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Montadora agora tem ‘tatóloga’

Profissionais usam tato, olfato, visão e audição para testar componentes dos veículos, e são cada vez mais indispensáveis às empresas

Cleide Silva, de O Estado de S.Paulo,

29 de abril de 2012 | 22h30

SÃO PAULO - A função não existe na relação de profissões nem consta no dicionário. Na fábrica da Volkswagen, contudo, é assim que Flavia Bassani é conhecida: tatóloga. A habilidade no tato a alçou a um cargo que precisou ser inventado. Sua tarefa diária é tatear, apalpar, sentir todos os componentes do automóvel com os quais o consumidor terá contato.

Qualquer anormalidade verificada em peças internas, como volantes, painel, fechadura e câmbio, terá de ser avaliada. Se o contato não for considerado satisfatório em relação à textura e maciez, ou se apresentar incômodo, o componente terá de voltar para a área de desenvolvimento. Muitas vezes, é preciso substituir o material usado.

"As pessoas passam muito tempo dentro do carro e precisam ter conforto", justifica Flavia, que ocupa o cargo de tatóloga na fábrica da Volkswagen em São Bernardo do Campo (SP) há apenas um ano. Aos 37 anos e formada em engenharia de materiais, ela desenvolveu a habilidade com as mãos na própria empresa, onde está há dez anos.

Mesmo com toda a tecnologia disponível para o desenvolvimento e produção de um veículo, a indústria automobilística ainda depende de profissionais como Flavia, pois máquinas não têm a sensibilidade das pessoas.

Próxima a Flavia, trabalha a química Maria de Lourdes Feitosa Di Franco, uma das maiores especialistas do País em identificar e eliminar odores desagradáveis. Ela cheira os novos componentes e o próprio automóvel recém-saído da linha de montagem para detectar odores que possam desagradar ao cliente ou até mesmo provocar alergias.

"O brasileiro gosta de cheiro de carro novo, desde que não incomode", diz. Ela tem 52 anos, trabalha na Volkswagen há 30 e foi a primeira brasileira a receber certificado de "nariz calibrado", no início dos anos 90. Maria de Lourdes já treinou 13 pessoas que exercem a função nas unidades do Brasil e Argentina.

Piloto. A Ford, depois de testar os motores de seus automóveis em cabines especiais que simulam todas as situações possíveis de ocorrer, não abre mão de ter o veredicto de um profissional. Adriano Marcos da Silva, de 40 anos, todos os dias dirige um dos modelos da marca por 60 quilômetros para verificar comportamento do engate, conforto na troca de marchas e se há ruídos no desempenho da transmissão.

Quando retorna do trajeto, Silva desmonta o equipamento e, com uma equipe chefiada pelo engenheiro Gerson Parreira, analisa se há desgastes ou aquecimento anormal. "Averiguamos peça a peça e, se tiver algum problema, o lote é retido", informa Silva, que é formado em administração e gestão de processos.

Silva tem 40 anos e está na Ford há 16. Nos últimos 11 anos opera como piloto de teste. Passou por vários treinamentos para distinguir o ruído do motor e da transmissão. "Conseguimos ouvir barulhos quase sempre imperceptíveis ao consumidor."

A tatóloga Flavia, registrada em carteira como engenheira sênior, tem como tarefa verificar se o toque em qualquer dos componentes internos do automóvel "é sutil". O volante de um carro popular, por exemplo, precisa ter textura similar ao de um de luxo, normalmente em couro. "Mesmo que o material de um carro mais básico seja outro, o cliente precisa sentir o mesmo conforto." Cabe à montadora, junto com o fornecedor, buscar matérias-primas adequadas.

Não há norma específica para obter formação nessa área. A habilidade é conquistada ao longo do tempo, com muito treinamento. Toda vez que um novo componente é incorporado ao veículo, passa pelo crivo de suas mãos. Flavia recebe cinco amostras e precisa tateá-las por um período até ter um veredicto. "Se tiver algum problema, chamamos o fornecedor para discutir o que pode ser feito para melhorar", diz. "Muitas vezes, é questão de mudar a matéria-prima usada, mas há casos em que temos de trocar o fornecedor."

Ela também coloca diferentes cremes e protetor solar nas mãos para verificar reações nos componentes, como volantes e câmbio. "É cada vez mais comum a aplicação desses produtos pelos consumidores, e queremos ter certeza de que o uso contínuo não acarretará, por exemplo, em manchas nas peças." 

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