Mixou o carbureto

O eleitor médio desdenha das contas públicas, rejeita a reforma da Previdência, acredita no Estado provedor

Luís Eduardo Assis*, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

O futuro já não é mais o que foi um dia. Quando Michel Temer anunciou sua equipe econômica o mercado financeiro engoliu, com casca e tudo, a ideia de que um choque de expectativas seria o bastante para fazer a economia crescer. Pensava-se que sinalizar com uma norma rígida para expansão das despesas públicas despertaria o “espírito animal” dos empresários, estimulando o crescimento da produção e, portanto, da arrecadação de impostos, o que arremataria o ajuste das contas públicas. Não foi assim.

O governo, corretamente, elegeu a questão fiscal como prioritária, mas se equivocou ao pautar a aprovação do teto de gastos antes da reforma da Previdência. Estaríamos hoje melhor se tivéssemos aprovado a reforma da Previdência, mesmo sem a emenda que regula o limite de gastos, pela simples razão que o teto não se sustenta sem novas regras previdenciárias. De forma análoga, no fim do ano passado também predominava o otimismo. Imaginava-se que o crescimento da economia ganharia impulso e a queda do desemprego poderia obstar candidaturas populistas, que tem pouco ou nenhum compromisso com o ajuste fiscal.

Aqui também a decepção é certa. A mudança nas expectativas foi rápida e a greve dos caminhoneiros agiu como um catalisador do desalento. Em dezembro, os analistas pesquisados pelo Bacen esperavam um crescimento do PIB da ordem de 2,7%. Com pequena oscilação, a perspectiva de um crescimento desta magnitude foi mantida até o início de maio. Em pouco mais de um mês, os ânimos se arrefeceram e a previsão agora não passa de 1,76%.

A frustração do crescimento também contaminará o mercado de trabalho e o desemprego não cairá tanto quanto se imaginava. No final de 2017, o Ministério do Trabalho projetou a abertura de 1,78 milhão de empregos em 2018, compensando parcialmente o corte líquido de 3 milhões de vagas entre 2015 e 2017. Mas o crescimento do emprego no mercado formal estolou. Durante 25 meses consecutivos, a partir de abril de 2016, o saldo líquido de vagas com carteira assinada acumulado em 12 meses subiu. Em maio último, no entanto, este indicador recuou, revertendo uma tendência que já vinha esmaecendo. Um modelo de projeção univariada de amortecimento exponencial sugere hoje a criação de apenas 417 mil postos de trabalho, algo como um sétimo das vagas fechadas nos últimos três anos.

Um crescimento menor – talvez pífio – altera as perspectivas para o quadro eleitoral. Parece ser indisputada a ideia de que em situações de frustração econômica o eleitorado tenda a se inclinar para quem proponha soluções mágicas. Há quem pense que estamos imunes ao populismo porque o eleitor, depois do estelionato eleitoral de 2014, teria aprendido a rejeitar um governante que promete uma coisa e faz outra. Por essa linha de raciocínio, os candidatos não se furtariam a deixar claro suas propostas para equilibrar as contas públicas. Ledo engano.

Um candidato que fosse subitamente acometido por um surto de sinceridade teria que dizer que o caminho do crescimento exige sacrifícios, que o ajuste fiscal demanda revisão de direitos e que o corte de desperdícios e o combate à corrupção são insuficientes para o ajuste fiscal. Não é isso o que o eleitor quer ouvir. O eleitor médio desdenha das contas públicas, rejeita a reforma da Previdência, acredita no Estado provedor e está farto de pensar que o melhor da vida já aconteceu. Não há por que contrariá-lo, pelo menos no discurso. Melhor ser um presidente em um país em crise do que um candidato derrotado, pensarão nossos políticos. Precisamos mais do que um debate eleitoral para enxergar nossas mazelas. O crescimento econômico medíocre, logo agora, reforça nossa vocação para empurrar o futuro para mais longe.

* ECONOMISTA, FOI DIRETOR DE POLÍTICA MONETÁRIA DO BANCO CENTRAL DO BRASIL E PROFESSOR DA PUC-SP E FGV-SP. E-MAIL:LUISEDUARDOASSIS@GMAIL.CO

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