Tiago Queiroz/Estadão
Freada das montadoras terá grande reflexo nos seus fornecedores de peças e matéria-prima; setor de autopeças acompanha o impacto  Tiago Queiroz/Estadão

Montadoras param e põem mais de 100 mil em férias coletivas ou banco de horas

Para evitar o coronavírus, 14 marcas que administram 35 unidades produtivas de veículos e motores informaram suspensão total da produção por períodos que chegam até um mês

Cleide Silva, O Estado de S. Paulo

21 de março de 2020 | 05h00

A indústria automobilística saiu à frente no setor industrial e quase todas as montadoras já anunciaram fechamento temporário de fábricas a partir de segunda-feira para tentar evitar a disseminação do novo coronavírus. O número de funcionários que ficarão em casa já passa de 100 mil.

Até ontem, 14 marcas que administram 35 unidades produtivas de veículos e motores em vários Estados informaram a suspensão total da produção por períodos que variam de três semanas a um mês, mas com possibilidade de prorrogação, se necessário.

As negociações das paradas foram feitas com os respectivos sindicatos de trabalhadores e envolvem, até agora, cerca de 104 mil funcionários, sendo uma parte pequena de filiais da Argentina. A maioria do pessoal do chão de fábrica entrará em férias coletivas ou terá banco de horas para futura compensação, enquanto o pessoal administrativo fará home office.

Só ontem confirmaram dispensa dos funcionários da área de produção de todas as fábricas locais as empresas Toyota, Scania, Honda, BMW, FCA Fiat Chrysler, Renault, PSA Peugeot Citroën e MAN/Volkswagen Caminhões e Ônibus.

Ford, General Motors, Mercedes-Benz, Volkswagen e Volvotinham anunciado a parada total da produção. Entre as maiores montadoras, apenas a Nissan ainda não decidiu pela parada total da fábrica no Rio de Janeiro, mas afirma que reduziu os riscos com menos trabalhadores na fábrica (os administrativos estão trabalhando em casa). “Mas estamos fazendo monitoramento constante para assegurar a saúde dos funcionários”, assinala a empresa.

A Caoa Chery colocará os 540 funcionários da fábrica de Jacareí (SP) em lay-off (suspensão temporária de contratos). A empresa voltou atrás em 70 demissões anunciadas na quarta-feira, após greve de um dia na unidade. Esses operários ficarão em casa por três meses, enquanto os demais deverão retornar em maio.

Autopeças

A paralisação das montadoras terá grande reflexo nos fornecedores de peças e matéria-prima. O Sindicato Nacional das Indústrias de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças) informa que o setor está acompanhando o movimento das montadoras e os impactos no mercado local e internacional.

“Não é possível, neste momento, fazer estimativas quanto aos efeitos da pandemia no setor, assim como na economia em geral”, informou a entidade. Fornecedores ligados a outros segmentos estão se antecipando. A Pirelli vai suspender a produção de pneus nas três unidades locais a partir de segunda-feira. A Tupy já paralisou suas linhas na quinta-feira. 

O presidente da Federação dos Sindicatos dos Metalúrgicos da CUT de São Paulo, Luiz Carlos da Silva Dias, informa que tem se reunido constantemente com os sindicatos patronais, com o Sindipeças, e que na segunda-feira essas entidades vão apresentar propostas para enfrentar o momento de epidemia. O Estado concentra cerca de 190 mil metalúrgicos de vários setores, como autopeças e máquinas e equipamentos.

“As empresas estão preocupadas, pois várias têm compromissos e nem todas as montadoras vão parar”, afirma Dias. “Elas também querem garantir acordos para o futuro, como outras alternativas caso a epidemia se prolongue e também formas de recuperar a produção.”

Dias ressalta que, “o bom é que, até agora, nenhuma entidade patronal falou em demissões” e que a preocupação é buscar alternativas manter o quadro atual de trabalhadores.

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Consultoria acha difícil manter previsão de alta de produção

Antes da crise, Anfavea previa crescimento de 7% este ano ante 2019; agora, consultor estima queda de 4%

Cleide Silva, Estado de S. Paulo

21 de março de 2020 | 05h00

A consultoria Bright avalia que não será possível recuperar ao longo do ano toda a produção de veículos perdida nesta crise. Sua estimativa é de queda de 4% em relação a 2019, para 2,67 milhões de automóveis e comerciais leves (não inclui caminhões e ônibus). 

A previsão da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) feita no início do ano é de aumento de 7%, para 3 milhões de unidades.

Já as vendas devem ser 3% inferiores aos números do ano passado. Segundo cálculos da Bright, o segmento de automóveis e comerciais leves deve vender 2,61 milhões de unidades, ante uma projeção inicial da Anfavea de aumento de 9%, para 2,9 milhões de unidades.

Previsões

É possível que, nos próximos meses, a Anfavea refaça suas previsões. No primeiro trimestre, o segmento de automóveis e comerciais leves registrou queda de 13,9% na produção em relação a igual período de 2019, somando 375,6 mil unidades. As vendas caíram 0,9%, para 378 mil unidades.

O sócio da consultoria, Paulo Cardamone, ressalta ainda que a alta do dólar – que deverá se manter entre R$ 4,80 e R$ 5,00 – terá impacto significativo nos custos de produção, pois vários componentes utilizados na produção dos automóveis são importados.

“Comparativamente à taxa de câmbio de R$ 3,80 de um ano atrás, aumentos de preços entre 10% e 20%, adicionais aos já aplicados no período, terão de ser repassados ao mercado, o que vai afetar ainda mais as vendas no varejo”, avalia.

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Com taxa de ocupação abaixo de 10%, hotéis começam a fechar as portas

Setor, que emprega cerca de 380 mil trabalhadores diretos, teve cancelamentos de reservas de eventos de negócios e de lazer e projeta prejuízo de R$ 3,5 bi em março

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

21 de março de 2020 | 06h00

Com uma taxa média de ocupação abaixo de 10% nesta última semana, sobretudo para eventos corporativos, parte dos hotéis, resorts e parques temáticos começou a encerrar suas atividades por tempo indeterminado. “O setor de turismo reagiu de forma imediata à pandemia do coronavírus”, disse ao Estado Fernando Guinato Filho, vice-presidente da Associação Brasileira da Indústria de Hotéis do Estado de São Paulo. Parques temáticos, como Beto Carrero, e resorts também fecharam as portas e veem incertezas para os próximos quatro meses por conta da covid-19.

O executivo, que também é diretor-geral do Sheraton São Paulo WTC e do WTC Events Center, disse que na cidade de São Paulo, que concentra a maior parte de turismo de negócios, a taxa de ocupação encerrou esta semana em cerca de 7%. O hotel Bourbon Convention, que fica no bairro do Ibirapuera, próximo ao aeroporto de Congonhas, na zona sul de São Paulo, o L’Hotel, da região da Avenida Paulista, e o Sheraton, de Santos (litoral paulista), estão entre os que encerraram temporariamente as atividades.

O setor, que emprega 380 mil trabalhadores diretos – e 1,3 milhão indiretos – calculou prejuízo de R$ 2,2 bilhões até o dia 15 de março. “Até o fim do mês, chegará a R$ 3,5 bilhões”, afirmou Sérgio Souza, presidente da Associação Brasileira de Resorts (Resorts Brasil). Segundo ele, o setor começou a ficar em alerta há 15 dias, quando os resorts e hotéis começaram a receber pedidos de cancelamentos não só corporativos. “Escolas e famílias começaram a cancelar as reservas.”

Nesta semana, as principais associações que representam o setor pediram um pacote de ajuda ao governo federal para manterem os empregos. Pela proposta, o setor se compromete a arcar com 100% dos salários de 10% dos 380 mil funcionários, que seria o contingente necessários para a manutenção dos estabelecimentos. Os 342 mil funcionários restantes não seriam demitidos, mas ficariam em casa com salário pago pelo governo. As entidades aguardam nos próximos dias uma resposta do governo federal.

De acordo com os representantes do setor, os grupos não têm fôlego para arcar seus custos fixos. Pelos cálculos de Guinato, da Abih-São Paulo, os custos fixos dos hotéis são cobertos quando as taxas de ocupações ficam, em média, em 60%. As redes já começaram a negociar com os sindicatos das categorias redução de jornada e salários e antecipação de férias, com pagamentos parcelados em até quatro parcelas.

As grandes redes hoteleiras, que reúnem 650 unidades, preveem o encerramento de suas atividades já a partir da próxima semana, disse Orlando de Souza, presidente do Fórum de Operadores Hoteleiros do Brasil (Fohb). “A única alternativa é parar tudo. A receita do setor vai ser zero e não temos como arcar com os custos.”

Responsável por 8,6% do PIB, o setor de turismo já tem sido afetado por medidas provisórias adotadas isoladas pelos Estados. “Não estamos falando somente pela cadeia hoteleira. A crise com o coronavírus afeta 52 setores da cadeia do setor do turismo. O governo tem de ser sensível a isso. Serão mais de 4 milhões de empregos afetados. O setor como um todo estava se recuperando, mas agora veio esse baque”, afirmou Manoel Linhares, da Abih Nacional.

Importante destino de viagem de brasileiros e turistas estrangeiros, as redes hoteleiras de Porto Seguro, na Bahia, e Santa Catarina, por exemplo, não estão fazendo mais reservas, diz o presidente da Resorts Brasil. As redes de hotéis faturam cerca de R$ 31 bilhões e respondem pela metade do PIB da cadeia do turismo.

Gargalo

Com as incertezas que pairam ainda sobre o setor, Guinato afirmou que a retomada da atividade, quando a crise do coronavírus passar, vai ser outro problema. “As empresas que pediram para cancelar as reservas dos eventos agora pediram para deixar a data em aberto para o segundo semestre. No segundo semestre, contudo, temos muitas reservas já feitas. Vamos ter problemas de agenda.”

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