ROBERTO STUCKERT FILHO/PR-26/5/2015
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Misturando tequila com cachaça

Que bom seria se os latino-americanos México e Brasil cooperassem mais; visita de Dilma parece ser plano tático

O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2015 | 03h00

Num relacionamento, é sinal de que as coisas vão mal quando um dos lados anuncia que a relação está sendo “reinventada” e o outro fala da importância de que eles não “deem as costas um para o outro”. A primeira declaração foi feita pelo presidente do México, Enrique Peña Nieto. A segunda saiu da boca de sua colega brasileira, Dilma Rousseff, que entre 25 e 27 de maio realizou sua primeira visita de Estado ao vizinho do norte. Os dois prometeram um novo começo. Assumiram o compromisso de estimular o comércio entre as duas nações e assinaram acordos para facilitar investimentos e ampliar vínculos no segmento de serviços aéreos. E brindaram com tequila e cachaça.

Brasil e México são os dois gigantes da América Latina. Juntos concentram mais de metade da população, do PIB e das exportações da região. Apesar disso, não é exagero dizer que se ignoram mutuamente. É bem verdade que as trocas bilaterais dobraram ao longo dos últimos dez anos, mas seu volume é de meros US$ 9,2 bilhões ao ano; e nenhum dos dois países está entre os sete maiores parceiros comerciais do outro. Em 2012, quando a balança comercial do setor automotivo ficou negativa para os brasileiros, eles romperam o pacto de livre-comércio que tinham com os mexicanos e o substituíram por um sistema de cotas.

Os investimentos são uma exceção à indiferença de parte a parte. Atualmente, o Brasil só perde para os Estados Unidos como destino para os investimentos estrangeiros dos mexicanos. “Não há grande empresa mexicana que não esteja no Brasil”, diz José Antonio Meade, ministro das Relações Exteriores do México. Perto dos US$ 23 bilhões que os mexicanos investem no Brasil, os US$ 2 bilhões que os brasileiros investem em solo mexicano são quase nada, mas esse montante está crescendo.

Os dois chefes de Estado concordaram em dar início, em julho, a negociações para ampliar o modesto acordo comercial (excluindo automóveis) atualmente em vigor entre as duas nações. A ideia é aumentar de 800 para 6 mil o número de itens incluídos no acordo, expandindo-o para setores como agricultura, serviços e compras governamentais. Dilma disse esperar que as trocas entre os dois países voltem a dobrar até 2025.

Não é difícil ver a visita com algum cinismo. Tanto Peña Nieto, como Dilma lideram governos impopulares, atingidos por escândalos. Alguns de seus antecessores fizeram promessas parecidas, anunciando uma aproximação que nunca aconteceu. Na prática, os dois países com frequência atuam como adversários. Ambos apresentaram candidaturas para chefiar a Organização Mundial do Comércio (a do Brasil ganhou). Os brasileiros se recusaram a apoiar um forte candidato mexicano à chefia do Fundo Monetário Internacional. Não existe coordenação entre suas ações no G-20, grupo que reúne as maiores economias do mundo; e o mesmo acontece no tocante às mudanças climáticas, assunto que preocupa a ambos.

E isso tudo porque há menos pontos de contato do que de desunião entre os dois países, a começar pelo idioma e pela distância (um voo sem escalas entre a Cidade do México e São Paulo leva quase dez horas). O que mais os separa, porém, é o fato de eles terem visões diferentes sobre o mundo e sobre o lugar que lhes cabe no concerto das nações.

Ao ingressar com Estados Unidos e Canadá no Acordo de Livre-Comércio da América do Norte, que entrou em vigor em 1994, o México aceitou que seu destino econômico se desenharia antes de mais nada no norte, e não no sul. O país se abriu para o livre mercado e para a globalização. Deu pouca atenção à América do Sul - pelo menos até se unir a Chile, Colômbia e Peru no bloco comercial Aliança do Pacífico, em 2012. Por sua vez, no cenário internacional, o país continua a ser uma potência tímida: a diplomacia brasileira é quase três vezes mais numerosa do que a mexicana.

O Brasil passou os últimos 20 anos tentando organizar um bloco sul-americano, tendo como núcleo a suposta união alfandegária de cunho protecionista chamada Mercosul. As inclinações econômicas do país são dirigistas e sua política externa valoriza a “autonomia” (em relação aos Estados Unidos, note-se). Recentemente, os brasileiros resolveram priorizar o Bric, grupo de que participam também Rússia, Índia e China. “Faz parte da política externa brasileira exercer na América Latina uma liderança que exorcize o México, por conta de seus laços com os EUA”, diz Andrés Rozental, do Consejo Mexicano de Asuntos Internacionales.

Acontece que, às voltas com uma recessão, a presidente Dilma tem sido pressionada pelos empresários brasileiros a buscar novos mercados. Sem fazer alarde, seu governo começa a apostar mais fichas na ampliação do comércio externo. Em resposta à Aliança do Pacífico, os brasileiros tentam apressar a formalização de acordos de livre-comércio com Peru e Colômbia (nas trocas com o Chile, as tarifas de importação já foram eliminadas). Além disso, Dilma deve ir a Washington este mês, numa tentativa de melhorar as relações estremecidas e tratar de negócios com os americanos.

Dilma falou de um novo “eixo tequila-cachaça” entre Brasil e México. A América Latina só teria a ganhar se isso viesse a se concretizar, e não apenas em termos econômicos. Se as duas maiores potências da região trabalhassem juntas, haveria espaço para ações coordenadas no enfrentamento de problemas como o desrespeito às normas democráticas na Venezuela.

No entanto, a visita de Dilma ao México parece fazer parte de uma mudança de cunho tático, e não de uma transformação mais fundamental. E Peña Nieto tampouco dá mostras de que pretenda romper com o velho hábito dos mexicanos de se contentar com um lugar menor ao que o México faz jus no mundo. Tequila e cachaça são duas bebidas fortes, mas a maioria das pessoas prefere não misturá-las.


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