Moeda mais instável do mundo, o real desorganiza a economia

Nos últimos três meses, a diferença entre a cotação mínima e máxima da moeda brasileira superou os 40%

Leandro Modé, O Estadao de S.Paulo

27 Dezembro 2008 | 00h00

Desde que a crise global se aprofundou, em meados de setembro, os preços dos ativos financeiros comportam-se como os carros de corrida na versão ultramoderna dos irmãos Wachowski para o clássico Speed Racer: movem-se para cima e para baixo em uma velocidade tão alucinante que mal podem ser vistos pelo espectador. O Brasil não foge à regra, especialmente no mercado de câmbio. Levantamento feito para o Estado pela B&T Corretora de Câmbio revela que o real tem sido a moeda mais instável do mundo do fim de agosto para cá. Esse vaivém tem reflexos importantes sobre a economia real, especialmente no comércio exterior e nos investimentos. "Atrapalha muito o dia-a-dia das empresas", diz o analista responsável pelo estudo, Tulio Ferreira dos Santos Júnior. "Se o empresário não tem uma noção clara sobre a evolução da taxa de câmbio, não consegue se planejar e, conseqüentemente, investir", completa o economista André Sacconato, da Tendências Consultoria Integrada. No dia 12 de setembro, véspera da quebra do banco de investimentos americano Lehman Brothers, o dólar valia R$ 1,781. Na última sexta-feira, fechou em R$ 2,370. Se já não bastasse a expressiva desvalorização no período (24,9%), o real oscilou brutalmente. Nesse intervalo, o dólar chegou a valer R$ 2,519. Comparando-se as cotações máxima e mínima do período, a oscilação supera os 40%. O won da Coréia, que ficou em segundo lugar no levantamento da B&T Associados, variou 36%. "É um grau de volatilidade inaceitável", disse o consultor Nathan Blanche, um dos maiores especialistas em câmbio do País. Os analistas reconhecem que o forte vaivém é uma realidade global. A taxa de câmbio entre euro e dólar - as duas moedas mais fortes do mundo, hoje -, por exemplo, oscilou mais de 18% no período pós-quebra do Lehman. Ainda assim, criticam a atuação do Banco Central (BC) no mercado cambial nos últimos meses. "Essa diretoria do BC nunca enfrentou uma crise e não está sabendo administrar a situação", afirmou um ex-diretor da instituição que pediu para não ser identificado. "O mercado ganha diariamente quedas-de-braço contra o BC", relatou outro especialista. Para eles, o BC deveria ter como foco principal o combate à volatilidade. "Não se trata de definir o valor do dólar, que é o próprio mercado quem faz, mas de impedir um vaivém tão forte", observou o diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Roberto Giannetti da Fonseca. Na avaliação dele, isso implica mudança de atitude da instituição. "O BC não pode dizer, de antemão, quanto vai vender no mercado a cada dia, como faz hoje. Deve intervir sem revelar sua munição, um número, aliás, que só deve ser conhecido pelo diretor da área e pelo próprio presidente (Henrique Meirelles)." Polêmicas sobre intervenções no câmbio à parte, o fato é que esse cenário afeta duramente a economia real. "Tem sido muito perigoso para nós (empresários) conviver com a falta de referência para a taxa de câmbio", disse Giannetti. Segundo ele, um efeito prático da volatilidade é visto nas operações de fechamento de câmbio - momento em que exportadores e importadores efetivam a venda ou compra de moeda estrangeira junto aos bancos. "Quando há pouca oscilação, as empresas fecham câmbio várias vezes na semana. Se há muita volatilidade, elas param", explicou Giannetti. Esse é um dos fatores que ajudam a explicar a redução da corrente de comércio (soma de exportações e importações) brasileira de setembro para cá. Em agosto, a média diária da corrente de comércio foi de US$ 1,772 bilhão. De lá para cá, a queda foi constante. Em setembro, a corrente chegou a US$ 1,696 bilhão diariamente. Em outubro, a US$ 1,628 bilhão, em novembro, US$ 1,395 bilhão e, nos primeiros 10 dias de dezembro, a US$ 1,261 bilhão. Evidentemente, no mundo em crise, não é só a volatilidade do real que justifica o recuo do comércio externo. "Os principais parceiros comerciais do Brasil estão em situação ruim" , disse Sacconato, da Tendências Consultoria. Para ele, o principal efeito negativo se dá sobre o planejamento das empresas. "Não há dúvida de que os investimentos vão cair em 2009 por causa da dificuldade das empresas em planejar", afirmou. O economista dá um exemplo prático. "Imagine uma empresa de um setor pesado, como siderurgia ou petroquímica. Uma nova fábrica demora de três a quatro anos para ficar pronta. O que faz o empresário em um ambiente instável como este? Posterga o plano." O economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves, observa que empresas com receita inteiramente em real e alguns custos em dólar estão entre as que mais perdem. "Muitas sofreram pra burro neste fim de ano por causa dessa volatilidade", disse. "Fizeram orçamento e, uma semana depois, tiveram de jogá-lo fora." O consultor Fábio Silveira, diretor da RC Consultores, pondera que a oscilação do dólar melhorou levemente nas últimas semanas. "Ainda não é uma volatilidade confortável, mas há uma zona de equilíbrio mais estável do que no período entre agosto e outubro", disse.

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