ENRIQUE MARCARIAN|REUTERS
ENRIQUE MARCARIAN|REUTERS

Câmbio na Argentina deve ter liberação gradual

Novo ministro da Fazenda, Alfonso Prat-Gay, detalha medidas econômicas que devem ser adotadas pelo governo Macri

Rodrigo Cavalheiro, correspondente em Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

06 de dezembro de 2015 | 17h24

O futuro ministro da Fazenda argentino, Alfonso Prat-Gay, afirmou em entrevista a jornais locais publicadas neste domingo, que o fim do controle sobre o câmbio, vigente desde 2011, ocorrerá "quando estiverem dadas as condições", indicando que o processo será gradual. O presidente eleito, Mauricio Macri, prometeu na campanha liberar a cotação no primeiro dia de mandato, o que estimulou temor de uma desvalorização repentina. O atual prefeito de Buenos Aires assume na quinta-feira o lugar de Cristina Kirchner na Casa Rosada.

Em entrevista ao La Nación, Prat-Gay citou como uma das condições para liberação do câmbio um novo presidente do Banco Central. Macri quer tirar do cargo Alejandro Vanoli, que tem mandato até 2019, por considerá-lo um militante kirchnerista. Vanoli deu indícios que deixaria o posto após ser indiciado pela venda de dólar futuro em uma quantidade superior à usual, o que segundo a oposição teria beneficiado empresas que usam a diferença nas cotações oficial e paralela (9,70 e 14,50 pesos, respectivamente). Se a remoção de Vanoli exigir um processo legal, demoraria pelo menos 15 dias.

Outra condição mencionada pelo próximo encarregado da Fazenda para mexer do câmbio - que comprometeu importações e exportações argentinas - é o aumento das reservas em dólar. Elas são hoje de US$ 25,4 bilhões, mas a maior parte desse valor é de empréstimos, o que as torna não disponíveis. Especialistas apontam que seria necessário acumular pelo menos US$ 20 bilhões para liberar o controle. "Precisamos de uma boa oferta de dólares para estar tranquilos", afirmou Prat-Gay, um economista de origem liberal que trabalhou sete anos no banco JP Morgan nos EUA, na Grã-Bretanha e na Argentina, passou pelo comando do Banco Central com Néstor Kirchner e logo dedicou-se à política em uma coalizão de centro, de linha social-democrata. Prat-Gay disse contar com os dólares referentes a produtos agrícolas que ainda não foram liquidados (estima-se que chegariam a US$ 8 bilhões) para engordar as reservas.

Questionado sobre a alta de preços iniciada logo após a vitória de Macri, no dia 22 de novembro, o futuro ministro atribuiu o movimento a um descuido intencional do governo que sai. Produtos como farinha de trigo e pão dobraram de valor. O kirchnerismo alega que é um reflexo da desvalorização anunciada do peso, que afetaria imediatamente o poder de compra. Apenas em março as categorias renegociam seus salários. Prat-Gay quer tratar com representantes de supermercados e atacadistas o retorno aos preços do dia 30 de novembro. "Os preços serão revisados , com um compromisso muito claro de metas de inflação decrescentes ao longo do mandato."

Créditos internacionais. Prat-Gay disse que "por agora" não está prevista reunião com o FMI, mas sim com o Banco Mundial e com o BID. O encarregado da Fazenda no gabinete de Macri, presidente eleito que dividiu a antiga pasta da Economia em seis, acrescentou que na próxima semana o futuro governo entrará em contato com o mediador do conflito com os fundos abutres, nome dado pelo kirchnerismo aos fundos especulativos que não aceitaram a renegociação da dívida argentina. Eles representam 7% dos credores e exigem o pagamento integral. "A instrução de Macri é iniciar uma discussão o quanto antes. Dialogar não significa que não vamos ser muito duros", afirmou Prat-Gay.

Confirmações. Prat-Gay reafirmou que as taxas cobradas a produtos agrícolas serão abolidas, à exceção da aplicada à soja, que será reduzida de 35% a 30%. O produto é a principal fonte de ingressos de dólares. Um dos planos do novo governo é reduzir impostos para a classe mais baixa, o que representaria uma melhora de 10% do poder aquisitivo de 8 milhões dos 42 milhões de argentinos. O imposto sobre salário, que motivou greves gerais durante a administração de Cristina, deverá ser abolido em março.

Prat-Gay indicou que haverá aumento de tarifas de energia para os que ganham mais, com o fim de subsídios que hoje fazem uma conta bimestral custar o valor de uma entrada de cinema. Os subsídios a energia representam 3,3% do PIB. As ajudas (1,2% do PIB) para manter baixas as tarifas de transporte, que permitem que uma passagem em um trem metropolitano custe R$ 2, serão mantidas, disse Prat-Gay.

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