Modelo transformacional

Crise de confiança na Petrobrás continua a ser revertida neste governo, com uma refundação da empresa

Adriano Pires*, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2020 | 05h00

Depois de ter sido destruída pelo governo do PT, a Petrobrás vem sendo reconstruída com a adoção de um modelo que eu chamaria de transformacional. Os pilares são redução de custos, disciplina de capital, venda de ativos, respeito ao acionista e foco nos investimentos em exploração e produção (E&P), em particular no pré-sal.

Vamos aos números. Nos governos Lula e Dilma, a Petrobrás anunciava investimentos sem preocupação com o retorno para o acionista e com custos crescentes. Mais de R$ 40 bilhões foram gastos em refinarias que não saíram do papel, como as do Comperj, e só se construiu metade da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), ambas com enorme sobrecusto. A política de preços de combustíveis defasados ante o mercado internacional custou R$ 60 bilhões ao caixa da empresa. Em 2014, a dívida da estatal alcançou US$ 130 bilhões, com uma alavancagem superior a 5 vezes.

A crise de confiança só começou a ser revertida no governo Temer, e isso continua no governo Bolsonaro, com a guinada na direção de um novo modelo que dá início a uma refundação da Petrobrás. Os preços de combustíveis passam a ser alinhados aos do mercado internacional; começa uma política de corte de custos; a dívida passa a ser renegociada com os credores; e é posto em prática um plano de desinvestimentos de ativos que são considerados fora do core business da empresa.

Entre os ativos vendidos se destacam as refinarias de Okinawa, no Japão, por US$ 165 milhões, e a de Pasadena, nos EUA, por US$ 467 milhões. Em 2017 a Petrobrás finalizou a venda de 90% da transportadora de gás do Sudeste (NTS) para a Brookfield, por US$ 4,2 bilhões. Em 2019 a empresa vendeu 90% da transportadora de gás do Nordeste (TAG) para a Engie, por US$ 8,7 bilhões. No caso da BR Distribuidora, o modelo escolhido foi a venda de ações na Bolsa, que rendeu à empresa um caixa de US$ 2,6 bilhões, fazendo com que a Petrobrás deixasse de ter posição majoritária e passasse a ser uma acionista relevante com 37,5% da empresa. No segmento de E&P, a grande mudança ocorreu quando a Petrobrás vendeu sua participação de 66% no Campo de Carcará, no pré-sal, para a Equinor, por US$ 2,5 bilhões.

Em 2019, o maior investimento da Petrobrás foi a compra do Campo de Búzios, no leilão da chamada cessão onerosa. O campo tem reservas estimadas de 10 bilhões de barris e é o segundo maior em produção no País, com 380 mil barris de óleo equivalente por dia (boe/d) produzidos de óleo e gás. Essa aquisição mostrou de forma clara que o foco da nova Petrobrás é investir no pré-sal, onde a empresa tem as melhores taxas de retorno.

O desafio da Petrobrás em 2020 será a venda das refinarias, distribuidoras de gás (Gaspetro) e usinas termoelétricas. Para a venda de refinarias e distribuidoras de gás, a Petrobrás assinou um Termo de Compromisso de Concessão (TCC) com o Cade para reduzir a participação nestes segmentos até 2021. No setor de refino, a Petrobrás vai se desfazer de 50% de sua capacidade, com a venda da Rnest, em Pernambuco; da Relam, na Bahia; da Repar, no Paraná; e da Refap, no Rio Grande do Sul. Numa segunda fase, serão vendidas a Regap, em Minas Gerais; a Reman, no Amazonas; a Unidade de Industrialização do Xisto (SIX), no Paraná; e a Lubnor, no Ceará.

No caso da venda da Gaspetro, a Petrobrás precisa acertar o melhor arranjo com a sócia Mitsui, que possui 49% das ações. Está sendo considerado um modelo de venda semelhante ao que foi feito na BR Distribuidora, tanto para as distribuidoras de gás quanto para as térmicas. Neste processo, as empresas são lançadas no mercado acionário por meio de uma IPO e, então, a Petrobrás vende suas ações.

No novo Plano Estratégico 2020-2024, a Petrobrás vai destinar 85% dos recursos para E&P. A empresa projeta produzir 3,5 milhões de boe/d de óleo e gás em 2024 e estabelece um patamar para sua capacidade de refino de 1 milhão de barris/dia. Nas projeções financeiras, a Petrobrás espera reduzir a dívida para US$ 60 bilhões já em 2021. Isso vai permitir uma maior distribuição de dividendos, colocando a empresa como um ativo de classe mundial. E, assim, a Petrobrás volta a ser orgulho dos brasileiros e dos seus acionistas.

* DIRETOR DO CENTRO BRASILEIRO DE  INFRAESTRUTURA (CBIE)

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