Filipe Araújo/AE
Filipe Araújo/AE

Mirtilos já gostam de um calorzinho

O cultivo desta berry não ia acima da Região Sul. Hoje, novas variedades tornam viável o plantio em regiões mais quentes

Fernanda Yoneya, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2011 | 00h00

Se o principal obstáculo para a produção de mirtilo no Brasil era o clima, já não é mais. Com a introdução de variedades adaptadas a regiões quentes, o cultivo da pequena fruta, que precisa de muitas horas de frio por ano para produzir, tem boas chances de se espalhar para além da Região Sul do País, a principal produtora, com cerca de 200 hectares cultivados.

O mirtilo ou blueberry, fruta consumida in natura e sobretudo na forma de geleias, foi introduzido no País no início dos anos 1980, quando o pesquisador Alverides Machado dos Santos, da Embrapa Clima Temperado, trouxe dos EUA as primeiras plantas.

No Brasil, mudas das novas variedades estão sendo produzidas na Chácara Catavento, em Piracicaba (SP). O primeiro lote de plantas chegou em maio do ano passado. Uma empresa de Holambra (SP) cuidou da aclimatação e propagação das plantas. "A fase de aclimatação em Holambra durou quatro meses e as plantas chegaram a Piracicaba com 20 centímetros", diz a agrônoma Tatiana Cantuarias-Avilés, representante exclusiva no Brasil dos Viveiros Sunnyridge, empresa com capital norte-americano e chileno, responsável pelo desenvolvimento dessas novas variedades de mirtilo, em parceria com a Universidade da Flórida (EUA).

 

 

 

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linkEm SP, mudas no quintal 

Entressafra. Segundo Tatiana, a empresa viu no Brasil um enorme potencial para o cultivo da fruta. "O Sudeste tem solos ácidos e bem drenados, requisito ideal para o bom desenvolvimento do mirtilo."

Outra vantagem, diz a agrônoma, é que o Brasil poderia produzir a fruta na época de entressafra do Hemisfério Norte, conseguindo melhores preços. "A safra no Hemisfério Norte vai de março a setembro. A colheita no Brasil começaria em setembro/outubro, época em que o único fornecedor para o Hemisfério Norte é a Austrália." O pesquisador da Embrapa Clima Temperado, Luis Eduardo Antunes, concorda. "Há um grande potencial para a fruta no Brasil. Temos condições de produzir na entressafra e exportar."

Em Piracicaba estão sendo produzidas mudas de quatro variedades: emerald e jewel, que se destacam pelo vigor e bom rendimento por planta, e primadonna e snow chaser, mais precoces. "A emerald adapta-se bem a regiões com 50 a 400 horas de frio/ano. A jewel, em locais com 30 a 100 horas de frio/ano. Variedades anteriores não se desenvolvem se não houver pelo menos 300 horas de frio por ano", compara Tatiana, acrescentando que se considera "frio" temperaturas abaixo de 7 graus.

Rendimento. Em relação ao rendimento, a agrônoma diz que as novas variedades rendem, por planta, de 4 a 5 quilos e no mínimo 10 toneladas por hectare, ante 1 a 2 quilos por planta, ou de 6 a 8 toneladas de fruta por hectare, nas variedades antigas. No ano passado, Tatiana produziu 15 mil mudas. A meta deste ano é 100 mil mudas. Cada muda custa R$ 10 e, em um ano, começam a produzir. Bem manejadas, produzem por mais de 30 anos, garante Tatiana. "É uma planta longeva."

O viveiro trabalha com pedidos mínimos de mil plantas. "Mas o produtor deve ter um perfil empresarial, porque o investimento inicial é alto. São necessárias 3.333 plantas por hectare. Fora as mudas, é preciso investir em irrigação, adubo, controle de pragas e doenças, mão de obra, câmara fria para armazenar a fruta colhida e embalagens. Não é barato."

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