Modelo de China e Argentina beneficiaria Brasil, diz Unctad

Os países em desenvolvimento, entre eles o Brasil, deveriam seguir o modelo de política macroeconômica praticado pelos asiáticos, em especial a China, e pela Argentina, concluiu um relatório anual da Unctad (Conferência da Organização das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) divulgado nesta quinta-feira. O economista Heiner Flassbeck, um dos autores do levantamento Trade and Development, disse em entrevista à BBC Brasil que a política macroeconômica brasileira, com alta taxa de juros e câmbio valorizado, está "errada"."Nesse relatório recomendamos o modelo macroeconômico da Ásia, que tem vários mecanismos para lutar contra a inflação sem que seja pela elevação da taxa de juros e pela valorização cambial", explica."Os asiáticos mantêm a inflação baixa basicamente pela intervenção do governo no processo que determina os preços e, mais importante, na política de renda. A China tem, por exemplo, uma regulamentação controlando o crescimento do salário nominal para evitar forte inflação."O economista deu um exemplo. Ele disse que o governo deveria proibir que o salário nominal fosse aumentado em 10% ante um aumento da produtividade de apenas 5%. "Nesse caso o aumento tem que ser de 8% porque a meta de inflação do governo é de 8%. É uma forma de não matar a economia do país apenas aumentando a taxa de juros ou mantendo ela alta", argumentou.O economista da Unctad disse que a Argentina também é um exemplo a ser seguido pelo governo brasileiro. ?A Argentina está aplicando esses tipos de medidas mais similares à abordagem asiática. Eles fizeram até um estoque de carne recentemente para pressionar os preços domésticos e evitar que se tenha uma alta na taxa de juros para conter a inflação?, exemplificou Flassbeck.?Com essa abordagem, o Brasil poderia usar seu potencial e crescer em 7% a 8% como outros países emergentes?, afirmou.IngenuidadeAcreditar que a economia do Brasil pode crescer no mesmo patamar que a China ou a Índia é uma "ingenuidade", na avaliação de Fernando Ribeiro, economista-chefe da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet)."É um pouco de ingenuidade achar que o Brasil vai voltar a crescer 5,5%, 6% ou 7%. Isso é um tempo que já ficou para trás. Dos anos 50 aos anos 80, o Brasil foi o País que mais cresceu no mundo. Crescíamos, em média, 7,2% ao ano. Esse tempo acho que não volta mais porque era um crescimento que estava pautado na formação da nossa matriz industrial - coisa que a China e a Índia estão fazendo agora", disse Ribeiro. O economista concorda que a atual taxa de juros no Brasil inibe o crescimento econômico, mas destaca que a sugestão da Unctad de controlar os preços é equivocada porque após o congelamento os custos são repassados ao consumidor para rebater os prejuízos acumulados."O que importa para as economias crescerem é o acúmulo de capital. Isso é uma decisão empresarial e mais facilitada na medida que o governo joga com regras claríssimas, como é o caso da política econômica brasileira", comentou.Ele defende o modelo da política macroeconômica adotado pelo Brasil, mas reconhece que há ?restrições?. "O principal problema macroeconômico do Brasil é de contas públicas. A dívida pública interna, em reais, que é devida do Estado com os brasileiros, vem sendo elevada e é de prazo relativamente curto, além de estar referenciada à taxa de juros - para o governo rolar essa dívida o mercado pede um prêmio muito alto para comprar os títulos públicos. Esse prêmio alto é a taxa de juros."Daí a importância, ele destaca, para que o governo busque um superávit primário a fim de tentar estancar o crescimento da dívida e mude o perfil da sua indexação.

Agencia Estado,

31 de agosto de 2006 | 20h35

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