Moradores deixam palafitas e ocupam novas casas de 60 m²

Loteamento fica mais distante, mas moradores estão livres dos riscos provocados pelo lixo espalhado, esgoto a céu aberto e constantes inundações

Renée Pereira, O Estado de S. Paulo

14 de junho de 2014 | 18h21

ALTAMIRA - Foram 15 anos de muitas noites em abrigos, de móveis perdidos pela cheia do Rio Xingu e medo de perder a vida. “Todo inverno era a mesma coisa. A água subia 2,4 metros e tinha de sair correndo de casa”, lembra Eduardo Barbosa da Silva, de 56 anos. Há três meses, os dias de agruras vividos nas palafitas de Altamira terminaram e, enfim, ele tem uma casa de verdade para morar com a mulher e os filhos. “O conforto que temos aqui nem se compara com a vida que tínhamos nas palafitas.”

O imóvel faz parte do Projeto Básico Ambiental da Hidrelétrica de Belo Monte. Todas as palafitas (casas de madeira construídas sobre estacas em áreas que são alagadas na época de chuvas) de Altamira serão destruídas e os moradores deslocados para as 4.100 casas em cinco novos bairros que estão sendo construídos pela Norte Energia, empresa que detém a concessão da usina. 

Silva se mudou para o bairro Jatobá, o primeiro a ser entregue pela companhia, que já tem 229 famílias. São 1.235 residências, todas no mesmo formato. As casas têm 60 metros quadrados (m²), com três quartos, sala, cozinha e banheiro num terreno de 300m². Para diferenciar, cada morador escolheu a cor que queria para a frente da residência. A de Silva é azul.

Ao contrário das palafitas, que ficam próximas da região central da cidade, os novos bairros são mais afastados - cerca de 15 minutos do centro. O trajeto até Jatobá é ruim, com ruas de terra e esburacadas. Mas, no bairro, as vias são amplas e pavimentadas. O melhor de tudo, no entanto, é que os moradores estão livres dos riscos que as palafitas representavam, com lixo espalhado por todo lado, esgoto a céu aberto e constantes inundações.

“Aqui é longe, mas as crianças podem brincar sossegadas”, afirma Benigna Rabelo Dutra, de 57 anos, que passou boa parte da vida na zona rural. Para escapar da malária que ameaçava a saúde dos filhos, mudou-se para a cidade e foi viver num assentamento. Ali, teve de conviver com as constantes enchentes a cada inverno. Com seis filhos e 24 netos, ela banca sozinha as seis pessoas que moram na nova casa. Sobrevive da aposentadoria e da venda de chopp, mas conhecido como geladinho ou chup-chup no Sudeste.

Apesar das dificuldades, ela mostra com orgulho as aquisições e melhorias feitas no imóvel. Na sala, o sofá e a mesa são forrados com tecidos verdes, trocados toda semana. O rack e a TV de 42 polegadas foram adquiridos recentemente. “Antes não dava para fazer nada, pois a cada chuva corríamos o risco de perder tudo.”

No fundo da casa, ela construiu uma cozinha ampla, onde só falta colocar as “lajotas”. “E ainda vai ter uma churrasqueira, que acabei de comprar.” Silva também tem planos de ampliar o imóvel. “Quero construir mais dois quartos, uma cozinha e fazer muro em volta de toda a casa”, diz ele, que recebe um salário mínimo do INSS, depois que perdeu uma perna. “Não é muito, mas graças a Deus me ajuda bastante.”

À espera da casa nova. Enquanto Benigna e Silva festejam a vida nova, outros esperam ansiosos para deixar de vez as palafitas. Francisca do Socorro das Chagas ainda não faz ideia de quando vai mudar. Sua casa, no entanto, parece não aguentar muito tempo. Construída à beira de um córrego, a casa está tombada para um lado e as pontes de acesso com as tábuas soltas, um perigo para as crianças que transitam sem parar pelo local. “Quero mudar logo, mas ninguém diz quando será. A única coisa que sei é que iremos para o bairro São Joaquim.”

A filha de Maria Aparecida Silva está prestes a fazer a mudança, também para o São Joaquim. Durante a visita da reportagem, sua filha tinha ido olhar a casa nova. “Minha neta chora toda vez que vê um vizinho mudar. Ela sempre diz que não dá para brincar aqui. De um lado corre o risco de cair na água, do outro pode ser atropelada pelos carros.” Naquele dia, o barraco da vizinha que havia acabado de mudar estava sendo desmontado. As empresas responsáveis pela demolição contam que, se deixarem um dia o barraco vazio, no dia seguinte aparece alguém para ocupar. “E depois só pagando para eles saírem”, conta um funcionário da empresa contratada pela Norte Energia.

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