Basso Cannarso/Divulgação
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Modelo de crescimento econômico ilimitado precisa acabar, diz autor de 'Ponto de Mutação'

Para o físico e especialista em sustentabilidade Fritoj Capra, é necessário mudar a ideia de crescimento ilimitado do PIB para um outro, mais qualitativo e regenerativo

André Jankavski, O Estado de S.Paulo

28 de setembro de 2021 | 15h00

O físico e ambientalista austríaco Fritoj Capra não acredita que o atual modelo de crescimento econômico tenha como ter vida longa. Se ele for mantido, é o planeta que acabará primeiro. Capra é um dos principais nomes do pensamento sistêmico, que, resumidamente, prega que cada parte de um sistema influencia o todo. Então, por exemplo, não é possível pensar na solução do problema educacional do País e o desenvolvimento da riqueza sem pensar em resolver, por exemplo, a baixa penetração de tratamento de esgoto e de água no Brasil. 

Para Capra, que é autor de livros best-sellers como Ponto de Mutação, O Tao da Física e A Teia da Vida, acredita que existe uma espécie ilusão mantida por políticos e economistas que é possível que os países cresçam de maneira ilimitada em um planeta finito. “Precisamos mudar urgentemente a ideia de crescimento ilimitado do PIB para um outro mais equilibrado, qualitativo e regenerativo, como podemos ver na própria natureza”, diz o especialista em sustentabilidade, que é um dos convidados da HSM Expo Now, evento de gestão da empresa de educação corporativa HSM.  

Confira, a seguir, os principais trechos da entrevista:

Quase dois anos após o primeiro caso de covid-19 e milhões de mortes depois, como será o mundo após a pandemia? Podemos dizer que evoluímos como sociedade?

A pandemia da covid-19, como todos os nossos principais problemas, é um problema sistêmico com diversas ramificações sociais, econômicas e ecológicas. Isso porque ela surgiu de um desequilíbrio ecológico, com invasões massivas em florestas tropicais e outros sistemas puramente motivadas por uma obsessão pelo crescimento econômico ilimitado. E isso tem consequências dramáticas por causa das desigualdades econômicas. Por exemplo, enquanto metade da população está vacinada na Europa e na América do Norte, as taxas de vacinação em diversos países pobres estão abaixo dos 2%. 

Por que a atual política de crescimento econômico não é sustentável?

O dilema fundamental que está relacionado a todos os problemas globais é a ilusão, mantida por praticamente todos os políticos e economistas, de que o crescimento ilimitado é possível em um planeta finito. Essa busca irracional por crescimento perpétuo é a motivação para o consumo excessivo. Desta maneira, estamos em uma economia que consome muita energia e recursos, o que gera resíduos e poluição, e esgota os recursos naturais da Terra ao mesmo tempo em que amplia a desigualdade econômica. Precisamos mudar urgentemente a ideia de crescimento ilimitado do PIB para um outro mais equilibrado, qualitativo e regenerativo, como podemos ver na própria natureza.

E quais seriam as soluções para isso?

A natureza sistêmica dos nossos problemas significa que precisamos encontrar soluções sistêmicas. Ou seja, soluções que não resolvem nenhum problema isoladamente, mas que lidam com todos os problemas relacionados. Nas últimas décadas, institutos de pesquisa e universidades desenvolveram e testaram centenas dessas soluções. Elas incluem propostas para remodelar a globalização econômica e a reestruturação das empresas, assim como novas formas de desenvolvimento que não sejam extrativas, mas regenerativas. Também há uma grande variedade de soluções sistêmicas para os problemas interligados de energia, alimentos, pobreza e mudança climática. Eu concluo que a transição para um futuro sustentável não é mais uma questão técnica ou conceitual do problema. É um problema de desejo político e liderança.

Em declarações antigas você dizia que era preciso encontrar um modelo de crescimento qualitativo, ou seja, um crescimento mais equilibrado. Como fazer isso?

A mudança de um modelo de crescimento quantitativo para qualitativo começa, primeiramente, com o desenvolvimento de indicadores qualitativos de pobreza, saúde, equidade, educação, inclusão social e de ambiente. Nenhum deles pode ser reduzido a coeficiente de dinheiro ou agregado em números. Vários indicadores econômicos desse tipo foram propostos recentemente por iniciativas como o Beyond GDP (iniciativa da OCDE que busca desenvolver indicadores para analisar melhor aspectos sociais e de meio ambiente).

Qual é a responsabilidade de governos e empresas para encontrar esta sustentabilidade desenvolvimento? Quem pode liderar este movimento?

Na minha opinião, a mudança para um futuro mais sustentável requer a colaboração dos três centros de poder da nossa sociedade moderna: governo, empresas e a sociedade civil. Líderes empresariais, em particular, precisam fazer a si mesmos algumas questões como: até que ponto a minha empresa contribui para um crescimento com mais qualidade e regenerativo? Até que ponto nós apoiamos e ajudamos as comunidades locais? O nosso negócio é ecologicamente sustentável?

As empresas estão cada vez mais dando atenção para causas ESG. Você acredita que é um movimento consistente?

Tenho visto várias palestras de jovens executivos nos últimos anos que parecem estar cientes da necessidade de passar da cultura extrativista para a regenerativa e que estão se comprometendo a não apenas transformar a cultura de sua empresa, mas também em educar todo o setor. Fiquei bastante impressionado.

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