'Modelo baseado em renda se esgotou'

'Modelo baseado em renda se esgotou'

Para ex-diretor do Banco Mundial, País precisa melhorar a produtividade para voltar a crescer

Entrevista com

Carlos Braga, professor do IMD

RENÉE PEREIRA, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2014 | 02h09

O modelo de crescimento da economia brasileira baseado em emprego e renda está esgotado e precisa mudar. Essa é a opinião do ex-diretor do Banco Mundial, Carlos Braga, professor de política econômica internacional do International Institute for Management Development (IMD), que publica todo ano o ranking mundial de competitividade. "O fato de o Brasil estar crescendo 1,0% (segundo o governo deve crescer 0,9% este ano) reflete o esgotamento de um modelo." Na avaliação dele, o País precisa apostar mais na melhora da produtividade, que tem tido um desempenho muito ruim comparado a seus concorrentes.

Em entrevista ao Estado, Braga afirmou que será mais fácil manter uma política de distribuição de renda se o País voltar a crescer e chegar ao seu crescimento potencial, entre 3,5% e 4,0%. Para isso, será necessário aumentar a taxa de investimento, reduzir burocracia, melhorar a regulamentação e abrir mais a economia para o mercado internacional. "O ponto básico é que quando você aumenta a proteção da economia você cria um viés antiexportador. Na economia mundial, hoje tudo é muito integrado."

Na última edição do ranking do IMD, o Brasil perdeu três posições, perpetuando tendência que já ocorre há quatro anos, desde que passou da 38.ª (2010) para 54.ª posição (2014) no ranking. Na área de infraestrutura, o País perdeu duas colocações. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Por que o Brasil tem perdido posição no ranking de competitividade mundial?

O modelo de crescimento do Brasil nos últimos anos está essencialmente baseado no crescimento da mão de obra, diferente da China, onde o crescimento da economia está associado ao capital intensivo. No Brasil, se você perguntar quanto do crescimento foi produtividade e quanto foi crescimento de emprego, vai ver que mais de 70% é crescimento de emprego. É uma economia que, em termos de produtividade, tem tido um desempenho muito ruim comparado a México e Estados Unidos, por exemplo. Mas tem um momento que esse modelo começa a se esgotar.

Quais são os pontos fracos do Brasil?

A infraestrutura é uma área que afeta muito a competitividade. O ambiente regulador e a educação também. Aumentamos a cobertura do sistema educacional brasileiro, mas a qualidade dessa educação ainda deixa desejar. Para passar para a nova fase de desenvolvimento, e escapar do que os economistas chamam de armadilha da classe média, você tem de ter um desempenho na área de produtividade muito maior do que nós temos tido nos últimos anos. Quando você está enfatizando consumo e redistribuição de renda isso vem com o aumento dos salários. Mas aí é que está o problema porque, se o salário real está aumentando muito acima da produtividade, as margens das empresas vão ser afetadas, vão ocorrer pressões inflacionárias que requerem do governo medidas mais restritivas de política monetária.

É possível conciliar a distribuição de renda e a melhora da produtividade ou será necessário priorizar um dos dois?

Fica muito mais fácil manter distribuição de renda se o País estiver crescendo. A taxa de crescimento potencial do Brasil é da ordem de 3,5% a 4,0% ao ano. O fato de estar crescendo 1,0% reflete o esgotamento de um modelo. Se o Banco Central não segurar o processo através de taxa de juros reais elevadas, nós vamos perder o controle da inflação de novo e ninguém quer isso. Por outro lado, como o sistema se esgotou em termos de aumento de consumo e estamos trabalhando bem próximo do pleno emprego, há uma situação em que você pode ter as melhores intenções em relação a distribuição de renda, mas a taxa de juro real estará lá em cima, o que significa que o nosso nível de investimento vai continuar a ser anêmico, abaixo de 20% do PIB. E muito abaixo de países como a China, em que a taxa de investimento é da ordem de 45%. A questão não é ser contra a redistribuição. É apenas reconhecer que se continuar a crescer 1,0% ao ano, ter taxa de crescimento real de salários nos níveis dos últimos anos e não fizer nenhuma mágica em relação à produtividade e níveis de investimentos obviamente vamos ter dificuldade para ter o crescimento potencial. Hoje, o Brasil ficou um dos países mais caros em manufaturas do mundo. Não somos mais competitivos nem em relação a países como Estados Unidos, o que é um absurdo. Isso reflete o processo de desindustrialização.

Como reverter esse quadro?

É preciso criar políticas econômicas, de regulamentação e diminuir a burocracia. Tem de ser um governo que reconheça que não é o setor público que vai liderar o processo de investimentos. É o setor privado. Como fazer o setor privado voltar a investir? Tem de reduzir taxa de juro real, reconhecer que durante um período, o crescimento da taxa de salário real vai ter de se arrefecer, botar muito mais ênfase na qualidade de educação e criar mecanismos para investimentos pelo setor privado em infraestrutura. Não será de uma hora pra outra que o quadro vai mudar. Mas temos perdido competitividade sistematicamente. Se não reconhecerem que o modelo adotado desde 2002 chegou aos seus limites, vamos continuar com esse jogo de empurra, crescimento anêmico e taxas de juros reais elevadas.

Mudar o modelo significará reduzir o nível de emprego?

Certamente ocorrerão ajustes. Mas esses ajustes já estão ocorrendo, independentemente de o governo querer ou não. Quando a gente vai perdendo competitividade alguns setores da economia vão sofrendo ajustes. Isso já está ocorrendo. Um estudo do Boston Consulting, recém lançado, compara as 25 maiores economias exportadoras do mundo e olha o custo de trabalho, da eletricidade e outros itens. O Brasil comparado com Estados Unidos está 23% mais caro.

A melhora da produtividade terá de passar por uma abertura da economia brasileira?

Acredito que sim. Quando você liberaliza a economia, alguns setores que estão próximos da fronteira tecnológica melhoram. A Embraer é um bom exemplo de uma empresa que mesmo atuando no Brasil está bem integrada e consegue ser competitiva internacionalmente. Para ela, se há uma liberalização, fica mais fácil encontrar fornecedor, ela terá mais recurso e mais incentivo para investir ainda mais em pesquisa e desenvolvimento. Se você tem um segmento, como bens de capital, que é muito protegido e está distante da fronteira tecnológica, esse grupo vai ter de se ajustar. Como fará isso, vai depender de empresa para empresa. Não estou dizendo que é fácil. Quando você liberaliza você tem ganhadores e perdedores. O ponto básico é que quando você aumenta a proteção da economia você cria um viés antiexportador. Na economia mundial, hoje tudo é muito integrado. Você não produz tudo dentro da sua fábrica. Você tem produtos intermediários que vêm de outras fábricas e do resto do mundo. Se você tem tarifas e barreiras não tarifárias elevadas o custo desses produtos intermediários é relativamente mais elevado no Brasil do que num país como a China. É claro que varia de setor para setor. Não se pode generalizar em termos de impacto em todos os segmentos da indústria. Mas do ponto de vista macroeconômico o alto nível de proteção cria um viés antiexportador. Agora uma empresa que está dentro da economia brasileira, operando só no mercado doméstico, mesmo que seja uma multinacional, ela pode estar até contente porque as margens provavelmente são maiores no Brasil do que em outros países. Por quê? Porque há menos competição. Compare o preço de um carro no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa.

A infraestrutura poderia ser um grande motor de crescimento no País e mesmo aparecendo como prioridade para o governo, ela não avança de forma expressiva? É uma questão regulatória?

Nos últimos dois anos, houve alguns avanços em termos de marcos regulatórios e concessões. Mas precisa fazer muito mais. O Brasil é um ponto fora da curva em termos de investimento em infraestrutura e, por isso mesmo, neste momento, representa uma grande oportunidade. Se amanhã o governo decidir fazer um processo de reforma regulamentadora de criar incentivos e credibilidade para investimentos nessa área, não tenho dúvida de que capital do mundo inteiro estaria muito interessado, desde que as regras do jogo sejam claras. O que não pode é a cada seis meses mudar a regra do jogo. Então tem um potencial significativo para conseguir aumentar a atratividade do capital estrangeiro e nacional para o setor. Um dos pontos fundamentais é que, se você acredita que o setor público vai resolver todos os problemas da infraestrutura, o resultado é o que se tem hoje. Se você acredita que o setor privado pode ter um papel mais efetivo você tem de investir na sua capacidade reguladora e criar um sistema que tenha credibilidade. Essa é uma área que, independentemente de quem ganhar as eleições, vai necessitar de uma mudança de atitude. É uma área que tem um potencial grande.

Tem alguma área de infraestrutura que cabe ao Estado?

Diferentes países têm diferentes modelos. Podem argumentar que água e saneamento básico num país com o nível de desenvolvimento do Brasil, o Estado poderia ter um papel importante. Isso não significa que não pode ter parcerias. Outras áreas como telecomunicações, energia e portos eu diria que o Estado conseguiria resultados mais interessantes através de privatização e parcerias. A privatização de telecomunicações ocorreu nos anos 90. Não quer dizer que os resultados são sempre maravilhosos, mas a realidade é que a penetração de telefonia no Brasil hoje é muito maior do que era antes. Pode criticar qualidade e preço. Mas acho que tem muita margem para melhorar as parcerias com o setor privado.

Quais as diferenças entre o modelo chinês e o brasileiro?

A China abraçou o processo de globalização, a despeito da ideologia comunista e retórica do partido. As políticas do país foram feitas para depender mais do mercado internacional. Eles colocaram ênfase no setor manufatureiro. Naturalmente, houve um processo de transformação estrutural, que no Brasil ocorreu nos anos 50, 60 e 70, que é o processo de urbanização, migração do campo para a cidade. Hoje, nós temos 85% da população em centros urbanos. A China tem entre 50% e 60%. Estamos falando de um processo que nos próximos dez anos vai trazer cerca de 200 milhões de pessoas do campo para a cidade no país. Esse processo estrutural ainda está ocorrendo. Você está trazendo pessoas de um setor de baixa produtividade para segmentos de maior produtividade, como manufatura e serviços modernos. Isso é a base do crescimento explosivo da China. Temos de entender os momentos diferentes do processo de desenvolvimento da China e do Brasil. A China agora está chegando perto da renda per capita do Brasil e vai enfrentar outros tipos de problemas, que são exatamente os problemas de como ser uma economia baseada em produtividade e inovação. Mas ela tem muita munição em termos de mudança do campo para cidades. Até 1979, a China era totalmente voltada para dentro e liberalizou sua economia a partir daí. Esse processo aumentou ainda mais com a entrada na OMC em 2001. A china tem uma economia bem aberta, não tem um viés antiexportador. Muito pelo contrário. Há incentivos para ser competitivo no mercado internacional, há uma política cambial que alguns argumentam ser predatória porque o banco central intervém para evitar a apreciação do renminbi. Tudo isso dá uma estratégia de desenvolvimento diferente da brasileira, que nos últimos anos adotou política mais protecionista.

É possível competir com os chineses?

A China é um país que se você olhar em termos de preços relativos, hoje ela é 4,0% a 5,0% mais barata que os EUA. A grande diferença é que há dez anos ela era 25% mais barata. O custo da mão de obra na China está se elevando. Uma coisa é fazer o processo de desenvolvimento que a China vem trilhando baseado na expansão de manufatura, baixo custo e integração no mercado internacional quando há um processo de transformação estrutural em curso. Apesar de ter limites, ela ainda tem muita munição, pois tem bastante gente para trazer e manter o dinamismo. Mas ela está convergindo para os níveis do Brasil em termos de renda per capita. Aí vai ser a questão: será que a China vai conseguir complementar esse processo de desenvolvimento com avanço de produtividade?

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