Graeme Jennings/Reuters - 11/1/2022
Graeme Jennings/Reuters - 11/1/2022

Moeda em circulação cresce 40% nos EUA e vira dor de cabeça para o Fed

Medidas emergenciais tomadas na pandemia fizeram a base monetária americana subir mais de US$ 6 trilhões desde 2020; agora, críticos da postura do Fed dizem que o aumento pode estar por trás da inflação elevada

David J. Lynch, Washington Post

10 de fevereiro de 2022 | 05h00

WASHINGTON - Nos últimos dois anos, enquanto o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) lutava para resgatar a economia das garras do novo coronavírus, as medidas de emergência do banco central aumentaram a oferta de moeda nos Estados Unidos em surpreendentes 40%. 

Isso é quase quatro vezes mais dinheiro novo do que havia sido produzido durante os dois anos que antecederam a pandemia e, para alguns críticos do Fed, explica por que os EUA estão enfrentando sua maior inflação desde 1982. Todo esse dinheiro – que está sendo usado para a aquisição de produtos com oferta limitada como carros, computadores e móveis – está inevitavelmente fazendo os preços subirem, dizem eles. 

O Fed concordou com essa percepção na última vez que o país teve um grave problema de inflação. Em 1979, o então presidente do banco central americano, Paul Volcker, estabeleceu um limite para a oferta de dinheiro (também chamada de base monetária) e levou a inflação de um pico de 14,8% para 2,5% três anos depois, com o custo de duas penosas recessões.

Mas o atual presidente do Fed, Jerome Powell, rejeitou as alegações de que a impressão de dinheiro pelo banco está alimentando a atual espiral de preço, enfatizando em vez disso, os transtornos associados à reabertura da economia. Como seus antecessores mais recentes, desde Alan Greenspan, Powell diz que as inovações financeiras significam que não há mais uma ligação entre a quantidade de dinheiro circulando na economia e o aumento dos preços.

“Agora pensamos mais apenas nos desequilíbrios entre oferta e demanda na economia real do que nos agregados monetários. (...) É uma economia diferente e um sistema financeiro diferente há algum tempo”, disse Powell em dezembro.

Críticas

A persistência da inflação, atualmente em uma taxa anual de 7%, deu munição aos críticos conservadores do Fed conhecidos como “monetaristas” devido ao apoio deles às teorias do economista Milton Friedman.

Friedman, ganhador do Prêmio Nobel de Economia, ensinou que “a inflação é sempre e em todos os lugares um fenômeno monetário”, e disse que os banqueiros centrais deveriam impedir que a oferta de dinheiro crescesse mais rápido que o PIB.

Robert Heller, que atuou sob o comando de Volcker no Conselho de Governadores do Fed na década de 80, disse que Powell está errando ao ignorar as lições daquela época. “Deixar de prestar atenção à oferta monetária está outra vez levando o Fed a um perigoso território inflacionário – assim como meio século atrás”, disse ele por e-mail.

O indicador mais amplo da quantidade de dinheiro em circulação do Fed, chamado de M2, está acima de US$ 21,6 trilhões hoje, em fevereiro de 2020 ele era de US$15,5 trilhões.

Circulação mais lenta

Para facilitar o crédito durante a pandemia, o banco central americano ajudou a aumentar a oferta de dinheiro comprando aproximadamente US$ 5 trilhões em títulos lastreados em hipotecas e títulos do governo. O Departamento do Tesouro dos EUA ajudou emprestando trilhões a mais para enviar os pagamentos de auxílio financeiro à maioria dos americanos.

Mas uma grande parte desse novo dinheiro não foi gasto. Em vez disso, as instituições financeiras que receberam o pagamento do Fed por aqueles títulos colocaram mais de US$ 2 trilhões em suas contas no banco central americano, ao mesmo tempo que as famílias americanas guardaram grande parte de seu auxílio emergencial e agora têm poupanças estimadas em US$ 2,7 trilhões.

Esse é um motivo para a oferta de moeda do Fed não estar levando à inflação, de acordo com muitos economistas. Sim, há muito mais dinheiro guardado de várias maneiras. Mas ele está se movimentando pela economia mais lentamente do que em quase qualquer momento nos últimos 65 anos.

“A oferta de dinheiro aumentou, mas a velocidade [de circulação] diminuiu”, disse o economista do Tesouro americano David Beckworth, atualmente na organização sem fins lucrativos Mercatus Center, na Universidade George Mason. “Elas estacionaram. As pessoas não estão gastando dinheiro."

Lições aprendidas

Antes de Volcker mudar a direção na década de 80, o Fed estabeleceu metas para que a oferta de moeda crescesse mais ou menos em sintonia com a atividade econômica. Se a quantidade de dinheiro disponível ao público – cédulas, moedas, em contas correntes e certificados de depósito – ultrapassasse a meta, o Fed aumentaria as taxas de juros para acalmar a situação.

Já se a oferta de dinheiro crescesse muito lentamente, o Fed poderia cortar as taxas para estimular o crescimento econômico. Mas, pelo menos nas últimas três décadas, os dirigentes do Fed têm monitorado os preços e o mercado de trabalho, em vez da oferta de dinheiro, para determinar se as taxas de juros deveriam ser aumentadas ou reduzidas.

Pressão sobre Powell

Depois de dizer ao longo de 2021 que a inflação se revelaria “transitória”, nos últimos meses, Powell tem ficado mais preocupado com o aumento dos preços.

Durante uma entrevista no mês passado, após a reunião de política monetária mais recente do Fed, ele sinalizou que o banco provavelmente aumentaria sua principal taxa de juros já em março.

Em quase todas as vezes em que esteve presente no Congresso em 2021, Powell foi pressionado pelos republicanos em relação ao aumento da oferta de moeda. Em janeiro, durante a audiência de confirmação do Comitê Bancário do Senado para dois indicados ao Fed, o senador republicano John Neely Kennedy criticou “o excesso de dinheiro e a pequena demanda por bens”.

Powell disse a um comitê da Câmara em dezembro que a outrora forte ligação entre a oferta de moeda e a inflação “terminou há cerca de 40 anos”. A desregulamentação financeira e novidades como contas correntes com juros e fundos mútuos fizeram com que as medidas tradicionais de oferta de dinheiro não oferecessem mais sinais confiáveis das futuras tendências de preços.

Determinar quanto “dinheiro” existe a qualquer momento é mais difícil do que parece. Dependendo das circunstâncias, “dinheiro” pode significar cédulas reais de dólar, travelers cheques, fundos mútuos do mercado financeiro ou até mesmo títulos do Tesouro. Nem todos podem ser usados imediatamente em uma transação comercial ou de consumo, tornando difícil prever suas consequências econômicas.

“Vimos todo um conjunto de inovações no setor bancário que tornou quase impossível para o Fed fazer essa previsão”, disse Dean Baker, economista do Centro de Pesquisa Econômica e Política. “É um exercício que não vale a pena.”

Inflação mais duradoura 

A postura de Powell corresponde ao pensamento econômico dominante. Mas um determinado grupo de monetaristas insiste que o Fed deveria criar novas ferramentas para acompanhar quanto dinheiro está sendo produzido.

Steve Hanke, professor de economia aplicada da Universidade Johns Hopkins, disse que o dinheiro extra que o Fed injetou na economia está causando uma reação inflacionária que durará mais do que o banco central americano espera. Assim que a pandemia passar, todo o dinheiro guardado pelos consumidores e pelas instituições financeiras começará a circular outra vez, fazendo os preços subirem, disse ele.

A oferta de moeda está crescendo a uma taxa anual de 13%, o que até o início da pandemia era o crescimento mais rápido desde o final da década de 70. Mesmo que o Fed aja rapidamente para cortar esse aumento pela metade, a inflação anual chegará a 6% até 2024, disse Hanke.

“É como um médico. Se ele tiver um termômetro com defeito, a prescrição dele para tratamento pode ser completamente errada”, disse Hanke. “O termômetro do Fed está com defeito.”

William Barnett, economista do Centro para Estabilidade Financeira, uma organização sem fins lucrativos, desenvolveu uma medida alternativa à oferta de moeda chamada séries Divisia enquanto trabalhava para o Fed nos anos em que Volcker estava no comando do banco.  Ao contrário do indicador do Fed, que simplesmente soma todos os diferentes tipos de dinheiro, o medidor de Barnett dá mais peso àqueles com maior liquidez ou disponíveis para uso imediato.

No entanto, mesmo Volcker, um dos pioneiros na adoção do monetarismo pelo Fed, acabou deixando de lado a confiança absoluta no crescimento da oferta de dinheiro para lidar com a economia.

Em sua luta contra a inflação nos anos 80, Volcker elevou as taxas de juros para 20%. A indignação generalizada foi forte conforme as hipotecas se tornaram praticamente inacessíveis e o desemprego aumentou. Famosas construtoras enviaram pedaços de madeira que costumam ser usados na construção de casas para a sede do Fed, em Washington, como sinal de protesto.

Dois anos depois, com a taxa de desemprego se aproximando de 10%, Volcker mudou sua postura. Embora o crescimento da oferta de moeda tenha ficado acima da meta do Fed durante a maior parte daquele ano, ele concordou em cortar as taxas de juros em vez de aumentá-las, o contrário do indicado pelo monetarismo.

Vários anos depois, quando as baixas taxas de juros incentivaram os americanos a transferir seu dinheiro em contas de poupança e certificados de depósitos bancários tradicionais para fundos mútuos que ofereciam retornos maiores, o Fed abandonou seu indicador monetário remanescente.

Esses novos fundos de investimento não foram contabilizados no indicador mais amplo da quantidade de dinheiro em circulação do conhecido como M2. Portanto, mesmo com a economia crescendo rapidamente, o indicador de oferta de moeda do Fed – que ignorou os populares fundos de investimento – estava indicando recessão.

“As relações históricas entre dinheiro e renda, e entre dinheiro e o nível de preços foram amplamente destruídas, privando os agregados de grande parte de sua utilidade como guias para as políticas”, disse o então presidente do Fed Alan Greenspan ao Congresso em 1993.

Para todos, com exceção dos monetaristas, os anos posteriores ao fim da grande recessão entre 2008 e 2009 consolidaram esse veredito. O indicador mais amplo da quantidade de dinheiro em circulação do Fed subiu cerca de 45% desde o início de 2010 até o final de 2015, consideravelmente mais rápido do que o crescimento do PIB. Mesmo assim, a inflação de preços ao consumidor começou naquele período em 2,6% e terminou em 0,7% – o oposto do pr evisto pelo monetarismo.

Hanke diz que o problema se encontra nas métricas do Fed: o indicador Divisia mostra que a oferta de moeda cresceu muito menos durante aquele período do que os dados tradicionais sugerem. Mas ele reconhece que fez poucas conversões no banco central americano. “Falamos idiomas diferentes”, disse ele. /TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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