toby Melville/Reuters
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Moradia coletiva para hipsters, não hippies

Com a forte valorização dos mercados imobiliários residenciais, os edifícios comunitários estão em alta

The Economist

11 Setembro 2017 | 05h00

Segunda-feira é dia de Game of Thrones no edifício Old Oak. Jovens da geração do milênio se reúnem em salas de TV espalhadas pelo prédio de 11 andares e 550 moradores. Alguns preferem assistir o programa no cinema do edifício, recostando-se em almofadões decorados com capas antigas da revista Life. E os episódios da popular série de TV são apenas um dos momentos de intensa vida em comum no Old Oak. O que não quer dizer que o lugar seja um dormitório de estudantes. É um edifício residencial.

A Collective, empresa responsável pela construção e operação do Old Oak, oferece um novo tipo de moradia, conhecido como “co-living”. As pessoas não moram em apartamentos propriamente ditos, mas em quartos de 12 m². Na maioria deles, há apenas uma cama e um banheiro. Nas noites que passou no lugar, o autor deste texto teve dificuldade para caber no box do chuveiro.

É fora dos quartos que o edifício concentra seus atrativos: academia de ginástica, spa, bibliotecas, restaurante e cinema. Para ter acesso a toda essa infraestrutura, assim como a um quarto, os moradores pagam aluguéis mensais que variam de US$ 1.003 a US$ 1.292. Estão incluídos no valor do aluguel as contas de luz e água, além de imposto predial, acesso a internet, faxineira e troca de lençóis a cada 15 dias, entre outros serviços. Refeições no restaurante são pagas à parte. O Old Oak tem uma “biblioteca de coisas”, um repositório de utensílios, como martelos, trenas e até barracas.

A forte alta dos aluguéis residenciais nas grandes cidades dos países desenvolvidos abriu um vazio no mercado. Em Londres, a relação entre o valor médio dos aluguéis e a renda média dos habitantes, que era de 25% em 2004, já superava os 33% em 2014. Em Nova York, a média dos aluguéis passou de 29% da renda média em 2002 para 34% em 2014. 

O Old Oak, primeiro empreendimento da empresa, na zona noroeste de Londres, passou a maior parte deste ano com taxa de ocupação de 97%. A Collective está construindo mais dois edifícios de co-living em Londres. A combinação de quartos muito pequenos e serviços de luxo compartilhados é recente e ainda não foi muito testada, mas o setor imobiliário está acompanhando a coisa com atenção. Jack Sibley, da gestora de investimentos imobiliários TH Real Estate, diz que “foi a ideia mais promissora a ter surgido nos últimos tempos, apontando um futuro para os imóveis residenciais”.

Para Reza Merchant, fundador e CEO da Collective, o próximo passo é a expansão no exterior. A empresa está perto de iniciar empreendimentos em Boston e Nova York e negocia com incorporadoras de Berlin, onde os aluguéis vêm subindo em ritmo acelerado. A Collective não tem concorrentes no Reino Unido, mas nos EUA enfrentará a Ollie, operadora de co-living com sede em Nova York.

Os dois edifícios de co-living atualmente administrados pela Ollie são menores que o Old Oak (que é o maior do tipo no mundo inteiro). Mas a empresa americana em breve terá em sua carteira um espaço de co-living que ocupará mais de 13 andares de um prédio em Long Island City, no distrito de Queens. O empreendimento é coordenado pela Quadrum Global, empresa de investimentos imobiliários, cujos modelos financeiros indicam que o co-living oferecerá rentabilidade muito superior à dos apartamentos convencionais, pois o retorno por metro quadrado é extremamente alto.

A WeWork, maior operadora de escritórios compartilhados do mundo, com valor estimado em US$ 20 bilhões, tem um braço residencial, a WeLive, que administra unidades de co-living em Manhattan. No mês passado, a empresa anunciou parceria com uma construtora de Seattle, a Martin Selig, para erguer um edifício de 36 andares, 23 dos quais serão reservados para unidades de co-living.

À medida que as operadoras forem percebendo o que dá e o que não dá certo, o modelo certamente sofrerá ajustes. Merchant vem coletando dados no Old Oak para aprimorar os novos edifícios da Collective. A empresa já decidiu, por exemplo, que os quartos dos próximos empreendimentos serão um pouco maiores. 

Maria Carvalho, professora de Ciências Sociais da London School of Economics, mudou-se para o Old Oak porque desejava morar com outras pessoas, mas não queria ter o trabalho de procurar alguém para dividir um apartamento. “Eu diria que isto aqui é uma comunidade hipster, não uma comunidade hippie”, afirma ela. Uma das coisas de que a jovem acadêmica mais gosta é encontrar amigos ao voltar para casa, no caminho entre a estação de trem e o edifício. Por outro lado, ela se queixa de que é comum chegar às cozinhas do prédio e não encontrar os utensílios de que precisa. 

Operadoras como a Collective têm uma escolha a fazer, diz Roger Southam, da imobiliária Savills. Podem muito bem continuar a se concentrar em jovens profissionais que se mudam para a cidade grande, oferecendo um mínimo de espaço residencial privativo e áreas comuns atraentes. Mas Southam acha que o potencial dos edifícios de co-living se ampliaria bastante se as áreas privativas fossem um pouquinho maiores, o que poderia atrair pessoas que já moram nas grandes cidades. Ampliando progressivamente as dimensões de seus quartos liliputianos, as operadoras de co-living talvez consigam encontrar o equilíbrio perfeito entre o espaço coletivo e o privado. Afinal, quem não gostaria de morar num prédio que tem um cinema no subsolo? / TRADUÇÃO ALEXANDRE HUBNER

© 2017 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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