Moeda é vítima de um 'efeito batata quente'

Análise: José Paulo Kupfer

O Estado de S.Paulo

23 de setembro de 2011 | 03h04

Quando aumentam os temores de um colapso econômico global, em resposta a um generalizado sentimento de aversão ao risco, o dólar é sempre o ativo mais procurado. Nem mesmo com os EUA engolfados na maior crise em 80 anos a história mudou.

O gradual agravamento da situação da economia internacional, com consequente fuga para o dólar, portanto, é a primeira e principal explicação para a abrupta e acelerada desvalorização do real. O real está sendo vítima de um "efeito batata quente".

Não é, porém, a única razão - prova disso é que, nas últimas semanas, o real lidera o campeonato das desvalorizações. Recentes decisões do governo explicam a exacerbação das cotações no mercado brasileiro.

Dois movimentos - o corte na taxa de juros e o travamento, com a imposição de um IOF sobre posições vendidas, do mercado futuro de câmbio - encurralaram aplicadores. Eles apostavam na valorização do real e na alta (ou manutenção) da taxa de juros e foram atropelados pela reversão das duas apostas.

A tendência é que o próprio mercado se mova no sentido de ajustar posições. Mas operadores aproveitaram o ambiente de turbulência para tentar emparedar o governo e obter a revogação do IOF nas posições vendidas. O Banco Central resolveu não esperar o autoajuste do mercado e desde quarta-feira tem feito intervenções no câmbio.

Altas bruscas e rápidas nas cotações do dólar produzem compreensível nervosismo. Em quadros assim, não há como evitar temores de recrudescimento da inflação e a circulação de boatos sobre devedores em dólar com dificuldade para honrar compromissos.

Claro que, se a tendência de desvalorização do real se consolidar e se projetar no tempo, a política em curso terá de ser revertida. Com apoio, no entanto, nas mesmas razões que pressionavam até recentemente pela forte valorização da taxa de câmbio - e que ainda permaneceriam atuando -, dá para acreditar que, depois de atingir algum pico, cujo nível ainda não é possível determinar, a cotação do dólar retrocederá.

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