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Moody's rebaixa nota do Brasil, mas mantém grau de investimento

A Moody’s é a segunda entre as três grandes agências de classificação de risco a deixar o Brasil perto do grau especulativo, mas, ao indicar perspectiva ‘estável’, deu tempo para o País tentar evitar a perda do selo de bom pagador

RICARDO LEOPOLDO, ÁLVARO CAMPOS E VICTOR ALVES, O Estado de S. Paulo

11 de agosto de 2015 | 17h08

(Atualização às 21h50)

A agência de classificação de risco Moody’s rebaixou o rating soberano do Brasil de “Baa2” para “Baa3”, a última nota dentro da faixa considerada como grau de investimento, e alterou a perspectiva da nota de “negativa” para “estável”. Embora o rebaixamento seja uma notícia ruim, de perda da confiança na economia brasileira, o fato de a Moody’s ter indicado perspectiva “estável” foi interpretado pelo governo e pelo mercado como bom sinal, de que o País ganhou tempo para tentar evitar a perda do grau de investimento, o selo de bom pagador, referência para os investidores.

Apesar do rebaixamento da nota, a leitura inicial do mercado foi positiva, visto que a tendência agora é de o rating permanecer no mesmo patamar nas próximas revisões. O Ibovespa reduziu as perdas no fim do pregão e caiu 0,57% no fechamento.

Moody’s citou, entre os motivos para o rebaixamento, a fraqueza da economia, a tendência de aumento de gastos públicos e os reflexos da Operação Lava Jato afetando a confiança de investidores no Brasil.

“O desempenho econômico mais fraco do que o esperado, a tendência ascendente das despesas do governo e a falta de consenso político sobre as reformas fiscais impedirão as autoridades de atingirem superávits primários elevados o suficiente para conter e reverter a tendência de aumento da dívida neste ano e no próximo, e desafiar a sua capacidade de fazê-lo depois”, escreveu a Moody’s, em nota.

Em entrevista ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real da Agência Estado, Mauro Leos, vice-presidente da Moody’s, disse que boa parte do rebaixamento da nota está associada aos gastos obrigatórios que pressionam as contas públicas.

Queda na arrecadação. Desde o início do ano, o governo tenta evitar um rebaixamento da nota de crédito, com cortes de gastos e propostas de ajuste fiscal enviadas ao Congresso. Mas a queda na arrecadação provocada pela crise econômica e as dificuldades políticas para aprovar o ajuste levaram o governo a reduzir a meta de economia para pagamento de juros (superávit primário) deste ano de 1,1% para 0,15% do PIB.

Com a dificuldade crescente para o governo ajustar as contas públicas e evitar o crescimento da dívida, o Brasil passou a ser alvo de revisão de nota pelas agências de classificação de risco. Em julho, a Standard & Poor’s colocou a nota brasileira em perspectiva negativa, para rebaixamento de grau de investimento para especulativo. A Moody’s foi a segunda entre as três principais agências de classificação a rebaixar o rating para mais perto do território especulativo. A Fitch Ratings ainda classifica o Brasil dois degraus acima do nível especulativo, com perspectiva negativa.

Seis meses de prazo. Para o ex-presidente do Banco Central Gustavo Loyola, a decisão da Moody’s já era esperada, após a redução da meta de superávit primário. Mas a perspectiva estável para a nota da dívida brasileira “dá mais ou menos seis meses” para o País evitar a perda do grau de investimento.

“Hoje, a probabilidade está dividida em 50% para que o governo consiga manter ou não evitar a perda do grau de investimento no ano que vem”, disse Loyola. “Se melhorar a ação do Poder Executivo com o Legislativo, com a aprovação de medidas para reforçar as contas públicas, junto com o cenário mais favorável de crescimento do PIB, isso será mito importante para um desfecho favorável.”

O professor da PUC-RJ e economista-chefe da Opus Gestão de Recursos, José Márcio Camargo, é mais pessimista. Para ele, o Brasil “ganhou o benefício da dúvida” da Moody’s com a decisão de manter a perspectiva da nota estável. Mas será muito difícil evitar a perda do grau de investimento em 2016.

“Como as perspectivas de crescimento são muito ruins, dado que este ano deve ocorrer uma queda do PIB entre 2,5% e 3% e em 2016 deve ocorrer uma retração da economia entre 0,5% e 1%, além de um superávit primário de 0,7% do PIB do ano que vem, é bem provável que a dívida bruta supere 70% do PIB do próximo ano. Nesse contexto, será praticamente inevitável perder o grau de investimento perante a Moody’s.”

Alívio no governo. Para o governo, o rebaixamento pela Moody’s, com perspectiva estável, foi ‘dos males, o menor’. O ministro da Fazenda, Joaquim Levy, disse que a agência indicou as prioridades que o governo deve ter para gerir a dívida pública.

A perspectiva estável também trouxe alívio para os investidores, que esperavam um viés negativo. O anúncio da Moody’s veio pouco antes do fechamento do mercado e levou a Bolsa a reduzir pela metade as perdas nas operações do dia. O índice Bovespa fechou em baixa de 0,57%. (Com informações da Reuters). 

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