Montadoras criam fábricas virtuais

Programas já simulam a linha de montagem e até o teste de direção

Cleide Silva, O Estadao de S.Paulo

24 de junho de 2008 | 00h00

A indústria automobilística se prepara para trabalhar com fábricas virtuais em todo o processo produtivo, do desenvolvimento do carro à linha de montagem. Até mesmo o cliente poderá "dirigir" o carro antes de ir à loja realizar a compra. Montadoras como Volkswagen, General Motors e Peugeot já trabalham na Europa com projetos de integração virtual de todo o processo de manufatura e engenharia. Vários deles estão sendo adotados no Brasil.O processo, além de agilizar o desenvolvimento de um veículo - cujo tempo de criação já foi reduzido, em média, de 48 para 30 meses -, também ajuda a evitar futuras falhas no processo produtivo e nos componentes. Hoje, com a aceleração da produção no Brasil para atender à crescente demanda por carros, o número de falhas também aumentou.Em conseqüência, o número de recalls (convocação para corrigir defeitos de fabricação) mais que dobrou nos últimos anos, segundo Edélcio Genaro, diretor de compras da Delphi. A simulação antecipará vários problemas que poderão ser corrigidos antes de o automóvel ir para a linha de montagem. O Brasil está entre os países onde a média de defeitos na cadeia produtiva é mais elevada, se comparada com vários mercados, principalmente os Estados Unidos.De acordo com Klauss Müller, gerente da Dassault, especializada no desenvolvimento de sistemas de engenharia, no futuro o número de testes realizados pelas montadoras com os carros antes do lançamento será reduzido, pois boa parte já terá sido feita no simulador. "Em vez de jogar dez carros contra a parede (o chamado crash test), serão jogados três ou quatro." Müller e executivos de montadoras e de autopeças participaram ontem, em São Paulo, do seminário sobre a manufatura em busca da fábrica perfeita, promovido pela Sociedade de Engenheiros Automotivos (SAE Brasil). A Peugeot tem na França um laboratório onde é possível "entrar" no veículo virtualmente. A pessoa senta em uma cadeira, coloca óculos especiais e simula estar ao volante. "É possível esticar o braço para saber se as peças do painel são de fácil alcance ou se o teto está na altura correta", explica Tarcísio Telles, diretor do centro de produção da PSA Peugeot Citroën de Porto Real (RJ).Müller acredita que, futuramente, o consumidor poderá fazer essa simulação antes mesmo de ir à loja para adquirir um automóvel. Segundo Telles, em um outro sistema do laboratório francês, a pessoa coloca em várias partes do corpo sensores digitais que captam os movimentos na operação de determinada máquina ou processo. "Com isso, detectamos a melhor posição dos equipamentos para evitar desconforto ao operador e não sobrecarregar uma das partes do corpo."Para os veículos que estão sendo desenvolvidos no Brasil, a PSA utiliza o laboratório da matriz para esses testes, pois o investimento para instalação é elevado, informa Telles. Mas, segundo ele, outros programas para o processo produtivo serão adaptados à fábrica brasileira no futuro.A Volkswagen implantou no ano passado o que chama de fábrica virtual, um programa que simula parte do processo produtivo, como a preparação da chapa de aço que se transformará em uma porta ou pára-choque. Para o desenvolvimento do novo Gol, que será lançado na próxima semana, 39 ferramentais utilizados na produção na fábrica de São Bernardo do Campo foram testados de forma virtual, informa Marco Antonio Teixeira, diretor de manufatura da empresa.TERCEIRA DIMENSÃONo mês passado, a Volkswagen inaugurou um centro virtual de desenvolvimento, também no ABC paulista, que permite verificar todos os detalhes do carro em três dimensões, incluindo a parte interna. O sistema ajuda a antecipar possíveis falhas no projeto e corrigi-las antes da fase de desenvolvimento de ferramentais. Além de reduzir o tempo de criação, há economia de custos, informa a montadora.A GM também inaugurou, há dois anos, um centro de realidade virtual na fábrica de São Caetano do Sul (SP). Um dos próximos passos, segundo Teixeira, será o uso da realidade virtual no treinamento de funcionários. ALÉM DA REALIDADEVantagens: Além de agilizarem o desenvolvimento dos veículos, as fábricas virtuais ajudam a evitar futuras falhas de fabricaçãoApelo: O número de defeitos nos carros fabricados no País aumentou com o crescimento da produção. O Brasil tem uma média alta de defeitos, se comparado a outros países, como os EUATestes: No futuro, programas vão permitir redução no número de testes (como o crash test) feitos antes do lançamento do carroFuturo: Uso da realidade virtual no treinamento de funcionários pode ser um dos próximos passos

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