Mobilidade urbana vira assunto das montadoras

Programas de compartilhamento de carros atraem empresas na Europa, EUA e Japão

CLEIDE SILVA, O Estado de S.Paulo

25 de agosto de 2013 | 02h16

Além de preocupadas com a imagem de vilãs por causa das emissões de poluentes, congestionamentos e acidentes provocados pelo grande número de veículos nas ruas, as montadoras veem nas ações para melhorar a mobilidade, como o compartilhamento de carros, uma nova forma de ganhar dinheiro.

Chamado de car sharing, o sistema de compartilhamento já atraiu Mercedes-Benz, Volkswagen, BMW, Ford, Citroën, Renault e Toyota, que lançaram projetos na Europa, Estados Unidos e Japão. Atualmente, cerca de 3 milhões de pessoas utilizam esse serviço e as estimativas são de que esse número chegue a 26 milhões em 2020.

"É uma nova maneira de tornar o negócio rentável, deixando de ser apenas produtor do bem para também prestar serviços", diz o sócio da consultoria PriceWaterhouseCoopers (PwC), Marcelo Cioffi.

O modelo de compartilhamento se popularizou a partir de 2010, com as facilidades das tecnologias de conexão, e permite que várias pessoas usem o mesmo veículo. O aluguel é cobrado por hora e inclui combustível, seguro e manutenção.

No Brasil, iniciativas começam a aparecer. A Mercedes-Benz inicia este mês um projeto-piloto de transporte compartilhado para eventos, shows, programas esportivos e serviços à la carte, chamado Van Comigo.

É uma espécie de aluguel de veículo, mas feito sob o guarda-chuva da montadora por meio do site www.vancomigo.com.br. O usuário informa data e evento que pretende ir e faz a reserva de um assento na van, normalmente uma perua Sprinter.

O veículo sai de áreas com bolsões de transporte público, como metrô e terminais de ônibus, leva o usuário ao evento e depois o deixa no mesmo local da partida. O custo pode ser inferior ao que se pagaria de estacionamento caso o consumidor fosse com seu carro. Um trajeto de ida e volta de Santana (zona norte de São Paulo)ao estádio do Morumbi (zona sul), por exemplo, custa R$ 30 por pessoa.

"O objetivo é oferecer um transporte confiável e prático que simplifique e melhore a experiência das pessoas na hora de ir a eventos", diz Fernanda Bordin, gerente de Inovação de Negócios da Mercedes. Ela ressalta que, por enquanto, não há preocupação com a rentabilidade do projeto, feito em parceria com frotistas, que ficam com a maior parte do valor do serviço.

Na Europa, onde a companhia foi pioneira em oferecer o compartilhamento e hoje dispõe de diferentes modalidades do serviço, a Mercedes projeta receita de 100 milhões em 2014. Ainda é valor insignificante diante da receita do grupo, de 114,3 bilhões em 2012, mas tende a ganhar importância.

Lei Seca. Segundo Fernanda, a iniciativa no Brasil incentiva o uso do transporte coletivo, que ajuda a reduzir poluentes, além de atender à Lei Seca, pois o veículo é conduzido por profissionais. O programa vem sendo testado nos últimos dois meses com os funcionários da montadora e será aberto ao público em geral. Por enquanto, atende a capital paulista e as cidades de Santo André e São Bernardo do Campo, no ABC paulista.

O diretor de Comunicação Corporativa da Mercedes, Mario Laffitte, ressalta que a mobilidade é questão-chave das grandes metrópoles "e como nosso negócio está ligado à mobilidade não podemos negligenciar o fato, por isso estamos atentos a iniciativas inovadoras." Dependendo dos resultados da fase de testes, a Mercedes estenderá o programa a outras cidades.

Na Europa, há programas em que o consumidor pega o carro em qualquer parte da cidade e pode deixá-lo onde quiser. Um aplicativo indica onde está o veículo mais próximo. Com um cartão recebido ao se inscrever no programa, pagando uma pequena taxa, o usuário abre o carro e tem acesso à chave para ligar o motor. Com a onda dos carros verdes, boa parte da frota é de carros elétricos ou híbridos.

"Ter carro próprio está cada vez mais caro, e em vários países desenvolvidos boa parcela dos jovens já não vê o automóvel como um bem que precisa ter", ressalta Cioffi. É nesse filão que as montadoras estão de olho. Já nos países emergentes, ainda há demanda pelo transporte privado, em grande parte porque o transporte público não é eficiente. "Nesses países, o problema da mobilidade ainda não tem tanta importância", diz Stephan Keese, sócio da consultoria Roland Berger.

Para Keese, ainda que algumas iniciativas de compartilhamento surjam no Brasil, projetos de maior fôlego ainda estão distantes da realidade local. Ele concorda que nas regiões mais industrializadas como Europa e EUA, onde a importância pela posse do automóvel começa a diminuir e o transporte público é mais eficiente, esses serviços vão ganhar importância nos próximos anos.

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