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Moody's vê PIB do Brasil encolher 3% em 2015 e 1% em 2016

Apesar da forte retração da economia, agência afirma que classificação do Brasil é compatível com o grau de investimento

Fernanda Guimarães, Ricardo Leopoldo, Álvaro Campos, O Estado de S. Paulo

06 de outubro de 2015 | 10h26

A diretora gerente da Moody's para os Estados Unidos e Américas, Paloma San Valentin, reiterou nesta terça-feira, 6, que a projeção da agência de classificação de riscos é de retração de 3% para o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil neste ano e de um recuo de 1% em 2016. Os números foram divulgados na 17ª Conferência Anual da Moody's, em São Paulo.

Ela afirmou que as economias na América Latina estão sendo pressionadas, além das questões locais, pelo pequeno crescimento global. O menor avanço da economia chinesa, destacou, tem exercido ainda mais pressão sobre a América Latina. A média de crescimento no segundo governo Dilma Rousseff (2015-2018), segundo a agência, deve ficar em -0,3%, comparado com uma média de 2,1% no primeiro mandato. 

No âmbito fiscal, o superávit primário (a economia que o governo faz para pagar os juros da dívida) médio no segundo governo Dilma deve ser de 0,6%, ante 1,2% no primeiro mandato. E a dívida bruta deve ficar em 68,5% do PIB, de 54,6% no primeiro governo. "A relação dívida/PIB sempre foi um dos elos mais fracos do rating do Brasil, sempre foi maior que a média dos pares com rating na faixa Baa. É altamente improvável que essa proporção volte para onde estava antes, nós temos um novo cenário", comentou o vice-presidente da agência, Mauro Leos.

Apesar da piora no cenário econômico, Leos afirmou que a nota de crédito do Brasil hoje é compatível com outros países que também estão no patamar Baa3, que é o último nível do grau de investimento - uma espécie de selo de bom pagador que dá confiança aos investidores para aplicarem o dinheiro em um País. Outros que estão no mesmo degrau que o Brasil são países como Índia, Indonésia e Turquia.

Sobre a perspectiva estável da classificação do Brasil, Leos comentou: "Isso não significa que a economia está estável, significa que há equilíbrio entre os elementos positivos e negativos para o rating." No início de setembro, a agência Standard & Poor’s retirou do Brasil o grau de investimento, alegando que os desafios políticos do País continuam a aumentar.

'Forças subjacentes'. A diretora-gerente da Moody's Latin America, Susan Knapp, foi na mesma linha e afirmou que as "forças subjacentes do Brasil" ainda são suficientes para manter o grau de investimento, apesar de as dinâmicas atuais de crescimento serem piores do que a agência antecipava.

"As forças subjacentes ainda são suficientes para manter o grau de investimento, mas o Brasil enfrenta desafios, como o crescimento fraco, desequilíbrios fiscais persistentes e a situação política", comentou Susan. A diretora apontou que o desempenho econômico brasileiro tem sido mais fraco do que a Moody's havia antecipado e que espera-se uma melhora apenas moderada no curto prazo.

Segundo Susan, o aperto monetário, somado ao consumo e investimento fraco e à confiança baixa de empresas e famílias, afeta negativamente as perspectivas econômicas para o Brasil neste ano e no próximo. "O governo não tem sido capaz de cumprir as metas fiscais e falta consenso político para lidar com a rigidez estrutural, o que é essencial para garantir o equilíbrio fiscal". Ela lembrou que as baixas taxas de aprovação do governo Dilma também colaboram para a crise política.

Commodities. Entre os países da América Latina, o Brasil é o mais exposto ao menor crescimento da China, tendo em vista, principalmente, a menor demanda por commodities, o que afeta os preços dos insumos e vem batendo de frente com a economia brasileira. Ao seu lado, Chile e Peru também são os mais impactados com esse cenário. "Brasil, Chile e Peru são os países que mais exportam para a China", ressaltou Paloma.

A Moody's estima que a China cresça 6,3% neste ano e depois mantenha um crescimento de 6%, porcentual muito menor do que o visto em anos anteriores. "E não existe outra economia que pode dar o suporte como a China", destacou.

Câmbio. Outro impacto do fraco crescimento mundial, disse a executiva, é o efeito nas taxas de câmbio, com muitas moedas se desvalorizando, caso do real. Essa pressão nas taxas, destacou, terá um fator adicional no momento em que o juro subir nos Estados Unidos, o que deve elevar o fluxo de capital para o país.

A América Latina, lembrou, já vem sofrendo de um menor fluxo de entrada de capital, muito menor daquele observado nos últimos anos, tendo em vista o aumento da aversão ao risco em relação à região. Paloma frisa, todavia, que os impactos não são iguais para todos. Segundo ela,  México, Peru e Chile estão mais bem preparados para atravessar esse período do que Brasil e Argentina. 

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