Montadoras vão deixar de produzir 200 mil carros

Com férias coletivas, setor não vai atingir meta de fabricar 3,4 milhões de veículos este ano

Cleide Silva, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

A indústria automobilística brasileira, sexta maior no ranking mundial, vai deixar de produzir, por causa das férias coletivas de novembro e dezembro, cerca de 200 mil carros. Isso equivale a dois terços do ritmo de produção mensal que vinha sendo registrado antes da crise global - em setembro, quando os reflexos da crise no País ainda eram pequenos, foram produzidos 300 mil veículos.A conta leva em consideração os dias úteis em que as linhas de montagem ficarão desativadas e toma como média diária de produção os volumes dos dez meses deste ano, confirmados pelas montadoras, e as programações previstas para novembro e dezembro. As quatro maiores montadoras - Fiat, Volkswagen, General Motors e Ford - respondem por cerca de 70% da produção brasileira.Férias coletivas de fim de ano são uma tradição no setor há vários anos. A diferença, desta vez, é que os períodos de descanso estão mais longos, principalmente em relação aos dois últimos anos, quando algumas empresas chegaram até a suspender as folgas, por causa da demanda aquecida.As empresas alegam que as férias coletivas são uma forma de adequar os volumes de produção à demanda e de evitar chegar a 2009 com pátios cheios de veículos produzidos em 2008. No fim de outubro, montadoras e concessionários tinham quase 300 mil veículos em estoque, equivalentes a 38 dias de vendas.Com o anúncio, na quinta-feira, das férias coletivas na Mercedes-Benz e na Volkswagen Caminhões, já chega a aproximadamente 75 mil o total de trabalhadores das montadoras que ficarão em casa por prazos diferentes nesse fim de ano - quase 60% de toda a força de trabalho do setor. Fornecedores de autopeças, que, juntos, empregam 231,2 mil trabalhadores, também devem seguir as montadoras nas paralisações.Com a paradas das linhas por períodos mais longos do que os previstos antes da crise, as montadoras não vão atingir a meta de produção prevista para este ano, que era de 3,4 milhões de veículos. Para alcançar essa meta, as empresas deveriam fabricar pouco mais de 500 mil unidades entre novembro e dezembro, o que dificilmente ocorrerá. O número final, de qualquer forma, vai superar o recorde de 2007, de 2,97 milhões de veículos fabricados para o mercado interno e exportações.O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Jackson Schneider, também já admitiu que dificilmente será atingida a meta de vender, no mercado interno, 3 milhões de carros, comerciais leves, caminhões e ônibus. Para alguns executivos, o número final deve ficar perto de 2,8 milhões - ainda assim, outro recorde.CRÉDITOO diretor da Associação Nacional dos Executivos de Finanças (Anefac), Andrew Frank Storfer, disse que o crédito para o financiamento de veículos aos poucos está voltando ao mercado, em condições próximas daquelas oferecidas um pouco antes da crise. Planos de até 60 meses e entrada de zero a 20% do valor do carro estão entre as ofertas, principalmente nos bancos das montadoras, que têm à disposição R$ 8 bilhões em financiamentos liberados pelo Banco do Brasil e a Nossa Caixa."O juro não baixou, necessariamente, mas, nesse setor, o que ajuda mais é o prazo longo e entrada menor", diz Storfer. Para ele, o Brasil vive uma "crise de liquidez, e não de demanda".Para alguns analistas, também há uma crise de confiança. No período de 1º a 25 de novembro, as vendas no País somavam 144 mil veículos, uma queda de quase 24% em relação ao mesmo período de outubro, mês em que os negócios já foram 11% inferiores aos de setembro, quando foram comercializados 268,7 mil carros, entre modelos nacionais e importados.

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