Renata Jubran/Estadão - 25/11/2010
O banqueiro Joseph Safra. Renata Jubran/Estadão - 25/11/2010

Morte de Joseph Safra marca fim de uma era no círculo das altas finanças

Com fortuna de US$ 23,2 bilhões, ele foi também o último representante de sua geração em família de banqueiros

O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 09h43
Atualizado 11 de dezembro de 2020 | 11h11

A morte do banqueiro Joseph Safra nesta quinta-feira, 10, aos 82 anos, marca o fim de uma era no círculo das altas finanças. Joseph, mais conhecido no Brasil como José, era o último sobrevivente de uma estirpe de grandes banqueiros, que prosperou nos últimos 60 anos no País, construindo seus bancos à sua imagem e semelhança.

Joseph era também o último banqueiro de sua geração na família, cuja história no ramo bancário se iniciou em Alepo, na Síria, onde havia uma próspera comunidade judaica à qual os Safras pertenciam, com o financiamento de caravanas de camelos e a negociação com ouro, durante o Império Otomano.

Seu irmão Edmond, que controlava o Republic National Bank of New York, vendido ao HSBC por US$ 10,3 bilhões em maio de 1999, foi morto meses depois, no apartamento em que vivia com a mulher Lilly, em Mônaco, após um incêndio criminoso provocado por um de seus empregados. Moise, o outro banqueiro da família, que dividia com Joseph a gestão do Safra no Brasil e acabou decidindo seguir voo solo em 2006, vendendo a ele a sua participação, morreu em 2014.

Dono de uma fortuna calculada em US$ 23,2 bilhões, de acordo com a revista Forbes, Joseph era o homem mais rico do Brasil e o 63.º do mundo. Era considerado o banqueiro mais rico em atividade no planeta. Hoje, o conglomerado da família inclui, além de bancos na Suíça, no Brasil e em Nova York, mais de 200 imóveis ao redor do mundo, entre eles o famoso Gherkin Building, em Londres.

Ele tornou-se conhecido também por suas ações filantrópicas. Foi um dos maiores doadores dos hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês, em São Paulo. À Pinacoteca do Estado, ele doou esculturas de Rodin e ao Museu de Israel, em Jerusalém, o manuscrito original da Teoria da Relatividade de Albert Einstein. Durante a pandemia da covid-19, o banco doou cerca de R$ 40 milhões para hospitais e Santas Casas.

Vítima do Mal de Parkinson, mesma doença que acometeu Edmond e Moise, Joseph morreu de causas naturais, segundo o comunicado divulgado pelo banco e pela família. Embora tivesse mudado para Genebra com a mulher Vicky em 2014, para acompanhar de perto os negócios do banco suíço Sarasin, que comprara dois anos antes, ele estava em São Paulo ao falecer e foi sepultado no Cemitério Israelita do Butantã, na zona oeste da cidade.

Há tempos ele já não viajava e havia voltado a morar em sua mansão no bairro do Morumbi, na zona sul. Seguidor das tradições do judaísmo, Joseph fez questão de comparecer à sinagoga nas comemorações de Pessach, a Páscoa judaica, em abril, mas já debilitado pela doença teve de ir em uma cadeira de rodas.

Desde a mudança para a Suíça, quando passou a gestão para os filhos, ele já não participava do dia a dia dos negócios, embora nunca tivesse se afastado totalmente. Ainda procurava conversar com executivos do banco, como nos velhos tempos, quando ocupava uma ampla sala, no 22.º andar de um edifício de 24 andares localizado na esquina da Avenida Paulista com a Rua Augusta, na região central de São Paulo. Em sua sala, destacava-se um retrato de seu pai, Jacob, falecido no início da década de 1960, poucos anos após a fundação do banco, em 1955.

No comando do Safra, Joseph transformou o banco numa máquina de gerar lucros. Seu brilhantismo é reconhecido pela concorrência e até por quem saiu do Safra, hoje o sexto maior banco do País por ativos totais. Faz parte do folclore do mercado financeiro uma frase atribuída a ele, nos tempos em que ainda tinha o irmão como sócio: “Eu gosto de negócio que é bom para os dois: para mim e para o Moise”. O velho slogan do banco Safra – “Tradição secular de segurança” – simboliza de forma emblemática o perfil conservador que ele cultivava e que ainda hoje atrai uma clientela abonada para a área de private banking, em especial integrantes da comunidade judaica.

Quando estava na ativa, não se desligava do trabalho mesmo quando estava em férias nos Alpes suíços com a família. Embora não ocupasse cargo executivo, era Joseph quem decidia praticamente tudo. Muitas vezes, enquanto sua família ia esquiar, ele ficava no telefone, conversando com os executivos do banco no Brasil e no exterior sobre os negócios. Embora fosse considerado um chefe duro com os subordinados, costumava ser generoso no reconhecimento de seus principais colaboradores, distribuindo bônus milionários no fim do ano.

Ao contrário de Edmond, Joseph, com seu irmão Moise, diversificou bastante os negócios. Fez investimentos significativos em empresas de telefonia celular, máquinas pesadas, celulose e até em agropecuária, muitas das quais vendidas anos depois. Em 2012, junto com o empresário brasileiro José Luís Cutrale, Joseph ganhou a disputa por uma das maiores produtoras de bananas do mundo, a americana Chiquita Brands International, comprada por US$ 1,3 bilhão.

No fim da década passada, quando estava perto de completar 70 anos, Joseph havia começado a implementar seu plano de sucessão, para entregar o comando dos negócios aos filhos Jacob, Alberto e DavidEsther, a única filha, chegou a trabalhar no banco durante um ano, mas acabou saindo e hoje é dona da escola judaica Beit Yaacov, em São Paulo. A troca de bastão, porém, acabou adiada, por causa da crise financeira global, iniciada em 2008.

Agora, com a morte de Joseph, caberá à nova geração dar continuidade ao legado do pai no mundo das finanças. Jacob, o primogênito, cuida do Safra National Bank, em Nova York. No Brasil, David e Alberto dividiram a gestão do Safra por seis anos até o fim de 2019, quando Alberto deixou a instituição e abriu a gestora de recursos ASA Investments

Astuto como era, Joseph, provavelmente, já deixou tudo arranjado para o futuro, delineando qual quinhão caberá a cada um. Nas próximas semanas e meses, os desdobramentos de sua morte nos negócios da família deverão ficar mais claros. Mas, por mais capazes que sejam os seus filhos, não será uma tarefa fácil substituir um banqueiro como o pai no comando. Eles têm, porém, o privilégio de terem cursado uma das melhores escolas do ramo bancário do mundo, a de Joseph Safra. 

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Setor financeiro lamenta a morte do banqueiro Joseph Safra

Safra morreu nesta quinta-feira, aos 82 anos; no topo da lista dos homens mais ricos do Brasil, construiu um império com presença em 26 países e mais de R$ 1 trilhão sob gestão

Fernanda Guiamarães, O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 12h29
Atualizado 10 de dezembro de 2020 | 15h41

Presidentes dos maiores bancos do País e representantes de associações do setor financeiro lamentaram a morte do banqueiro Joseph Safra, aos 82 anos, nesta quinta-feira, 10. No topo da lista dos homens mais ricos do Brasil, Safra construiu um império com presença em 26 países e mais de R$ 1 trilhão sob gestão.

Candido Botelho Bracher, presidente do Itaú Unibanco, lembrou Safra como um empresário "dotado de grande energia, que adotou o Brasil como pátria e construiu uma das principais instituições financeiras do país". "Com o Grupo Safra, rompeu fronteiras e foi um dos pioneiros no mercado financeiro a se destacar internacionalmente. Aliou ao papel de grande empresário aquele de grande filantropo, compartilhando assim seu êxito com a sociedade", afirmou Bracher em uma nota de condolências.

Para o presidente do conselho de administração do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco Cappi, "seu José", como o banqueiro era conhecido, "consolidou-se em vida como um símbolo de confiança do mercado financeiro nacional. Praticando os melhores fundamentos da atividade bancária, ao longo de toda uma vida, iniciada no Líbano, ele dedicou-se pela vocação de líder e banqueiro, tornando-se rapidamente um nome conhecido e respeitado no mercado global". Trabuco afirmou ainda que Safra destacou-se nos principais mercados do mundo como exímio gestor do patrimônio das famílias. "No Brasil, dividia o comando do Banco Safra com uma intensa atividade filantrópica e profundo amor pelas artes, sendo sempre um dos principais beneméritos da grande comunidade judaica em nosso País. Por seus méritos, amealhou fortuna, mas sua atuação em sociedade era ressaltada pela máxima elegância e discrição, aquelas qualidades que distinguem os grandes homens."

Segundo o presidente do Santander, Sergio Rial, Safra foi um homem de coragem. "Após imigrar para o Brasil, teve participação fundamental no desenvolvimento do setor bancário do País, empreendendo também em outras áreas com destemor e eficiência. Seu nome se tornou sinônimo de humildade e filantropia não só no Brasil, mas em todo o mundo. Meus sinceros sentimentos a toda a família, colaboradores e amigos, que certamente seguirão seu legado", destacou.

O presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), Isaac Sidney, disse, em nota, que Joseph Safra é uma figura emblemática do setor bancário, descendente de banqueiros e com visão estratégica sobre o País. "Sua contribuição para escolas, museus e instituições, não só no Brasil, quanto em outros países, é marcante. O legado de sua atuação no desenvolvimento da economia nacional ficará sempre marcado na história do Brasil, país que ele adotou 58 anos atrás."

A Associação Brasileira de Bancos (ABBC) afirmou que Joseph Safra foi "fundamental para o sistema financeiro nacional, um dos mais ilustres representantes". Em nota, a associação destacou que Safra deixa um legado "que continuará a influenciar não só aqueles que trabalharam diretamente com ele, como todos os que atuam na área financeira".

O presidente da B3, Gilson Finkelsztain, disse que Safra, como "banqueiro, construiu um dos maiores bancos do país e ajudou a financiar etapas importantes do nosso desenvolvimento econômico".  "Seu legado transborda o mercado financeiro na capacidade de aliar e realmente viver, no seu dia a dia, a visão de um negócio bem sucedido e uma profunda responsabilidade social. Seu José foi um dos primeiros e grandes filantropos do Brasil e nos mostrou que esses valores são complementares e fazem a diferença na história das empresas e das pessoas".

Comunidade judaica

A Federação Israelita do Estado de São Paulo divulgou nota lamentando a morte de Joseph Safra, a quem se referiu como "grande ativista e filantropo da comunidade judaica de paulista e da sociedade brasileira". "As tradições judaicas e o amor pelo Estado de Israel sempre o marcaram e, graças a sua generosidade, muitas entidades foram ajudadas e outras criadas por sua família a fim de transmitir este sentimento tão enraizado em seu coração."

O presidente da Confederação Israelita do Brasil (Conib), Claudio Lottenberg, afirmou, também em nota, que “Safra teve papel muito relevante na vida econômica de nosso país e contribuiu de forma única e fundamental para as atividades e organizações da comunidade judaica brasileira e mundial". "Seu exemplo seguirá vivo como fonte  de inspiração e norte para todos nós. Os que tiveram a honra e a felicidade de conviver com ele sabem da grande fonte de sabedoria e inspiração que emanava de suas palavras e, principalmente, de suas ações."

O presidente da Câmara Brasil-Israel de Comércio e Indústria, Renato Ochman, disse em nota que Joseph Safra era "representante ilustre de nossa comunidade e fonte de inspiração e caráter para empresários e executivos de nosso país".

Para o presidente da Suzano, David Feffer, Safra era "um empreendedor excepcional que deixa um importante legado para a nossa sociedade e para o Brasil", disse em nota. Segundo Feffer, Safra era admirado como marido, pai, avô, amigo, líder comunitário e empresarial, e viveu uma vida pautada pela ética, competência, arrojo empresarial e generosidade filantrópica. "Sentiremos falta da sua liderança!"

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Joseph Safra: 'Os problemas do Brasil são complexos. O País é muito complicado'

Avesso à exposição pública, o banqueiro conversou duas vezes com a colunista do 'Estadão' Sonia Racy, a última delas em 2010; confira os principais trechos das entrevistas

O Estado de S.Paulo

10 de dezembro de 2020 | 19h12

Reservado e avesso a entrevistas, o banqueiro Joseph Safra, que morreu nesta quinta-feira, 10, aos 82 anos, abriu algumas exceções para a colunista do Estadão Sonia Racy. Em 2000 (até então ele só havia dado duas entrevistas em toda a vida), Safra contou sobre o processo de construção do império financeiro do qual estava à frente. Ele era da quarta geração de uma tradicional família de banqueiros, com origem na Síria.

Jacob, pai de Joseph, mudou-se para o Líbano depois da Primeira Guerra Mundial e abriu o Jacob Maison de Banque em Beirute. Emocionado ao relembrar a história da família, o banqueiro explicou que seu pai escolheu o Brasil para morar pois buscava um lugar seguro. “Meu pai pensava que era iminente uma terceira guerra mundial. Cansado de tanta guerra, quis então ir para um lugar onde entendia que uma guerra não poderia atingi-lo, e escolheu o Brasil.”

Questionado sobre os rumos nacionais naquela época, ele respondeu que o então presidente Fernando Henrique Cardoso estava fazendo um governo "coeso, bem dentro da linha que ele sempre pregou; acabou com a inflação do início". E fez uma avaliação mais ampla sobre o País: "Sem dúvida nenhuma, os problemas do Brasil são muito complexos e não é só acabar com a inflação. O País é muito complicado, com muita diferença entre norte e sul, muita diferença no Congresso. Eu acho que o presidente faz o que pode", afirmou.

Sobre a aversão a entrevistas, contou que a discrição é “condição essencial” para um bom desempenho profissional na sua ocupação. “Não gostamos de exposição. É uma coisa antiga dentro da família.”

 

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Os problemas do Brasil são muito complexos e não é só acabar com a inflação. O País é muito complicado, com muita diferença entre norte e sul, muita diferença no Congresso.
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Dez anos depois, quando ainda ocupava o terceiro lugar entre os brasileiros na tradicional lista dos bilionários globais da revista Forbes, com uma fortuna estimada em US$ 10 bilhões, Joseph Safra não hesitou em dizer que sua confiança no banco da família era do mesmo tamanho que a que tinha no Brasil, um país que o “recebeu de braços abertos”. Safra morreu no topo da lista, como homem mais rico do Brasil e o 63º do mundo. Segundo o ranking mais recente da revista Forbes, ele tinha um patrimônio de US$ 23,2 bilhões.

Em março de 2010, ele recebeu Sonia Racy para uma conversa em seu escritório no último andar da sede do Banco Safra, na Avenida Paulista, e falou sobre a crise financeira global iniciada em 2008, da economia brasileira e do setor bancário, do conflito no Oriente Médio, de religião e do Corinthians, time para o qual torcia - até frequentava estádios com os netos.

De poucas palavras, ao ser questionado sobre a crise que o mundo ainda enfrentava, limitou-se a dizer: “Ela vai se resolver”. “O mundo não vai acabar e as finanças internacionais já estão em processo de recuperação.” Disse ainda que o sistema financeiro brasileiro era “sólido e bem regulamentado” e a autoridade monetária “soube avaliar a extensão e os efeitos da crise”.

Sobre o futuro do Banco Safra, disse que o enxergava “tão sólido quanto foi no passado” - o início das atividades no Brasil foi em 1957. Segundo ele, o banco sempre se caracterizou como uma instituição financeira “bem controlada, ágil e conservadora”.

Safra ressaltou que acompanhava o trabalho dos filhos Jacob, Alberto e David na instituição e “estava certo de que continuariam seguindo a tradição de sucesso”. E falou com orgulho da única filha, Esther, que fundou a escola judaica Beit Yaacov, em São Paulo.

 

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A história da humanidade tem mostrado que qualquer tipo de preconceito é inadmissível.
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O libanês e brasileiro, “plural”, como se definiu, não deixou de falar também sobre o repúdio à intolerância religiosa. Sonia Racy descreve em seu texto que peças de arte do mundo inteiro decoravam o ambiente da entrevista, mas uma belíssima série de gravuras do Vaticano, de Raffaello, era “o que mais chamava a atenção”. “Sou judeu religioso, mas aceito todas as religiões”, justificou o banqueiro, que estudou, durante a Segunda Guerra, num colégio católico por dois anos, em Beirute (onde nasceu, em 1938, e viveu até os 13 anos). “A história da humanidade tem mostrado que qualquer tipo de preconceito é inadmissível”, acrescentou.

Conhecido pelas ações filantrópicas, ele foi um dos maiores doadores dos hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês, em São Paulo. “Representa muito e com o meu passado não poderia ser diferente”, disse Safra sobre o significado da filantropia na sua vida.

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