Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Ministro quer agenda realista com os EUA

Em visita a Washington, Armando Monteiro disse que brasileiros e americanos vão voltar a discutir a facilitação do comércio bilateral

CLÁUDIA TREVISAN , O Estado de S.Paulo

13 Fevereiro 2015 | 02h05

Depois de meses de semiparalisia nas relações bilaterais, Brasil e Estados Unidos decidiram voltar a conversar em torno de uma agenda "realista" de facilitação do comércio e convergência regulatória, definida nos últimos dois dias em visita a Washington do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Armando Monteiro.

Como os Estados Unidos já têm baixas tarifas de importação de bens industrializados, essas medidas são tão ou mais importantes do que acordos comerciais para dinamizar o comércio, disse o ministro em entrevista ontem em Washington.

Monteiro foi o primeiro integrante do novo governo Dilma Rousseff a visitar os EUA e o primeiro a chegar à capital americana com uma agenda positiva desde que a presidente cancelou a visita de Estado que faria em outubro. A decisão foi uma resposta ao escândalo de espionagem de suas comunicações pela Agência de Segurança Nacional (NSA, na sigla em inglês).

"O Brasil precisa ter uma política comercial mais ativa e um elemento fundamental é a revalorização da relação com os Estados Unidos. E um sinal claro disso é o fato de minha primeira viagem ser para o país", declarou Monteiro.

Em reuniões com a secretária de Comércio, Penny Pritzker, e o Representante Comercial dos Estados Unidos, Michael Froman, o ministro discutiu acordos que poderiam facilitar o comércio bilateral, entre os quais mencionou a uniformização de normas e a interligação dos Portais de Comércio Exterior. Essas plataformas, que estão em construção nos dois países, centralizam em um único lugar todos os procedimentos de exportação e importação que devem ser realizados pelas empresas.

Esses acordos são pontuais e podem produzir efeitos de curto prazo, observou Monteiro, que foi mais cético em relação a negociações de tratados de livre-comércio e de bitributação, duas demandas do setor privado. O ministro observou que a negociação sobre a bitributação se arrasta há décadas, sem resultados, enquanto o livre comércio enfrenta as restrições das regras do Mercosul.

O eventual avanço nas relações comerciais poderá ter impacto positivo na relação bilateral e criar um ambiente favorável à visita presidencial a Washington, disse Monteiro, ressaltando que ainda não há uma data definida para a viagem.

Os dois lados concordaram em trabalhar na agenda de facilitação de comércio e convergência regulatória e marcaram para março uma reunião de técnicos para discutir essas questões. Também decidiram marcar para junho o Fórum de CEOs brasileiros e americanos, que deveria ter ocorrido durante a viagem presidencial de outubro.

Ontem, Monteiro almoçou com integrantes do Brazil-US Business Council, que reúne cerca de 100 empresas com investimentos no Brasil. "O ministro deixou claro que os Estados Unidos passaram a ser a prioridade nas relações comerciais e de investimentos do Brasil e isso não era dito havia anos", observou Gabriel Rico, CEO da Câmara Americana de Comércio (Amcham) no Brasil.

O ministro avaliou que a desvalorização do real em relação ao dólar deverá impulsionar as exportações de manufaturados e ajudar a levar a balança comercial de volta a um resultado positivo, depois do déficit registrado em 2014. "A fase do câmbio hostil para a indústria está passando", ressaltou. "O câmbio será mais amigável", acrescentou, ressaltando que o longo período de apreciação cambial foi "muito duro" para o setor.

O resultado positivo da balança comercial também deve ser ajudado pela conta petróleo, que ficou negativa em US$ 16 bilhões no ano passado. A expectativa é que o resultado melhore em 2015 em razão da queda nas cotações do produto.

Espionagem cancelou visita. Em outubro de 2013, a presidente Dilma Rousseff faria uma visita ao presidente americano Barack Obama, mas a viagem foi cancelada algumas semanas antes por causa da descoberta de que o governo dos Estados Unidos, por meio da Agência Nacional de Segurança (NSA, na sigla em inglês), espionava tanto a presidência da República quanto a Petrobrás. A notícia da espionagem e o cancelamento da viagem provocaram um esfriamento nas relações entre os dois países. Este ano, presente na cerimônia de posse de Dilma, o vice-presidente americano, Joe Bidden, refez o convite para a viagem, que pode ainda este ano.

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