RAHEL PATRASSO/REUTERS - 3/9/2019
RAHEL PATRASSO/REUTERS - 3/9/2019

Morre Carlos Alberto de Oliveira Andrade, fundador do grupo Caoa, aos 77 anos

Formado em Medicina, Andrade fundou a Caoa em 1979 após comprar uma concessionária quebrada em Campina Grande, no interior da Paraíba; grupo cresceu e hoje representa marcas como Hyundai, Chery e Subaru

Redação, O Estado de S. Paulo

14 de agosto de 2021 | 09h07

O médico e empresário brasileiro Carlos Alberto de Oliveira Andrade, que transformou uma pequena concessionária de veículos do interior da Paraíba em uma das principais companhias brasileiras do setor automotivo, o grupo Caoa, faleceu na manhã deste sábado, aos 77 anos.

O anúncio foi feito pela manhã em nota divulgada pela diretoria da Caoa, que preferiu não divulgar causa da morte a pedido da família. “É com profundo pesar que informamos o falecimento de nosso fundador e presidente do conselho, Dr. Carlos Alberto de Oliveira Andrade, na manhã de hoje. Dr. Carlos estava com a saúde debilitada por conta de um tratamento de saúde e faleceu durante o sono ao lado de sua esposa e filhos”, afirmou a diretoria do grupo Caoa em nota.

"Dr. Carlos foi médico e um empreendedor magistral, tendo atraído importantes marcas para o portfólio da Caoa, como a Ford, a Hyundai, a Caoa Chery e a Subaru, tendo se tornado um ícone para a indústria automobilística brasileira."

Formado em Medicina pela Universidade Federal de Pernambuco, o paraibano era conhecido como bom negociador. Vindo de uma família de 17 irmãos, trabalhava como cirurgião quando comprou, em 1979, um Ford Landau em uma concessionária da marca em Campina Grande (PB). A revenda quebrou, e Carlos Alberto decidiu comprar a empresa – pagando barato –, para compensar a perda do dinheiro do carro. Fundou ali a Caoa, que leva as iniciais do seu nome completo. 

Como pagamento, o empresário aceitava carros usados, terrenos, cabeças de gado e até estoques de tijolos. Logo obteve a fama de “um doutor que fazia qualquer negócio”. Às vezes, perdia dinheiro, mas o importante era fechar a venda.

A fama fez com que compradores viessem de toda a região, até mesmo de João Pessoa (PB) e Natal (RN), para Campina Grande. Não demorou para que a Ford oferecesse a ele a principal concessionária do Recife (PE) e, pouco tempo depois, algumas de São Paulo. Em menos de seis anos, Caoa se tornou o maior revendedor Ford do Brasil, ainda nos anos 1980. 

Com a abertura do mercado automotivo, nos anos 1990, a Caoa passou a importar e a revender carros da Renault, que não tinha produção local na época. Mais tarde, a Caoa se tornou a revendedora oficial da japonesa Subaru e da sul-coreana Hyundai. Com o forte crescimento dos negócios, Carlos Alberto de Oliveira Andrade virou um ícone da transformação da indústria automotiva nas últimas décadas, quando a entrada de novas marcas acirrou a competição com as montadoras tradicionais já instaladas no País. 

Com a evolução das marcas no mercado automobilístico, o empresário passou a produzir no País os carros da Hyundai. Em 2007, investiu R$ 1,2 bilhão na Caoa Montadora de Veículos, em Anápolis (GO). Dez anos depois, pagou US$ 60 milhões pelo controle da Chery no Brasil, que se tornou Caoa Chery, uma montadora nacional. Em 2017, a empresa inaugurou sua segunda planta industrial, em Jacareí (SP).

A fábrica de Goiás produz veículos da Hyundai e SUVs de maior porte da Caoa Chery. Ela tem capacidade de produzir 86 mil unidades por ano e passa por uma ampliação para chegar a 150 mil veículos por ano até 2023.  A de Jacareí (SP), que faz os sedãs Arrizo 5 e 6 e o utilitário médio Tiggo 2, da também ampliará a produção. Recentemente a unidade contratou 200 funcionários e abrirá mais vagas se as vendas da marca continuarem crescendo. 

Carlos Alberto de Oliveira Andrade afastou-se do comando da empresa em 2013, quando Antônio Maciel Neto, que havia sido presidente da Ford, assumiu o grupo. O empresário foi para a presidência do conselho. Em 2017, houve nova troca na presidência, com Mauro Correia assumindo o comando do grupo. 

Segundo a empresa, o grupo continuará a ser gerido pelos atuais executivos. "A empresa,  de acordo com o plano de sucessão e governança, continua a ser gerida por seus atuais executivos, que lamentam o falecimento de seu fundador e se solidarizam com a família neste momento", disse a diretoria do grupo Caoa em nota. O executivo tinha duas filhas e dois filhos, entre 18 e 30 anos, e ao menos um deles já acompanhava o dia a dia da empresa.

Em entrevista ao Estadão, em março, Andrade disse que mantinha seu antigo projeto de fazer da Caoa uma grande montadora nacional, com tecnologia de ponta e capacidade para produzir veículos híbridos e elétricos. Ele disse que mantinha as negociações com três fabricantes chinesas. “Enquanto várias montadoras estão tirando o pé do acelerador, fechando fábricas, nós estamos fazendo o contrário”, afirmou na época.

A decisão da Ford de encerrar a produção de veículos no Brasil acabou afetando uma parte dos negócios da Caoa ligada à origem da empresa. Maior revendedor da montadora, com 12 lojas da marca no Brasil, Andrade disse à época que pretendia manter apenas quatro delas. As outras seriam transformadas em concessionárias Caoa Chery e Hyundai.

Em 2019, quando a Ford anunciou o fechamento de sua fábrica de caminhões em São Bernardo do Campo (SP), a Caoa chegou a ser cogitada como uma potencial compradora das instalações. A empresa, no entanto, desistiu do negócio, e a fábrica foi comprada pela Construtora São José e a empresa de gestão de recursos Fram Capital. "É um crime fechar uma fábrica como aquela, que tem bons equipamentos”, disse o fundador da Caoa, na época. 

Quando o grupo Caoa completou 40 anos, em maio de 2019, o empresário publicou um depoimento afirmando que a empresa começava um novo ciclo, ao assumir a controle da marca Chery no Brasil. "Comecei do nada, e a Caoa chegou onde chegou com a Ford, depois a Subaru e, mais recentemente, com a Hyundai", afirmou. "Todos aqueles que estão ligados ao grupo Caoa sabem que não só vencemos, mas também crescemos."

O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, lamentou a morte do empreendedor. "Perdemos hoje um grande brasileiro, Carlos Alberto de Oliveira Andrade, empresário com notável espírito empreendedor, inquieto e que nunca se furtou a enfrentar novos desafios. Deixa como legado uma valiosa contribuição ao país pelo exemplo de sua bem sucedida trajetória empresarial e os milhões de empregos que gerou ao longo da vida. Meus mais profundos sentimentos à família e aos amigos", afirmou. 

A Hyundai disse em nota que presta condolências à família, amigos e colaboradores do empresário, a quem classificou como "um dos mais relevantes e históricos parceiros de negócios da Hyundai, tendo sido importante agente para a introdução da marca no Brasil em 1999".

"A família Hyundai envia nossas mais sinceras condolências à família e aos colaboradores de Carlos Alberto de Oliveira Andrade. Como fundador da Caoa, nossa parceira de negócios no Brasil por mais de 20 anos, Dr. Carlos deixa um grande legado para a indústria automobilística brasileira. Sua liderança visionária contribuiu para a introdução da marca Hyundai no País e ainda continuava atuante em nossa presença local. Nossos sentimentos e orações estão com sua família”, afirmou Ken Ramirez, presidente da Hyundai Motor no Brasil e nas Américas Central e do Sul.

A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), entidade que representa as montadoras no Brasil, também se pronunciou sobre a morte de Andrade. "Dr. Carlos foi médico e um dos maiores empreendedores do país. A Anfavea envia seus pêsames para sua esposa, quatro filhos e para todos os funcionários das empresas do grupo Caoa", disse em nota. 

Marconi Perillo, ex-governador de Goiás e um dos articuladores para a instalação de uma das fábricas da Caoa no Estado, também ressaltou a trajetória do empresário. "Carlos Alberto desenvolveu o mais importante o mais moderno e equipado laboratório de testes de automóveis do Brasil. Nossa profunda solidariedade e apoio à família, esposa, filhos e a todos os colaboradores do grupo Caoa em Goiás e no Brasil", disse ele em mensagem publicada nas redes sociais. Em nota no Twitter, José Eliton, presidente do PSDB de Goiás, afirmou que "o empresário paraibano deixa um legado de empreendedor para Goiás, o Brasil e o mundo". / COLABORARAM CRISTIANE BARBIERI, CLEIDE SILVA, GIOVANNA WOLF E FILIPE SERRANO

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