Johannes Eisele / AFP
Johannes Eisele / AFP

China responde com retaliações de US$ 60 bilhões e leva EUA à OMC

Após decisão asiática, Trump disse no Twitter que o país poderá implementar novas medidas; presidente americano impôs tarifas sobre US$ 200 bilhões em importações chinesas

Jamil Chade e Gabriel Bueno da Costa, O Estado de S.Paulo

18 Setembro 2018 | 03h00
Atualizado 18 Setembro 2018 | 21h30

GENEBRA -  O governo da China anunciou que vai aplicar retaliações contra produtos americanos no valor de US$ 60 bilhões, depois que a Casa Branca divulgou uma elevação de tarifas no comércio com Pequim, e o presidente Donald Trump ameaçar ampliar as sanções como uma espécie de "fase três", caso o país asiático endureça o tom.

Entre as delegações de países em Genebra, na sede da Organização Mundial do Comércio, o temor é de que as retaliações mútuas e o avanço protecionista americano saiam do controle, afetando a economia mundial. 

Na lista de produtos que os chineses vão sobretaxar estão alguns dos principais concorrentes das exportações brasileiras. Cerca de 1,6 mil produtos serão atingidos por uma alta de 5% nas tarifas, incluindo aeronaves, produtos têxteis e computadores; 10% da tarifa será imposta sobre 3,5 mil produtos, incluindo carnes, trigo e vinho, além de produtos químicos. A lista tem como objetivo afetar a base eleitoral de Trump e do Partido Republicado. 

 Numa mensagem nas redes sociais, Trump voltou a alertar que não aceitaria que os chineses colocassem o setor agrícola americano como alvo de uma retaliação. “A China declara que está ativamente tentando impactar e mudar nossa eleição ao atacar nossos fazendeiros e trabalhadores da indústria que são leais a mim”, disse. “O que a China não entende é que essas pessoas são grandes patriotas”, completou. 

 A guerra ainda levou o bilionário Jack Ma a mandar um alerta sobre a guerra comercial: ela vai durar mais do que se espera e terá um enorme impacto. Segundo o homem mais rico da China, a disputa pode durar 20 anos e ir muito além da presidência de Trump. No fundo, segundo ele, o que está em jogo é a supremacia no cenário global. 

 Num discurso em Hangzhou, ele alertou que, “no curto prazo, a comunidade empresarial na China, EUA e Europa estão em apuros”. “Isso vai durar muito tempo. Não há uma solução no curto prazo”, declarou. 

Tarifas sobre US$ 200 bilhões

Nessa segunda-feira, 17, Trump indicou que vai impor tarifas de 10% sobre US$ 200 bilhões em importações chinesas, a partir do dia 24. Essas tarifas aumentarão para 25% no início de 2019. Essa nova rodada se soma aos US$ 50 bilhões que já haviam sido taxados no início do ano, o que significa que os EUA vão cobrar tarifas de quase metade de tudo o que compram da China.

O comunicado do presidente americano afirma que, “se a China tomar medidas de retaliação contra nossos agricultores ou outras indústrias, imediatamente buscaremos a fase três, que são tarifas adicionais sobre aproximadamente US$ 267 bilhões de importações”.

Retaliação americana pode chegar a R$ 500 bilhões

Trump havia deixado claro que, se os produtos americanos fossem alvos de retaliações, uma nova onda de barreiras seria anunciada, desta vez atingindo US$ 267 bilhões. Se isso ocorrer, Washington terá elevado tarifas para mais de US$ 500 bilhões desde o começo da administração Trump. Na prática, isso significará que mais de 50% do comércio bilateral terá sido afetado por medidas protecionistas. 

Os dois governos já tinham imposto tarifas extras de 25% a US$ 50 bilhões em produtos de ambos os lados. Pequim, por exemplo, havia elevado tarifas para soja e outros produtos agrícolas dos EUA. 

Além da retaliação, o Ministério do Comércio da China anunciou que acionou a OMC no caso das medidas adotadas pelos americanos. Pequim, que já solicitou impor sanções no valor de US$ 7 bilhões contra os EUA por causa de uma outra disputa, insiste que está sendo tratado de forma injusta pelo governo americano. 

A decisão de acionar a OMC, porém, tem como objetivo resguardar os interesses da China, já que uma solução em Genebra para a mais recente disputa poderia vir em um prazo de dois anos. 

Decisão prejudica diálogo entre China e EUA

O governo chinês ainda aponta que a decisão de Trump afeta os esforços de diálogos entre os dois países, iniciado na semana passada e aplaudido por governos estrangeiros. “Os EUA insistem em aumentar tarifas, o que traz incertezas às consultas entre os dois lados”, alertou a China, que já considera suspender as reuniões diante de um ambiente “envenenado”. 

“Espera-se que os EUA reconheçam as consequências possivelmente negativas de tais ações e as corrijam no momento adequado”, alertou.  

Entre atores políticos, governos e representantes do setor privado, o temor é de que a crise saia de controle. A Câmara de Comércio americana na China alertou que a Casa Branca está subestimando a determinação de Pequim em proteger seus interesses. “O espiral para baixa que temos alertado parece que agora está se materializando”, disse William Zarit, presidente da entidade. 

“Não estamos otimistas com uma possibilidade de um acordo no curto prazo”, alertou. “Ninguém sairá vitorioso disso”, insistiu. Para ele, Washington não está se dando conta de que a China não irá ceder. 

“Estamos vivendo uma loucura econômica com as tarifas americanas”, alertou Mats Harborn, chefe da Câmara de Comércio da Europa na China.

As empresas americanas também estão preocupadas, alertando que o aumento de tarifas contra produtos chineses poderia fazer com que os produtos aos consumidores americanos sofram uma inflação. Uma das empresas que fez o alerta é a Apple Inc.

No banco UBS. as estimativas apontam ainda que a elevação de tarifas em 10% poderia inclusive desacelerar a economia americana, exigindo até uma ação do Federal Reserve Bank. 

Na OMC, diplomatas confirmaram ao Estado que o clima é de “alerta”, já que a iniciativa de Trump foi seguida por mais ameaças, o que indicaria que a guerra comercial “não está ainda em seu auge”. 

Guerra comercial é prejudicial ao Brasil

O presidente da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), José Augusto de Castro, lembra que a decisão de Trump e a retaliação dos chineses vão provocar uma contração do comércio internacional. A previsão anterior, diz ele, era de um crescimento de 3,9% no comércio exterior mundial para este ano. Agora, deve ficar em 2,5%.

"Isso é negativo para o Brasil, que é muito dependente da venda de commodities. Ontem (segunda-feira, 18), a Bolsa da China atingiu seu menor nível em quatro anos. Isso é uma sinalização de que os chineses podem ter problemas internos e externos a partir de agora. Com a China vendendo menos produtos, ela também terá menos condições de comprar os produtos brasileiros. O País deve ter uma redução nas receitas de exportações.” 

Ele avalia que o Brasil não deve levar vantagem nem a curto prazo. Um agravante é que a venda de manufaturados brasileiros para o exterior é muito dependente da Argentina, que também passa por problemas. "O Brasil depende das reformas estruturais para se tornar competitivo no exterior, uma responsabilidade de quem for eleito. Sem reformas tributária e previdenciária, investimento privado em infraestrutura e redução do déficit fiscal, mesmo que o comércio mundial esteja crescendo, o desempenho brasileiro fica limitado." /COLABOROU DOUGLAS GAVRAS

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