Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Momento expõe alento e cautela

Análise dos números do mercado aponta para tendência de crescimento, mas cenário econômico traz incertezas

Heraldo Vaz, Especial para O Estado

25 de junho de 2019 | 03h00

Os resultados positivos em lançamentos e vendas, registrados pelo Sindicato da Habitação (Secoi), fortaleceram o mercado imobiliário em 2018. Nos primeiros quatro meses de 2019, o crescimento endossa previsão do presidente da entidade, Basílio Jafet, de que este seja o ano de consolidar a recuperação do setor na capital. 

No entanto, restrições da Lei de Zoneamento, segundo Jafet, criam obstáculos. “Vamos ter problema de continuidade para manter a produção em alta.”

Em 2018, as vendas de imóveis novos chegaram a 29,9 mil unidades, um aumento de 27%. Os lançamentos somaram 32,8 mil unidades, batendo a média histórica de 30,3 mil unidades.

Jafet lembra a “onda de otimismo” após a definição da eleição presidencial. O quarto trimestre de 2018 concentrou 56% dos lançamentos e 40% das vendas do ano todo. O mês de dezembro bateu recorde, com 8.940 unidades lançadas e 5.204 vendidas.

Jafet conta que os estandes e os plantões de vendas começaram a encher. “Tivemos um primeiro trimestre muito bom”, diz, lembrando que, geralmente, são meses mais fracos por causa das férias e do carnaval.

A pesquisa do Secovi, fechando os dados de abril, indica que foram comercializadas 31.700 unidades em 12 meses (de maio de 2018 a abril de 2019). No mesmo período, os lançamentos somaram 39,6 mil unidades.

“Olhando só os números, vemos claramente uma tendência de crescimento”, afirma o diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp), Reinaldo Fincatti. 

Para ele, 2018 foi um ano de recuperação, principalmente no quarto trimestre. “Foi um boom imobiliário depois da eleição”, diz. Fincatti espera uma recuperação do movimento da indústria imobiliária, ressalvando que a retomada depende de linhas de crédito e financiamento. 

Na região metropolitana, incluindo a cidade de São Paulo, o número total de lançamentos chegou a 409 novos empreendimentos em 2018 contra 300 em 2017, um aumento de 36%, segundo dados da Embraesp. A capital respondeu por 84% do total - 343 lançamentos em 2018 contra 217 no an o anterior.

Quase metade das habitações, segundo Fincatti, vai para as classes C e D, atendidas pelo programa Minha Casa Minha Vida. “O MCMV foi o que manteve o mercado”, avalia.

Na sua opinião, existe perspectiva de se manter assim neste ano, desde que sejam renovadas ou se criem linhas de crédito para esse público.

Cuidado

Desde o final de abril, um clima de incertezas e maior cautela se espalhou pelo setor por conta do cenário político e da lenta recuperação da economia. “O mercado desaqueceu um pouco por falta de confiança”, analisa Jafet. “Torcemos muito para que o governo faça a reforma da Previdência”, diz, defendendo a aprovação como “primeiro ponto para melhorar o quadro econômico” e voltar a confiança.

A calibragem da Lei de Zoneamento em São Paulo e as mudanças do programa MCMV, em discussão para serem implantadas neste ano, são dois pontos no radar do Secovi.

A calibragem, segundo Jafet, é necessária para viabilizar a produção de imóveis para a classe média. “Com a atual lei de zoneamento não é possível”, declara. O ponto principal é a outorga onerosa (direito de construir com o coeficiente máximo mediante contrapartida). “Quadruplicou o custo, e isso se reflete no preço final do imóvel.”

O segundo obstáculo está na chamada área de remanso. “No miolo dos bairros, a lei é muito rígida, não podemos construir mais de oito andares”, explica o presidente do Secovi, reivindicando mudanças. Ele comenta que já existe um projeto de lei que precisa ser encaminhado à Câmara Municipal para ser aprovado pelos vereadores. “Mas ainda não chegou lá”, afirma. “Está na Prefeitura.”

Jafet ressalva que o Plano Diretor de 2014 e a Lei do Zoneamento, aprovada em 2016, trouxeram pontos positivos, dando como exemplo a construção de imóveis econômicos para o programa MCMV. “Ficou mais fácil viabilizar projetos na cidade de São Paulo.”

Com a transição no governo federal, houve uma parada no primeiro trimestre do ano. De acordo com Jafet, houve contingenciamento dos recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e do orçamento da União. Em nota, o Secovi manifesta a preocupação do setor em relação ao futuro dos programas habitacionais do governo, bem como aos recursos disponíveis para financiar a demanda. “Os ajustes ao MCMV são fundamentais, para a sobrevivência desse segmento”, diz a nota.

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