Ministério Público suspeita que banco burlou regra do BC

Documentos da Operação Suíça apontam que o Credit Suisse fazia transações sem passar pela Receita

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

24 Dezembro 2008 | 00h00

Documentos obtidos pelo Estado em Genebra, que fazem parte da Operação Suíça do Ministério Público Federal (MPF), levantam suspeitas de que o Banco Credit Suisse não estava cumprindo as regras do Banco Central (BC). As suspeitas são de que o banco estaria usando o escritório de representação para abrir contas no exterior para clientes brasileiros sem passar pelo BC ou pela Receita Federal. Em sua edição de terça-feira, o Estado revelou depoimentos que mostram que doleiros atuavam dentro do próprio Credit Suisse, ainda que o banco tenha negado. Novas evidências mostram que, além do uso de doleiros, o Ministério Público investiga a atuação irregular do banco. Os documentos que levantaram as suspeitas foram apreendidos na Operação Suíça, conduzida pela Polícia Federal, que hoje estão com o Ministério Público Federal e a Justiça Federal. Em uma ação de busca e apreensão na casa de Carlos Miguel de Souza Martins, chefe do escritório de representação Credit Suisse no Brasil na época, a Polícia Federal obteve milhares de páginas de documentos que só agora começa a decifrá-los. Martins nunca apareceu para depor, apesar das várias convocações. O sinal de alerta surgiu entre os investigadores com um documento assinado conjuntamente por Alexander Siegenthaler, o então chefe da divisão de private banking para as Américas, baseado em Zurique, e Antonio Quintella, presidente do Credit Suisse Investment Banking no Brasil. Trata-se do contrato de trabalho do executivo Ricardo Taira para cargo de direção. O documento tem o timbre do banco de investimentos e é datado de 2006. O que chamou a atenção da Polícia Federal é que Siegenthaler, apesar de ser chefe do private banking em Zurich, estava assinando um contrato com o responsável pelo Banco Investimentos Credit Suisse no Brasil. O mais grave é que o documento foi encontrado na casa de Carlos Martins. Mas os investigadores dizem que as evidências não param por aí. Há, ainda, um documento manuscrito que se refere, em alemão, a uma reunião entre Martins e Siegenthaler, no dia 16 de março de 2006, poucos dias depois da assinatura do contrato de trabalho de Taira. Na folha de papel pode-se ler, em inglês, "encontro com Alex Siegenthaler". Naquele momento, o objetivo do encontro era delinear a estratégia de atuação do banco no Brasil, assim como para o private banking. Pela lei, o escritório de representação não poderia abrir ou fechar contas no exterior. Para os investigadores, o fato de Siegenthaler reunir-se tanto com Martins quanto assinar contratos com o presidente do banco de investimento e do private banking levanta a suspeita da relação entre as duas divisões do banco naquele momento e que, de fato, o escritório de representação estava sendo usado para operações que não estariam autorizadas. Entre os pontos da agenda da reunião entre Siegenthaler e Martins estão a busca por clientes VIPs ao banco, o estabelecimento de estruturas em São Paulo e no Rio de Janeiro e quantas pessoas seriam trazidas da Suíça para trabalhar nesses escritórios. O documento foi um sinal de alerta para a Polícia Federal. Um outro documento ainda mostra que Siegenthaler, chefe do departamento de private banking para as Américas, assinou em 2004 carta confidencial promovendo Carlos Martins ao posto de diretor e felicitando o português por sua "competência e dedicação". A assessoria do Credit Suisse estima que a relação de Siegenthaler com Martins e, ao mesmo tempo, com o banco de investimentos, não é um problema. A explicação é de que Siegenthaler poderia perfeitamente ter encontros com Carlos Martins, seu subordinado, e atuar na contratação de alguém do setor de private banking. "Assinatura de Siegenthaler num contrato de trabalho de private banking e seu encontro com representantes do escritório de representação são compatíveis com a sua função", afirmou o banco, por meio de sua assessoria. O banco ainda disse que suas duas alas atuam de forma separada. "O Escritório de Representação faz parte da divisão de private banking do Credit Suisse, é gerenciado por uma equipe na Suíça e atua de forma totalmente separada do Banco de Investimentos Credit Suisse Brasil", afirmou a assessoria do Credit Suisse. O que o banco não soube responder é como o contrato desse outro setor estava na casa de Carlos Martins. MISTÉRIO Martins hoje vive em Zurique e trabalha para o Banco Julius Baer. Essa instituição financeira viveu há duas semanas um verdadeiro terremoto. Seu presidente, Alex Widmer, morreu de forma misteriosa, no dia 3 de dezembro, e a imprensa local chegou a falar de suicídio. Mas nenhuma informação adicional foi revelada e o banco rejeitou dar esclarecimentos sobre o motivo da morte. Antes de ocupar o posto no Julius Baer, Widmer foi presidente-executivo do Credit Suisse, no qual era o chefe de Siegenthaler e, conseqüentemente, chefe maior também de Martins em suas funções como representante no Brasil.

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