Moradores protestam na Transamazônica

Manifestantes organizados por entidades ligadas à CNBB não conseguiram parar integralmente o tráfego na principal rodovia da região

João Domingos, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2010 | 00h00

Um protesto contra o leilão da Usina de Belo Monte bloqueou ontem de forma parcial a Rodovia Transamazônica, a cerca de 45 quilômetros de Altamira, no local conhecido por Descida dos Ciganos - assim chamado por causa de um acidente com um caminhão, no qual morreram cerca de dez ciganos.

Organizado por entidades como o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) e a Comissão Pastoral da Terra (CPT), ambos ligados à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), e pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o bloqueio da Transamazônica teve uma peculiaridade: não conseguiu parar integralmente o trânsito e, entre os participantes, havia colonos favoráveis à usina.

Era o caso, por exemplo, de Elpídio Rodrigues Neto, de 50 anos, um mineiro que há 30 vive em Altamira. "Sou a favor da barragem. No meu caminhão tem até um adesivo a favor de Belo Monte. O que quero é justiça na indenização", disse. Elpídio tem uma propriedade de cerca de 300 hectares, perto de 400 cabeças de gado e 6 mil pés de cacau.

Sua propriedade será inundada pelo lago necessário para o funcionamento da usina. Como ocorre em todo processo que antecede as desapropriações, chegou até ele a informação de que a indenização para cada pé de cacau será de apenas R$ 4,00, isso se a árvore já estiver com 3 anos ou mais.

Mas, por enquanto, é tudo boato, porque o processo de desapropriação nem começou.

O boato quanto aos preços contaminou os agricultores que vão perder suas terras. De acordo com levantamento do Movimento dos Atingidos por Barragens, serão em torno de 10 mil os prejudicados. Um dos mais indignados era Lucimar Barros da Silva, que nasceu em Tocantins e desde 1981 vive em Altamira. Ele tem 380 hectares de terras, cerca de 10 mil pés de cacau, cria porcos e galinhas e administra uma banquinha de verduras na Feira Municipal.

Preço vil. Lucimar reclamou do preço vil que vão oferecer por sua propriedade, embora não tenha ainda recebido oferta. Foi ele quem doou uma vaca, transformada em churrasco no local em que foi feito o bloqueio provisório da Transamazônica. Disse que aproveitou uma visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Altamira para pedir que a usina não fosse feita. "Lula respondeu que não enfiaria a usina goela abaixo dos agricultores. Não cumpriu o que disse."

O bloqueio da Transamazônica começou por volta das 8h30. E foi parcial, porque todos os motoristas que alegavam estar com alguma pessoa doente recebiam permissão para passar. E quando passava um, outros seguiam atrás, sem ser incomodados. Logo a fila acabava. Só por volta do meio-dia, com reforço enviado pela Prelazia do Xingu, comandada por dom Erwin Krautler - radicalmente contrário a Belo Monte -, os manifestantes conseguiram evitar a passagem dos veículos. Mas levaram seu protesto somente até o fim da tarde.

A hidrelétrica ocupará parte da área de cinco municípios do Pará: Altamira, Anapu, Brasil Novo, Senador José Porfírio e Vitória do Xingu. Altamira, que tem o maior município do Brasil, é a cidade mais desenvolvida, com cerca de 98 mil habitantes. Os demais municípios têm entre 10 mil e 20 mil habitantes.

Belo Monte deverá gerar 11.233 megawatts (MW) durante o período de cheira do Rio Xingu. A obra deverá custar R$ 19 bilhões.

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