Moratória grega preocupa Bernanke

Para presidente do Fed, fim do estímulo monetário à economia dos EUA pode ser agravado por um eventual calote do país europeu

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

23 de junho de 2011 | 00h00

A decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de encerrar de vez o mecanismo de estímulo monetário à economia dos Estados Unidos foi acompanhada ontem pela advertência de seu presidente, Ben Bernanke, sobre o efeito devastador de uma eventual "moratória desordenada" da Grécia.

"Se houvesse um fracasso em resolver essa situação, ela traria ameaças para o sistema financeiro europeu, o sistema financeiro global e a unidade política europeia. Acho que os europeus entendem a importância incrível de resolver a situação grega", afirmou Bernanke em coletiva após o término da reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto dos Estados Unidos (Fomc, na sigla em inglês).

Em comunicado, o grupo puxou para baixo sua expectativa de crescimento da economia americana para este ano. Desta vez, entre 2,7% e 2,9%.

"Uma desordenada moratória da Grécia teria significantes efeitos nos Estados Unidos", afirmou Bernanke, ao enfatizar a "substancial exposição" de fundos de previdência de seu país a ativos financeiros gregos. A situação seria menos dramática para os bancos americanos, com vinculação "mínima e indireta". Na entrevista, Bernanke mostrou-se "brutalmente honesto", conforme avaliação da revista americana Forbes.

Embora o comunicado final do Fomc tenha culpado a tragédia provocada pelo terremoto e pelo tsunami no Japão e o aumento de preços de alimentos e do petróleo pela dificuldade em acelerar o ritmo de crescimento da economia americana, o presidente do Fed afirmou "não ter nenhuma pista" sobre a real causa da fragilidade doméstica.

Ele preferiu ainda destacar a perspectiva mais positiva para 2012, quando o Fomc espera expansão de 3,3% a 3,8% na atividade. "O crescimento vai voltar em 2012", disse Bernanke, omitindo o fato de a previsão anterior ter sido mais robusta, de 3,5% a 4,2%.

Em seu comunicado, o Fomc avaliou o ritmo de recuperação econômica como "moderado" e "mais lento do que o esperado". Mas adiantou sua expectativa de melhor desempenho e de retomada do gradual declínio da taxa de desemprego nos próximos trimestres.

"Os indicadores mais recentes do mercado de trabalho mostraram-se mais fracos do que o previsto", informou o texto, referindo-se aos seguidos aumentos da desocupação em abril e em maio. A taxa de desemprego em maio atingiu 9,1%, o equivalente a mais de 14 milhões de trabalhadores.

Segundo Bernanke, o Fed tem várias ferramentas à disposição para estimular a economia, mas nenhuma delas é livre de riscos e custos. "Temos um número de formas para agir, mas nenhuma delas é livre de riscos ou custos."

Sem prorrogação. Mesmo diante desse cenário, o Fomc decidiu ontem não prorrogar o mecanismo de recompra de US$ 600 bilhões em títulos do Tesouro americano, cuja última etapa estava prevista para este mês. Chamado de Quantitive Easing (afrouxo quantitativo, em tradução livre), o programa fora aplicado desde janeiro como meio de afastar os riscos de deflação e de uma nova recessão e de estimular a retomada de investimentos no mercado de ações e em outros ativos.

A expectativa de boa parte do mercado era de adoção de uma terceira etapa no segundo semestre deste ano, mesmo diante das censuras da maioria dos sócios dos Estados Unidos no G-20 e do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A decisão do Fomc reforça a tendência de a Casa Branca adotar uma nova leva de medidas fiscais de estímulo à economia americana, mesmo nesse período de difícil negociação com o Congresso de um plano de longo prazo de redução da dívida pública do país, hoje acima de US$ 14 trilhões.

Outra decisão relevante do Fomc foi a preservação da taxa básica de juros entre 0 e 0,25%, nível em que permanece desde dezembro de 2008. A votação desse tópico foi consensual, e o comitê indicou uma possibilidade de aumento nos juros apenas para meados de 2012.

De acordo com o comunicado, a inflação chegou a aumentar nos últimos meses, como reflexo da elevação dos preços das commodities e de outros bens importados, assim como houve quebra na corrente de fornecimento de produtos ao setor produtivo americano.

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