André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Ministro da Justiça é tirado de cena para evitar desgate com Operação Carne Fraca

Em meio à grave crise, ordem foi que Osmar Serraglio tivesse a mínima exposição possível; em gravação, ele chama preso pela PF de ‘grande chefe’

O Estado de S.Paulo

21 de março de 2017 | 23h27

BRASÍLIA - O ministro da Justiça, Osmar Serraglio, foi orientado a se expor o mínimo possível desde que a Operação Carne Fraca veio à tona. A ordem partiu do Palácio do Planalto. Em conversas reservadas, auxiliares do presidente Michel Temer dizem que Serraglio deve “submergir” para evitar mais desgaste e não se indispor com a Polícia Federal.

A crise envolvendo Serraglio agrava-se até mesmo no PMDB, o partido do ministro. A senadora Kátia Abreu (PMDB-TO) disse ontem que, quando era ministra da Agricultura, ainda no governo Dilma Rousseff, Serraglio – à época deputado federal pelo PMDB do Paraná – e Sérgio Souza (PMDB-PR) a pressionaram para manter Daniel Gonçalves Filho no cargo. Ex-superintendente do Ministério da Agricultura no Paraná entre 2007 e 2016, Daniel é considerado pela Polícia Federal como o chefe da “quadrilha” desbaratada pela Operação Carne Fraca.

Interceptações telefônicas da Carne Fraca capturaram conversa de Serraglio com Daniel, um dos alvos da investigação. No diálogo, o ministro – à época deputado – se referia a Daniel como “grande chefe”. A PF, porém, apressou-se em dizer que ele não é investigado.

Acusação. “Esse cidadão que foi nomeado tinha processos administrativos no ministério e nunca tive notícias de uma pressão tão forte para não tirar esse bandido de lá”, afirmou Kátia. “Dois deputados do meu partido insistiram que a lei não fosse cumprida a ponto de eu ter que ligar para a presidente Dilma, comunicar minha decisão de demitir e avisar que, com as consequências políticas, eu iria arcar. E ela disse: ‘Demita já’”, relatou a senadora, no plenário.

Serraglio rebateu ontem a senadora. Em nota, o ministro da Justiça disse que a indicação foi feita pelo então deputado Moacir Micheletto, morto em acidente de carro em 2012, e “chancelada” pela bancada do PMDB no Paraná.

Serraglio afirmou que Kátia, à época ministra da Agricultura, admitiu em discurso no plenário que só manteria o superintendente regional no cargo se ele fosse apoiado por senadores do PMDB. “Sobre a resistência em nomear, deu-se por haver divergências políticas entre ela (Kátia) e a maioria da bancada, que era a favor do processo de impeachment (de Dilma Rousseff)”, escreveu o ministro.

Saída. Apesar das explicações, deputados e senadores pedem a cabeça de Serraglio. O governo avalia que houve “espetacularização” da operação da PF, com prejuízos à economia, mas orientou o ministro a não comprar briga. Se necessário, deve responder pontualmente às acusações.

A Comissão de Ética da Presidência também recebeu ontem representação assinada pelos deputados Afonso Florence (PT-BA) e Robinson Almeida (PT-BA) contra Serraglio. Os parlamentares entraram, ainda, com pedido de investigação na Procuradoria- Geral da República (PGR).

Além da apuração do esquema revelado pela Operação Carne Fraca, os petistas querem a demissão de Serraglio. O conselheiro Marcelo Figueiredo será o relator do caso na Comissão de Ética da Presidência. O colegiado tem reunião marcada para a próxima segunda-feira.

Os deputados alegam que o ministro está sob suspeição por ter interferido no processo. “Ninguém chama os outros de chefe gratuitamente”, disse Almeida. / VERA ROSA, ISABELA BONFIM, JULIA LINDNER, DAIENE CARDOSO E ERIC DECAT

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