Robson Fernandjes/ Estadão
Robson Fernandjes/ Estadão

Montadoras reagem, mas devem se manter ociosas

Fábricas preveem produzir 3,16 milhões de unidades este ano, 7% mais que em 2019, mas devem usar só 60% de sua capacidade

Cleide Silva, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2020 | 04h00

Depois de um crescimento de 2,3% em 2019, a produção de veículos no Brasil deve aumentar mais 7,3% neste ano e chegar a 3,16 milhões de unidades, voltando assim aos patamares de 2014. Ainda assim, o setor vai operar com 60% de sua capacidade produtiva, hoje em torno de 5 milhões de automóveis, comerciais leves, caminhões e ônibus.

O sócio da PwC Brasil, Marcelo Cioffi, diz que uma operação é saudável quando utiliza de 75% a 80% da capacidade. “Abaixo disso o custo fixo é alto.” Segundo ele, o mercado de veículos teria de crescer “muito acima das previsões atuais para reverter essa situação difícil”.

Esse quadro se soma a uma alegada baixa rentabilidade nos negócios. Assim, para custear investimentos em modernização, novas tecnologias e boa parte dos mais de 40 lançamentos previstos para este ano – alguns desenvolvidos localmente –, as montadoras continuarão dependendo da ajuda das matrizes. 

Conhecida por gerar empregos de qualidade com salários acima da média do mercado, a indústria automotiva fechou 4,9 mil vagas no ano passado. Emprega hoje 125,6 mil trabalhadores, o menor contingente em uma década. Contratações só ocorrerão se as empresas abrirem novos turnos de trabalho, afirma Luiz Carlos Moraes, presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea).

Ainda assim, o setor tem importante peso na economia. Responde por 22% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial, 4% do PIB total e envolve uma cadeia produtiva que emprega cerca de 1,3 milhão de pessoas, segundo a Anfavea.

No ano passado, até setembro, as matrizes enviaram para as subsidiárias brasileiras US$ 8,3 bilhões em injeção de capital e empréstimos intercompanhias. O valor é 22% menor que o de igual período de 2018, mas, se contabilizado os últimos seis anos (2014 2019), as montadoras locais receberam US$ 64 bilhões em socorro de suas sedes. Já a remessa de lucros somou US$ 1,86 bilhão.

O quadro é bem diferente dos seis anos anteriores (2008 a 2013), quando as remessas às matrizes chegaram a US$ 25,6 bilhões, ante aportes de capital e empréstimos de cerca de US$ 14 bilhões, de acordo com dados do Banco Central. “As empresas têm visão de longo prazo e continuam vendo o Brasil como importante mercado estratégico”, justifica Moraes.

Estímulos

A alta na produção neste ano será puxada mais uma vez pelo mercado interno, que deverá crescer 9,4% e atingir 3,05 milhões de veículos. Em 2019 as vendas cresceram 8,6%, para 2,78 milhões de unidades, o melhor resultado em cinco anos. Segundo Moraes, a projeção foi feita com base nas previsões de alta de 2,5% do PIB, retomada do emprego, inflação sob controle, juros baixos e volta da confiança de empresários e consumidores.

“O ambiente em 2020 será menos tenso, com inflação equilibrada, a menor taxa de juros da história e redução do risco país”, afirma Ricardo Bacellar, da consultoria KPMG, o que deve colaborar para a melhora do mercado automotivo. “Mas ninguém está soltando morteiros.”

A melhora do ambiente econômico, porém, não será suficiente. “Estamos trabalhando em medidas para estimular o varejo”, informa Moraes. Entre as propostas a serem apresentadas estão a redução da carga tributária sobre o financiamento de carros (IOF e ISS) e do spread bancário nessas operações. 

O setor não poderá contar muito com as exportações que já caíram 32% em 2019, para 428,2 mil unidades, e devem diminuir mais 11% neste ano, para 381 mil veículos, o menor resultado desde 2014.

As vendas para a Argentina, maior mercado brasileiro de automóveis, caíram 52% no ano passado e, segundo Moraes, não há sinais de recuperação para este ano. Também há preocupações em relação a outros mercados da América Latina, como Chile e Colômbia, que enfrentam distúrbios.

Para buscar novos compradores, diz o executivo, é preciso melhorar a competitividade da indústria, o que passa pela redução do custo Brasil. “De cada US$ 100 que exportamos, 12% são impostos”, exemplifica.

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