Missão de Azevêdo é atrair Obama

Novo diretor-geral assume uma OMC em crise e marginalizada pelos EUA, que dão prioridade aos acordos regionais de comércio

JAMIL CHADE , CORRESPONDENTE / GENEBRA, O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2013 | 02h04

Momentos depois de saber que havia conquistado o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), Roberto Azevêdo confessou à família: "É agora que começa a parte mais difícil". Experiente e vivendo nos meandros da OMC há anos, ele sabe o que diz.

O brasileiro assume a OMC na pior crise de sua história e, acima de tudo, marginalizada pelo governo de Barack Obama, que optou por acordos regionais. Pior: há 20 anos as regras comerciais não são atualizadas, justamente no período em que a globalização transformou o cenário internacional.

Criada nos anos 90 como a grande esperança de ser uma entidade do século 21, eficiente e atualizada, a OMC vive hoje uma paralisia sem precedentes. As divisões entre membros sobre os rumos do comércio internacional levaram a entidade a um colapso de credibilidade.

A principal tarefa de Azevêdo será dar uma solução para a Rodada Doha, ainda que pelos estatutos da entidade ele não tenha poder além de propor negociações e ser uma espécie de guardião do livre-comércio. Mas, para chegar a isso, terá de convencer a Casa Branca a voltar a dar atenção ao multilateralismo.

Em 2001, Doha foi lançada com a meta de estabelecer novas regras para o comércio internacional e liberalizar o setor agrícola, tendo em vista os interesses dos países em desenvolvimento. O processo deveria ter sido concluído em 2005. Mas, quase uma década depois, não há acordo nem sobre como superar o impasse nem como enterrar de vez o processo.

Governos como o dos EUA, Europa, Argentina ou África do Sul fizeram questão de apontar que a renovação na direção da entidade era um "sinal positivo" e "novos ares" poderiam facilitar um entendimento. "Mudar sempre é bom", declarou Shahid Bashir, embaixador do Paquistão que liderou o processo de seleção.

Enquanto embaixadores davam declarações fortes, guindastes e obras continuavam no edifício-sede da OMC, que está passando por uma renovação milionária para adaptar o prédio aos novos tempos.

Mas, para observadores em Genebra, tudo indica que é apenas o prédio que passa por reforma. Segundo eles, esperanças similares em relação a Azevêdo já existiram nos últimos anos em relação a outros diretores.

Quando em 2002 o tailandês Supachai Panitchpakdi assumiu a OMC, o discurso era de que a chegada de um representante de um país em desenvolvimento ajudaria a desbloquear o processo. Três anos depois, ele foi acusado de imobilismo e de ter fracassado.

Em seu lugar chegou uma verdadeira vedete na época do comércio internacional, o francês Pascal Lamy, considerado um dos principais negociadores no mundo. Uma vez mais, os discursos eram de que Lamy mudaria a trajetória da OMC. Porém, ele sai da entidade desgastado e com baixo capital político.

Não foram poucas as ocasiões em que Lamy disse que o problema não é nem a OMC nem seus diretores, mas o fato de que a crise global afetou o sistema multilateral. "Não se pode pedir que países estejam dispostos a negociar quando, internamente, estão em crise."

No fundo de todo o debate está a capacidade de Azevêdo em convencer os EUA a voltarem à mesa de negociação. Durante todo o mandato de Barack Obama, Washington manobrou para não se comprometer com um acordo na OMC, buscando parcerias fora da entidade, tanto com a Ásia como em novo acordo comercial com a Europa.

Aposta. Para negociadores, a opção por Azevêdo foi uma aposta na retomada do multilateralismo e de grande interesse para a China, que não quer ficar fora do novo esquema montado pelos americanos. Isso porque, para a estratégia comercial brasileira, o que o Itamaraty não quer é ver a marginalização da entidade se transformar em um vácuo que dará aos EUA e à Europa a possibilidade de estabelecer novas regras comerciais entre eles e, assim, voltar a impor padrões ao resto do mundo.

Diplomatas que conversaram com o Estado indicaram que o objetivo do apoio ao candidato mexicano derrotado, Hermínio Blanco, era justamente essa estratégia. Ele mesmo já havia indicado que uma de suas propostas era colocar a Rodada Doha numa espécie de congelador, modificar o caminho das negociações e optar por regras bilaterais. Kevin Gallagher, professor na Boston University , é enfático: "Os EUA abandonaram o multilateralismo".

Apesar da vitória de Azevêdo, especialistas alertam que dificilmente o hábil negociador brasileiro poderá superar a crise. "Não bastará apenas um novo diretor da OMC para tirar a entidade de sua crise",alertou Simon Evenett, professor da Universidade de St. Gallen, na Suíça. "Doha está morta e os acordos regionais ganharam muito mais força", completou.

Para provar o contrário, a primeira grande tarefa de Azevêdo será a de salvar a conferência ministerial da OMC, marcada para dezembro em Bali, que teria de definir qual caminho a entidade tomaria em relação a Doha: matar o processo ou dar-lhe vida, aprovando um minipacote de medidas. "Não há sucesso garantido para Azevêdo", confessou um diplomata europeu. "O mundo está profundamente dividido sobre o comércio", alertou. O próprio Azevêdo concorda. "Se Bali não resultar em um acordo, o caminho será bem mais difícil."

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