Ministro da Economia francês critica rigor fiscal e desestrutura governo

Presidente François Hollande demite gabinete, mas mantém o primeiro-ministro, Manuel Valls; divergências sobre política de redução do déficit racha o Partido Socialista

Andrei Netto , CORRESPONDENTE / PARIS

25 de agosto de 2014 | 15h31

Cinco meses após assumir o poder, o governo formado pelo primeiro-ministro da França, Manuel Valls, caiu neste domingo, 24, em razão de divergências internas sobre a política de austeridade fiscal na Europa. A crise institucional foi causada pelo ministro da Economia, Arnaud Montebourg, que disparou contra a política econômica do governo socialista e contra a "direita alemã", criticando a chanceler Angela Merkel e a União Europeia. A demissão do ministro da Economia foi aceita pelo presidente, François Hollande, mas ele manteve o premiê em seu cargo.

A crise política começou a crescer em Paris depois que o Escritório Estatístico das Comunidades Europeias (Eurostat) divulgou, há duas semanas, os números do crescimento econômico na Europa nos dois primeiros trimestres de 2014. No segundo período, todas as três maiores potências da zona do euro tiveram crescimento negativo de 0,2%, casos de Alemanha e Itália, ou enfrentaram estagnação, caso da França.

Na semana passada, Hollande havia assegurado em entrevista ao jornal Le Monde que não mudaria sua política, baseada na redução dos gastos e investimentos do Estado em € 50 bilhões até 2017 e na redução de impostos sobre empresas privadas.

Após a entrevista, Arnaud Montebourg, um defensor da "desglobalização" que havia cinco meses era o titular do Ministério da Economia, disparou contra a União Europeia, supostamente comandada pela "direita alemã", exortando Hollande a mudar sua política na França. A resposta veio no início da manhã de ontem, quando Valls entregou o pedido de demissão ao presidente, uma estratégia para realizar uma reforma ministerial e afastar os insatisfeitos.

Horas depois, quando participava - sob mau tempo - de uma solenidade sobre os 70 anos da "liberação de Paris" do nazismo, o presidente apelou "à solidariedade nacional" para "enfrentar dificuldades sociais e os desafios econômicos".

Demitido, Montebourg saiu espalhando críticas. "A França e a Europa vivem uma crise sem precedentes desde a de 1929. Esta crise se tornou uma das consequências de escolhas políticas erradas suportadas pelos cidadãos europeus", sustentou, exortando a UE a parar a "austeridade absurda". "Está comprovado, conhecido e difundido que as políticas de austeridade, de altas de impostos ou de redução excessivas dos déficits públicos são a causa da prolongação da crise econômica e dos sofrimentos inúteis da população europeia."

Montebourg argumentou que célebres economistas internacionais, como Paul Krugman e Joseph Stiglitz, vêm advertindo sobre os riscos do rigor fiscal, e disse ver um "concerto de condenações internacionais de nossas políticas". "Minha responsabilidade é constatar a realidade, a de que não apenas essas políticas não funcionam, mas também são injustas", disse ele. "Sem crescimento, a redução de déficits é um absurdo financeiro, não impede a queda da atividade e impede a realização de seu objetivo."

As criticas do ministro demissionário refletem o mal-estar crescente na Europa contra os rumos da política macroeconômica da União Europeia, que exige medidas agressivas de redução de gastos públicos como resposta à crise das dívidas soberanas, iniciada em 2010. Hollande em pessoa anunciou que seu governo "vai pesar" sobre a balança de Bruxelas para alterar os rumos, mas o tom agressivo de Montebourg contra o governo, contra Angela Merkel e contra a UE não foi bem aceito, e o colocou em rota de colisão com o primeiro-ministro, Manuel Valls.

No final do dia, o índice CAC 40, o mais importante da Bolsa de Valores de Paris, saudou a decisão de Hollande de afastar Montebourg e subiu 2,1%.

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