Felipe Rau/Estadão
8% da frota de mais de 1 milhão de veículos das empresas são destinadas a assinatura Felipe Rau/Estadão

Modelo de assinatura já concentra 8% da frota de locadoras de automóveis

Para presidente de associação do setor, participação desse tipo de serviço tende a dobrar em dois anos

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2021 | 05h00

O presidente da Associação Brasileira das Locadoras de Automóveis (Abla), Paulo Miguel Junior, informa que 8% da frota de mais de 1 milhão de veículos das empresas do segmento são destinadas aos programas de assinatura. Segundo ele, essa participação tende a dobrar em cerca de dois anos, quando o mercado estiver mais estável.

Além do custo, uma das vantagens da modalidade, em sua opinião, é o consumidor “se livrar de todo o trabalho da documentação, da manutenção e da parte mais desgastante que é a hora da revenda”. Miguel Junior afirma que muitas vezes os concessionários oferecem preços aviltantes para o carro usado. Os proprietários que querem realizar a venda também se sentem inseguros em colocar anúncios e receber interessados em sua própria casa.

No programa da Localiza, o Meoo, criado em novembro, há opções de assinatura por até quatro anos e franquias de 4,5 mil km ao mês. A locadora calcula uma economia de até 20% em relação ao carro próprio. A empresa é a primeira a ter uma loja exclusiva para o produto em Belo Horizonte (MG). Um plano da empresa em São Paulo de um modelo econômico, por prazo de 48 meses e franquia de 1 mil km, custa em média R$ 1,15 mil por mês.

Segundo a locadora Movida, a assinatura é boa opção para quem não tem o sentimento de posse, não quer esquentar a cabeça com as burocracias de ter um carro e quer flexibilidade para mudar o contrato quando precisar. Também é interessante para quem quer vender o carro para investir em outros projetos ou para os que escolhem migrar do transporte público para o individual sem precisar comprar um carro – ação que ocorre neste momento em razão da pandemia da covid-19.

Uma das ofertas da Movida é o Fiat Mobi Like, por três anos e 1 mil km de franquia por mês a R$ 897 nos primeiros três meses e R$ 999 após esse prazo. O Chevrolet Onix sedã, nas mesmas condições, sai por R$ 1,3 mil nos primeiros seis meses e R$ 1,65 mil a partir da sétima mensalidade.

Miguel Junior acredita que a modalidade possa se estender também para carros usados. “No Brasil ninguém ainda entrou nesse segmento, mas nos Estados Unidos algumas empresas já operam dessa forma”, diz. “A assinatura não precisa ficar restrita ao zero quilômetro pois, se for estendida aos usados vai movimentar mais o mercado”, concorda Ricardo Bacellar, da KPMG.

A assinatura também vem crescendo entre empresas. A Arval, que atua na locação de frotas, espera crescimento de 150% em contratos dessa modalidade neste ano, "ainda que em um cenário de pandemia", afirma Maximiliano Fernandes, diretor comercial e de marketing da empresa. Segundo ele, o aluguel por assinatura pode ser até 30% mais barato do que a compra.

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Carro por assinatura dá sinais de crescimento e vira aposta de montadoras

Serviço ainda está em fase de assimilação pelo consumidor brasileiro, mas já mostra alguns resultados preliminares positivos para fabricantes e locadoras de veículos

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2021 | 05h00

Ter acesso a um carro novo por assinatura, da mesma forma que os serviços de streaming, como Netflix e Globoplay, é a mais recente modalidade para vender carros adotada pelas montadoras do Brasil. Na visão de analistas, esse tipo de contrato por prazos de até três anos, que deixa nas mãos do consumidor apenas gastos com combustível e eventuais multas, vai representar uma fatia importante dos negócios nos próximos anos.

Introduzido por locadoras há cerca de quatro anos, o serviço era tratado basicamente como aluguel de longo prazo, similar ao leasing, e mais voltado a pessoas jurídicas. A partir de meados de 2020, quando as próprias fabricantes de veículos começaram a entrar no ramo usando o termo assinatura, o conceito vem se espalhando. Há ofertas de carros compactos, como o Fiat Mobi, de super luxo, como o Audi RS5, e até elétricos da Tesla, todos zero quilômetro.

Sete fabricantes locais já lançaram programas, administrados por seus bancos ou concessionárias. Eles funcionam como os planos de assinatura dos serviços de conteúdo, com diferentes pacotes que determinam o valor a ser pago mensalmente. O preço depende do modelo escolhido, prazo de contrato (de um a três anos) e a quilometragem a ser rodada por mês.

Por serem programas recentes, a maioria das montadoras não divulga número de assinaturas, mas uma delas já comemora os resultados. “Em pouco mais de dois meses conseguimos 1,5 mil contratos”, informa Ricardo Gondo, presidente da Renault do Brasil. 

Chamado de On Demand, o serviço tem atraído principalmente consumidores de 35 a 45 anos e pode ser adquirido on-line e com entrega do carro na casa do cliente.

Na opinião do executivo, o interesse atual está ligado, em parte, à pandemia da covid-19, em razão da insegurança de várias pessoas que utilizam transporte público e carros de aplicativo. “No médio e longo prazo, contudo, será uma tendência, assim como já é na Europa, e vai crescer.”

Nos contratos da Renault até agora, com prazos de 12 a 24 meses, 60% escolheram o mais curto demonstrando, na visão de Gondo, “que as pessoas estão testando o novo formato”. 

Segundo ele, parte dos consumidores, até então donos dos carros, não quer mais se preocupar com a burocracia de adquirir e manter um modelo novo (documentação, pagamento de impostos, seguro, revisão e manutenção técnica) – e tudo isso está incluído na assinatura.

Também tem o cliente que não quer imobilizar seu capital na compra de um veículo e prefere aplicar o dinheiro e pagar parte das mensalidades com os rendimentos. Outro perfil é o do consumidor que não tem condições de adquirir um automóvel à vista ou dar a entrada no financiamento, mas consegue bancar a prestação mensal da assinatura. Tem ainda os que simplesmente gostam de experimentar modelos diferentes sem a burocracia de comprar e depois vender.

O carro preferido dos assinantes da Renault é o Kwid Outsider, cujo contrato mensal varia de R$ 1,1 mil a R$ 1,44 mil. A montadora também oferece as demais versões desse modelo, o Stepway, o Duster e, em breve, o elétrico Zoe. A vantagem entre a assinatura e a compra é uma conta individual, pois envolve como e quanto a pessoa usa o automóvel mas, na maioria dos casos, é mais vantajosa.

Proposta tem de ser sedutora

A Audi, primeira no setor a lançar seu programa de assinatura em setembro, inicialmente como piloto e agora oficializado, informa que, ao levar em conta o custo total de propriedade de um carro da marca, a assinatura chega a ser em média 25% mais barata se comparada à compra.

Para Ricardo Bacellar, líder da área automotiva da consultoria KPMG no Brasil, o serviço de assinatura no País ainda passará por uma etapa de aprendizagem de montadoras e consumidores. “A oferta tem de ser sedutora o suficiente para atrair o cliente para essa modalidade.”

Em sua visão, o que tem no mercado até agora não é muito atrativo para o comprador de carro de entrada (os mais baratos). Além disso, o lançamento dos programas está ocorrendo num momento de crise, de falta de confiança do consumidor, de desemprego elevado, alta dos preços e falta de peças para a produção, o que leva a uma espera de até três meses para receber o veículo.

Bacellar acredita, por outro lado, que a assinatura pode “abrir uma porteira gigantesca para a retomada da produção”, pois é crescente o número de pessoas em todo o mundo que não quer mais a posse do automóvel, apenas o uso. Ele também vê a modalidade como uma janela para maior introdução de carros elétricos no País.

“Hoje a compra dos elétricos é inviável para a maioria das pessoas, pelo alto custo, mas, se o consumidor tiver oportunidade de testar o carro por um tempo e ver que a infraestrutura funciona, é possível que, no futuro, as montadoras tenham até escala para a produção local”, avalia o consultor.

Demanda vai crescer

Com o programa Audi Luxury Signature, a marca informa que os clientes são principalmente executivos de alto escalão de empresas. Os modelos mais procurados são os elétricos e-tron, com parcelas mensais de R$ 11,6 mil, e o e-tron Sportback, por R$ 11,9 mil em contratos de dois anos e 2 mil km para rodar por mês.

O grupo Caoa colocou no mercado em março o Caoa Sempre, com modelos da Chery e os importados da Hyundai. “Apesar de recente, o programa tem nos surpreendido de forma positiva por conta da crescente demanda”, informa o diretor executivo comercial do grupo, Jack Nunes. Segundo ele, a maior concentração está no Tiggo 5xT, com prestações a partir de R$1,8 mil.

A Stellantis (holding da Fiat, Jeep, Peugeot e Citroën), criou em janeiro o Flua!, por enquanto apenas em oito cidades de São Paulo e em Curitiba (PR), com planos para 12 a 36 meses. O Fiat Mobi entrou no programa recentemente, mas já lidera a preferência dos assinantes com a versão Trekking, que tem 12 parcelas de R$ 1,2 mil (para franquia mensal de 1 mil km) a R$ 1,6 mil (3 mil km). Para o Jeep Renegade Longitude, o plano de 36 meses custa de R$ 2,1 mil a R$ 2,45 mil.

A arquiteta Doreane Oliveira Silva, de 56 anos, vendeu seu carro e passou a utilizar o metrô para ir e voltar do trabalho e para sair aos finais de semana, pois morava próximo a uma estação. Há um ano, mudou-se para a zona Leste e, sem o metrô por perto decidiu fazer assinatura em uma locadora.

“Fiz todas as contas e achei que valia a pena”, diz. Doreane ficou com um Ford Ka por um ano e, em março, quando o contrato venceu, fez outra assinatura, desta vez com a Fiat, para um Mobi que deve receber em dez dias. Desta vez ele fez contrato por dois anos e paga R$ 1,26 mil ao mês.

Outra fabricante que já criou seu programa de assinatura é a Nissan, mas por enquanto está em teste para funcionários. A montadora antecipa que colocou 100 modelos Kicks à disposição e em dois dias todos foram alugados. O plano da Volkswagen, lançado em novembro, contempla os modelos Nivus, T-Cross, Jetta, Tiguan e Virtus.

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Assinatura de carro é opção para evitar o Uber e para quem quer um ‘carrão’

Modalidade conquista desde cliente de modelos mais básicos até o consumidor disposto a gastar R$ 20 mil por mês

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

11 de abril de 2021 | 05h00

Após viver dois anos nos EUA, Lucas Dolabela, de 34 anos, voltou ao Brasil em 2019 decidido a não ter mais carro próprio. Passou a usar o Uber até meados do ano passado, quando, em razão da pandemia, achou melhor voltar ao transporte individual.

Como não queria “empatar” dinheiro na compra de um automóvel nem ter “dor de cabeça” com seguro, impostos e manutenção decidiu pela assinatura de um Chevrolet Onix sedã na Localiza. Formado em economia e finanças e sócio do fundo de investimentos Horizonte Capital, Dolabela fez as contas e achou a modalidade vantajosa.

Ele fez assinatura por dois anos para rodar 1 mil km por mês e paga R$ 1,4 mil mensais. “O carro custa R$ 80 mil; se eu colocasse o dinheiro em um investimento com risco teria rendimento de R$ 3,2 mil, ou quase duas parcelas”, calcula.

“Incluindo a desvalorização, equivalente a R$ 16 mil, já são mais de dez prestações”, compara Lucas. Quando completar os dois anos, ele vai renovar a assinatura e, como gosta de carros, vai testar diferentes modelos. “A ideia é manter para sempre (a modalidade)”, afirma.

O empresário da área de tecnologia Rafael Barbalho se ressentia de não ter opções de locação de carros premium no mercado. “Eu ficava caçando opções, mas era difícil encontrar.” Ele achou o formato que queria quando surgiu a assinatura.

Barbalho decidiu vender seu carro e o da esposa, investiu o dinheiro e alugou um Audi RS5 por cerca de R$ 19 mil ao mês. Ele escolheu o modelo, a cor e os opcionais e a locadora Osten Fleet importou o carro exclusivo para ele. “O cliente escolhe o modelo como se ele fosse comprar, mas nós é que compramos mediante o contrato de assinatura”, explica Liandra Boschiero, gerente da Osten Fleet.

Os prazos oferecidos pela empresa são de 12 a 48 meses. Na devolução, o carro é revendido. O grupo Osten é dono de revendas como BMW, Jaguar, Land Rover e Jeep e atua com seguros.

O empresário fez a assinatura do RS5 por dois anos e pretende fazer um contrato também para a esposa. À vista, o modelo sairia por R$ 660 mil. Com 32 anos, ele conta que trabalha desde os 14 anos e agora quer “curtir” as coisas que não podia ter antes.

Embora atue com a compra de carros escolhidos pelo cliente, a Osten Fleet também traz ao País modelos que representem inovação.

Recentemente o grupo importou dois Model 3 da Tesla e outros quatro Model Y estão a caminho. Um dos Model 3, que custa R$ 700 mil, está com a assinatura quase fechada. Apesar do preço à vista ser um acima do RS5, a assinatura é mais barata pois o gasto com manutenção de carros elétricos é inferior ao de um a combustão, explica Liandra, e deve ficar na casa dos R$ 18 mil.

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