Missão impossível

O País afinal se dá conta das reais proporções do desafio que o novo governo terá de enfrentar para restaurar a credibilidade da política econômica, restabelecer o controle sobre as contas públicas, trazer a inflação de volta à meta e superar o quadro de desconfiança e estagnação que se instalou na economia.

Rogério L. Furquim Werneck, O Estado de S.Paulo

07 de novembro de 2014 | 02h03

Seria tarefa hercúlea, mesmo para um governo convicto do que precisa ser feito e da necessidade de incorrer nos inevitáveis custos políticos que estarão envolvidos. Muito mais difícil será para a presidente Dilma, ao cabo de uma campanha eleitoral inconsequente, em que se permitiu não só negar a necessidade de qualquer correção de rumo na política econômica, como demonizar os penosos ajustes que agora terão de ser feitos.

Fosse a presidente mais afeita à delegação de responsabilidade, a simples nomeação de uma nova equipe econômica, claramente alinhada à agenda de mudanças requeridas, poderia ser vista como sinal convincente da sua efetiva disposição de imprimir novo rumo à condução da política econômica.

Mas, tendo construído sólida reputação de centralizadora implacável, que jamais abriu mão de manter controle férreo sobre cada detalhe da política econômica, a presidente precisa de bem mais do que uma mudança de equipe, para dar credibilidade à ideia de que a mudança de rumo é de fato para valer. De nada adiantará uma nova equipe, se Dilma continuar apegada às mesmas ideias equivocadas que redundaram no desastroso desempenho da economia que hoje se vê. Ter isso em conta ajuda a perceber quão disparatada é a ideia de que um simples remanejamento da equipe econômica do primeiro mandato, com reescalação de reservas, seria suficiente para dar credibilidade à suposta disposição de Dilma de dar rumo mais promissor à condução da política econômica.

A manutenção de Guido Mantega na Fazenda tornou-se insustentável. E a presidente já deixou claro que vai substituí-lo. Mas isso não impediu que o ministro se sentisse confortável para declarar que o resultado da eleição mostrou que a população aprova a política econômica em curso. Como Mantega sobreviveu mais de oito anos no cargo, sem jamais ter proferido frase que não contasse com chancela prévia dos seus superiores, é bem provável que essa sua leitura peculiar da mensagem das urnas seja a que de fato prospera no Planalto.

No cenário de simples remanejamento da equipe econômica do primeiro mandato, os nomes que têm sido mencionados na mídia para ocupar o cargo de ministro da Fazenda são Nelson Barbosa e Luciano Coutinho.

Reiterando recomendação mais alentada que já fiz neste mesmo espaço, em 31/1/2014, sugiro a quem está propenso a acreditar que Nelson Barbosa está apto a comandar a restauração da credibilidade da política econômica que leia o artigo que ele publicou sob o título A inflexão do governo Lula: política econômica, crescimento e distribuição de renda, disponível em http://migre.me/hEprG. Escrito em tom triunfalista, em meio à euforia de 2010, o artigo apresenta relato quase épico dos grandes feitos que vinham sendo logrados pela "opção desenvolvimentista", após a derrota da "visão neoliberal" no governo Lula, com o abandono da proposta de ajuste fiscal de longo prazo. Passados quatro anos, e estando a economia como está, sua leitura se tornou imperdível.

Não é razoável supor, tampouco, que a restauração de credibilidade possa ser comandada por Coutinho, arquiteto do gigantesco orçamento paralelo que vem sendo operado no BNDES com recursos provenientes de emissão de dívida pelo Tesouro, foco de boa parte do descrédito em que caíram a condução da política fiscal e o registro das contas públicas nos últimos anos.

Com uma simples dança de cadeiras, Dilma não conseguirá que o País leve a sério sua suposta disposição de enfrentar a pesada agenda de política econômica que tem pela frente. Se ela nem mesmo puder contar com uma nova equipe econômica, a restauração da credibilidade hoje necessária está fadada a se tornar missão impossível.

*Rogério L. Furquim Werneck é economista, doutor pela Universidade de Harvard e professor titular do departamento de Economia da PUC-Rio 

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