019. E também diz que, na decisão, o Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal (Dipoa) do ministério considera, para a decisão, o Decreto nº 9.667, de 2 de janeiro de 2019, a Portaria nº 562, de 11 de abril de 2018, no art. 25 do Decreto nº 9.013, de 29 de março de 2017, além do acordo bilateral.

O Ministério da Agricultura tomou uma decisão acertada disse ao Broadcast Agro o sócio-diretor da Scot Consultoria, Alcides Torres. Parar ele, a medida é "uma prova de boa vontade e acerto" da pasta na conduta relativa aos procedimentos que devem ser tomados em relação ao mal da vaca louca. Além disso, cumpre exigência dentro do acordo sanitário assinado pelos dois países. "O país de origem do problema deve suspender as exportações até que a situação seja esclarecida", explica o consultor. "É uma atitude normal e até esperada. Demonstra que nosso sistema de inspeção sanitária está funcionando e sendo extremamente rigoroso."

Em termos de mercado, entretanto, Torres adverte que não se trata de uma notícia tão boa. "O caso de EEB surgiu há poucos dias e, a partir daí, o que os países importadores podem fazer? Puxar o freio de mão", diz. "Não sabemos, ainda, quais serão os desdobramentos mercadológicos disso. Há, também, a possibilidade de mercados que estavam para se abrir adiarem a abertura, como a Indonésia."

O consultor acredita, porém, que o embargo temporário seja resolvido rapidamente, pois a China passa por um momento delicado com a peste suína africana (PSA), que vem dizimando plantéis de suínos na Ásia e obrigando o país a importar mais proteína animal para alimentar a população. "Quero crer que será resolvido rápido", reforçou, e acrescentou: "Como se trata de um caso atípico de EEB no Brasil e com a necessidade chinesa por carne, vou ser otimista".

A suspensão da exportação na Bolsa

As empresas processadoras de proteína animal se destacaram negativamente nesta segunda-feira, 3, na B3. Marfrig e JBS terminaram entre as principais quedas do Ibovespa, e Minerva teve desempenho parecido com seus pares. 

Fecharam em baixa Marfrig ON (-4,25%, na mínima), JBS ON (-2,93%) e Minerva ON (-2,80%). 

Com a suspensão, a Minerva Foods deve fazer seus embarques para o país asiático das unidades que tem na Argentina e no Uruguai, informou uma fonte ao Broadcast Agro. Atualmente, a Minerva Foods tem apenas uma planta habilitada no Brasil para vender carne bovina à China, situada em Barretos (SP), com capacidade de abate de 840 cabeças/dia. Na Argentina, a Minerva tem um frigorífico com capacidade de abate de 2,4 mil animais/dia e, no Uruguai, a capacidade é de 3,2 mil cabeças/dia.

China é o 2.º maior comprador de carne bovina do Brasil

A China vem ganhando cada vez mais importância para o setor exportador de carne bovina do Brasil. No ano passado, o país asiático ampliou em 52,54% suas compras da proteína brasileira, com 322,4 mil toneladas, e desembolsou 60,04% mais, ou US$ 1,49 bilhão, de acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec). Isso representou 19,6% das vendas brasileiras de carne bovina em volume e 22,6% do faturamento em 2018.

Com tal avanço, a China continental já é o segundo maior comprador de carne bovina brasileira, ficando atrás apenas de Hong Kong - lembrando que boa parte da carne adquirida por este país tem a China como destino. Neste ano, entre janeiro e abril, a China adquiriu 95,7 mil toneladas (ou 17,8% do volume total embarcado pelo Brasil) por US$ 442,4 milhões, de acordo com a Abiec.

Já Hong Kong, no primeiro quadrimestre do ano, adquiriu 112,89 mil toneladas de carne bovina in natura do Brasil (ou 21% do volume embarcado ao exterior), desembolsando US$ 2,012 bilhões (ou 17,9% do faturamento total). / COLABOROU RENATO CARVALHO

 

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