Minoritários querem que Gafisa venda ativos

A Gafisa realizará hoje uma assembleia geral ordinária (AGO) para eleger um novo conselho de administração. A reunião deve ser marcada por uma acirrada disputa de interesses. Um grupo de acionistas minoritários está insatisfeito com a atual administração da companhia. Eles vão tentar aumentar sua representação no conselho para ganhar voz em decisões estratégicas da Gafisa.

MARINA GAZZONI, O Estado de S.Paulo

11 de maio de 2012 | 03h08

A Gafisa é uma das empresas brasileiras de capital aberto mais pulverizadas - 99,8% das suas ações estão no mercado. Assim, seu maior acionista tem uma fatia de apenas 5% do capital. Hoje, o único acionista com presença no conselho da empresa é a Rio Bravo, representada por Guilherme Affonso Ferreira, um de seus sócios.

Uma divergência sobre a indicação de nomes inviabilizou a formação de uma chapa única para a eleição do conselho da Gafisa. Os minoritários queriam a inclusão de Maria Fernanda Coelho, ex-presidente da Caixa Econômica, e de Marcelo Moreira, ex-diretor do Pátria Investimentos, no quadro de conselheiros.

A proposta não foi aceita sob o argumento de que eles não seriam independentes. Maria Fernanda estaria ligada à Funcef e Moreira ao Pátria, ambos acionistas da empresa. Ferreira discordou da decisão e pediu para ter seu nome retirado como candidato da atual administração. Ele passou a compor o grupo dos indicados pelos acionistas minoritários.

Hoje, eles vão escolher os nove conselheiros por meio de voto múltiplo, ou seja, eles podem votar em nomes das duas chapas. Com o capital pulverizado, todo voto faz diferença. Assim, os dois grupos lançaram comunicados convocando os acionistas a votar a seu favor. "Os acionistas devem ter voz nas questões que lhe dizem respeito", disse a Polo Capital, autora do pedido de voto múltiplo.

A Gafisa reagiu e disse, em comunicado, que o voto deve considerar "propostas". "A assembleia não é um plebiscito entre a administração atual e outros candidatos. Deveria ser uma oportunidade de confronto de projetos concretos", disse a empresa. No mesmo comunicado, a companhia classificou a atitude dos minoritários como "uma simples busca de exercício de poder sobre o patrimônio de terceiros, sem evidência da real aptidão para obter melhores resultados".

Ferreira tem se reunido com outros minoritários desde maio de 2011 para discutir uma maior participação na empresa. Foram entre oito e nove encontros. Participaram dessas conversas, por exemplo, a Polo Capital, o Pátria, a Schroder e a Funcef, o fundo de pensão da Caixa Econômica Federal.

A divulgação de um prejuízo de R$ 1 bilhão da empresa no quarto trimestre de 2011 irritou os investidores. "A empresa falava que iria gerar caixa no terceiro trimestre do ano passado, mas divulgou um ajuste forte", disse um dos minoritários, que não quis se identificar.

"O que temos em comum é que estamos insatisfeitos com a gestão da Gafisa. Mas, de fato, ainda não há uma proposta conjunta para a empresa ", disse outro investidor.

Há, no entanto, críticas "coincidentes". Uma delas se refere à intenção da companhia em adquirir 20% das ações de Alphaville. A Gafisa comprou a empresa em 2006, com a opção de adquirir as fatias que faltavam no fim de 2010 e 2011, de 20% cada uma.

A empresa está disposta a comprar o restante de Alphaville e está avaliando opções para o pagamento (caixa ou ações). A Gafisa vê a aquisição como um bom negócio, já que Alphaville traz resultados positivos.

Mas, para alguns investidores, não é momento para aquisições e sim venda de ativos. "O conselho deveria atentar para as restrições da companhia e considerar uma operação de venda total ou parcial deste ativo", disse a Polo Capital, em comunicado. "A Gafisa tem uma dívida de R$ 4 bilhões. Pobre não compra joia, vende", completa Ferreira.

Recusa. A rejeição da proposta de aquisição da empresa pelos seus ex-controladores - o fundo GP Investimentos e a Equity International - pelo conselho de administração no fim de fevereiro foi outro divisor de águas. A Gafisa diz que "a recusa da proposta se deu por conta de seus valores muito baixos e de sua difícil implementação, que traria riscos à companhia".

Para os investidores, a decisão não era tão simples e não cabia ao conselho. "A proposta, boa ou ruim, deveria ter sido discutida pelos acionistas em uma assembleia e não em um conselho que não tem ação", disse Ferreira, que não participou da reunião que decidiu contra a proposta.

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