Ministro De Vido chega ao Brasil com 'gesto de paz'

Em reunião com Lobão, em Brasília, argentino anunciará, sem alarde, que a suspensão de exploração da Petrobrás em Neuquén será revertida

TÂNIA MONTEIRO / BRASÍLIA, ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

20 de abril de 2012 | 03h03

O ministro argentino do Planejamento, Investimentos Públicos e Serviços, Julio de Vido, traz para a reunião de hoje com o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, uma espécie de sinal de paz. O cancelamento da licença para a Petrobrás explorar uma área na Província de Neuquén será revertido. A ideia é mostrar que a estatal brasileira não corre o mesmo risco dos espanhóis da Repsol.

Nas conversas que antecederam o encontro de hoje, representantes do governo federal argentino explicaram aos colegas brasileiros que o revés sofrido pela Petrobrás foi resultado de uma decisão de um governo local, por motivações políticas também locais.

O recado do governo de Cristina Kirchner já foi repassado ao Palácio do Planalto. Os argentinos, no entanto, não vão fazer nenhum alarde para anunciar a reversão da decisão para não causar mais problemas com a Espanha, que não se conforma com a expropriação da participação que a Repsol tinha na YPF. "Há coisas que a gente faz e não fala. Esta decisão deve ser tomada nesses moldes", disse fonte do governo brasileiro.

Em Brasília, permanece o sentimento de que os argentinos "não têm motivo" para repetir com empresas brasileiras, a mesma atitude tomada em relação à petrolífera espanhola. "Mas uma luz amarela acendeu em relação a novos investimentos brasileiros no País", ressaltou o interlocutor do governo brasileiro, comentando, no entanto "que eles não são nem loucos" de fazer uma coisa parecida com o Brasil.

A certeza se baseia no fato que a relação entre Brasil e Argentina é umbilical e há vínculos muito fortes entre as duas economias. "Há uma dependência comercial e energética", prosseguiu a fonte, lembrando que, em relação à Espanha, a dependência é mínima.

Oficialmente, o governo brasileiro continuará evitando comentar a decisão tomada contra os espanhóis, embora fontes ouvidas pelo Estado tenham considerado o gesto, no mínimo, pirotécnico e com potencial para trazer prejuízos à imagem da Argentina.

Pressão. Na Argentina, ontem, De Vido e o vice-ministro da Economia, Axel Kicillof, ordenaram aos diretores da expropriada YPF que aumentem a produção da empresa imediatamente. O plano é reverter a queda de produção de petróleo e gás da YPF nos últimos anos e mostrar a suposta eficiência do governo da presidente Cristina Kirchner nas empresas estatais.

Além disso, o governo pretende "mostrar serviço" na YPF, e assim reverter a má imagem que a administração estatal teve nos últimos anos no país. Um dos casos emblemáticos é o da companhia aérea Aerolíneas, que após a reestatização, há meia década, sempre fechou os anos com substanciais déficits.

De Vido e Kicillof, respectivamente designados pela presidente Cristina para o posto de interventor e vice-interventor da YPF, ordenaram a preparação de um plano para perfurar e reparar mais de mil poços de petróleo. Além disso, determinaram que a refinaria da YPF na cidade de La Plata, Província de Buenos Aires, deverá aumentar sua produção em 8% de forma imediata.

Os dois também anunciaram a abertura de negociações com a francesa petrolífera Total, para ampliar a capacidade produtiva das jazidas de petróleo que a empresa tem em algumas áreas do país, em conjunto com a YPF. O plano do governo é aumentar em 2 milhões de metros cúbicos diários de gás a produção das jazidas nas áreas de Aguada Pichana e Aguada San Roque, na Província de Neuquén. Ambas são responsáveis por 20% da produção de gás da Argentina.

Na Espanha, o governo do primeiro-ministro Mariano Rajoy vai avaliar hoje que medidas tomar em resposta à decisão argentina na reunião semanal do Conselho de Ministros. Os ministros de Assuntos Exteriores, José Manuel García Margallo, e da Indústria, Manuel Soria, já adiantaram que preparam medidas "claras e contundentes".

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