Ministro Rodrigues admite mutação do vírus

O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, admitiu nesta quarta-feira, em Eldorado, no Mato Grosso do Sul, que a mutação do vírus pode ser uma das explicações para o surto de aftosa que atinge a região. Além do foco constatado na fazenda Vezozzo, onde 582 bovinos e 7 suínos foram abatidos, há suspeitas de pelo menos dois outros focos no município de Japorã.Segundo Rodrigues, cientistas brasileiros e estrangeiros estão analisando amostras recolhidas dos animais infectados para o estudo virológico. "Precisamos saber como a doença apareceu e todas as possibilidades estão sendo consideradas." Ele lembrou que essa é apenas uma hipótese, reforçada por alguns sintomas que os animais doentes apresentaram. Caso se confirme, a situação ficará ainda mais complicada, pois todo o rebanho já vacinado poderia ser suscetível à contaminação.Rodrigues disse que ainda não tinha conseguido estimar o prejuízo causado pela ocorrência de aftosa ao País. "Nesse momento, nosso pessoal está se reunindo com a União Européia e explicando todas as medidas emergenciais que tomamos." Ele acha que as restrições podem se tornar menos severas, se os países importadores forem convencidos de que tudo está sendo feito "com responsabilidade" para isolar o foco. Prejuízo - Cobrado por um fazendeiro que tem 3.800 animais interditados numa fazenda vizinha, o ministro disse que não podia garantir a indenização do rebanho, caso venha a ser abatido. "O governo não tem fundos para isso." Já para a dona da fazenda Vezozzo, Emília Furquino Vezozzo, o ministro prometeu que a indenização será paga assim que o trabalho de avaliação for concluído.Na região de Eldorado, a economia começa a ser afetada. Três frigoríficos estão parados. Se não for autorizada a comercialização da carne desossada, os 2 mil funcionários entram em férias coletivas a partir de segunda-feira. A prefeita Mara Caseiro (PDT) disse que a pecuária representa 65% do ICMS do município, em torno de R$ 180 mil por mês. "Está sendo um caos", disse. Vírus - De acordo com o veterinário Rubens Grespan, que atende várias propriedades na região, o vírus da aftosa é complexo e tem três tipos e vários subtipos, por isso ele não descarta a hipótese de uma mutação que o tornaria imune à vacina. O que afetou o rebanho da fazenda Vezozzo é do tipo O, mas ainda não se sabe o subtipo. A doença atinge praticamente todos os animais biungulados, ou seja, que têm unha ou casco partido ao meio. São exemplos os bovinos, bubalinos, ovinos e caprinos, além de animais silvestres, como a capivara e o veado. Abatedor aponta arma para res; cerca de 591 cabeças de gado eliminadas pela Polícia Civil do MS A moléstia é considerada uma zoonose, porque também atinge o homem, mas os casos são raros. Nos animais, a doença produz febre. O vírus passa rapidamente de um animal para outro e migra facilmente, levado até por animais silvestres. Contrabando - O criador Antonio Basílio Astorini, de 57 anos, em cujo sítio foi constatado o segundo foco suspeito de aftosa, denunciou ao Estado o contrabando de gado do Paraguai para fazendas do Mato Grosso do Sul. Segundo ele, criadores e comerciantes atravessam o gado paraguaio para o lado brasileiro para vender por quase o dobro do preço. Eles não são incomodados pela quase ausente fiscalização, garante.No país vizinho, segundo ele, os bois são adquiridos sem nota e a preços mais baixos que no Brasil. "Por ganância, acabam prejudicando quem trabalha direito." Foi assim, segundo ele, que parte de seu plantel de 317 cabeças pode ter adquirido a febre aftosa. O sítio de Astorini fica no município de Japorã, vizinho de Eldorado, região da fronteira, e já foi interditado pelo Iagro.O coordenador da Defesa Civil do Mato Grosso, coronel João Alves Calixto, disse que o município de Japorã foi incluído na área em situação de emergência. Todas as propriedades já foram vistoriadas e a confirmação dos casos suspeitos depende de saírem os resultados dos exames. Por prevenção, nas áreas onde há suspeita, o acesso foi totalmente proibido. Paraguai - Brasil e Paraguai vão ampliar a colaboração mútua para reduzir os riscos de aftosa na região de fronteira. O ministro brasileiro reuniu-se com o diretor do Serviço Nacional de Qualidade e Saúde Animal do país vizinho, Hugo Adolfo Corrales Irrazabal, para discutir as novas ações. O Brasil manterá o fornecimento de vacinas aos criadores paraguaios.O governo paraguaio fechou a fronteira para a entrada de animais vivos e veículos suscetíveis de portar o vírus. Forças do Exército dão apoio às 15 barreiras instaladas ao longo da divisa. O país tem 10 milhões de cabeças e exporta carne para 35 mercados internacionais. "Ainda não sofremos restrições por causa desse surto, mas é um risco", disse o diretor paraguaio.

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