Morre Francisco Gros, ex-BNDES, BC e Petrobrás

Economista, que ocupou a presidência de importantes instituições governamentais, morreu aos 67 anos, depois de lutar por um ano e dois meses contra um câncer

RIO, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2010 | 00h00

FRANCISCO GROS 1943 - 2010

Depois de lutar por mais de um ano contra um câncer, o economista Francisco Gros morreu ontem, aos 67 anos, no Hospital Sírio-Libanês. Formado pela Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, iniciou sua carreira profissional em Wall Street, num banco de investimentos, aos 29 anos. A formação no mercado financeiro o acompanhou por toda a vida.

No Brasil, ocupou postos de destaque nas principais instituições governamentais, como a presidência do Banco Central, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Petrobrás. Também na iniciativa privada presidiu companhias do porte da Aracruz, Fosfértil e OGX. Mas foi a visão de mercado, delineada desde os primeiros tempos da Multiplic, corretora que dirigiu em 1975, até a representação no Brasil do Morgan Stanley (1993 a 2000), que marcou definitivamente sua carreira.

Tranquilo, reservado e bem-humorado, Francisco Roberto André Gros transitava com desenvoltura nas diversas instâncias de poder. Mesmo que não desfrutasse de consenso para suas ideias, focadas no conceito de redução do Estado na economia, ele defendia com elegância seu ponto de vista. "Gros foi um homem íntegro e competente, que teve êxito na atividade privada e, quando serviu ao governo, agiu com responsabilidade pública. Além da perda para o País, eu perdi um amigo", disse o sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

No último ano do governo Fernando Henrique, Gros, que presidia a Petrobrás, protagonizou um bate-boca público com o então candidato à Presidência Luiz Inácio Lula da Silva, que inaugurou a campanha eleitoral na TV cobrando explicações à Petrobrás pela encomenda de plataformas de petróleo no exterior. Na época, a companhia estava prestes a iniciar a licitação de três embarcações de grande porte e não via possibilidades de serem construídas no Brasil.

"A Petrobrás parece ignorar o que é ser uma empresa brasileira", disse Lula, no programa filmado no estaleiro Verolme, que estava fechado na época. Gros se manifestou de imediato, reforçando que o Brasil não tinha capacidade para absorver a encomenda e que as declarações de Lula mostravam "completo desconhecimento" sobre o assunto.

As eleições de 2002 renderam a Gros críticas também do então candidato governista, José Serra. Naquele ano, o Brasil liberou os preços dos combustíveis e a Petrobrás passou a acompanhar as variações do mercado internacional, que atravessava período de alta. Os reajustes no mercado interno levou Serra a reclamar da política de preços da estatal, que prejudicava sua campanha.

Banco Central. Antes, na década de 90, Gros ocupava a presidência do Banco Central pela segunda vez - a primeira havia sido por três meses, em 1987, no governo José Sarney - no conturbado período que precedeu o impeachment de Fernando Collor. Ele ocupou o lugar de Ibrahim Eris e permaneceu um ano à frente do BC, de 1991 a 1992. "Vivíamos uma situação desconfortável e foi impressionante a serenidade com que ele conduziu todo o processo. Passei a ser um admirador do Gros", lembra Gustavo Loyola, que era diretor do banco e substituiu Gros em 1992, pouco antes da renúncia de Collor e da efetivação do impeachment.

No BC, ele implantou o regime colegiado, delegando poderes aos diretores. Mais tarde, no primeiro governo Fernando Henrique, quando assumiu a presidência do BNDES, entre 2000 e 2002, marcou sua gestão pelo modelo produto-cliente, dando ênfase à atuação do banco no mercado de capitais.

Ao saber da morte do economista, o atual presidente do BNDES, Luciano Coutinho, lamentou: "É com profundo pesar que recebo a notícia do falecimento de Francisco Gros, que conheci através do saudoso ministro Dílson Funaro e a quem aprendi a admirar como pessoa e como profissional".

Em 2007, Gros aceitou o convite do empresário Eike Batista para assumir a presidência da OGX, a incipiente empresa de petróleo e gás do grupo. Ficou até 2008, quando decidiu se afastar das funções executivas para dedicar-se às representações em conselhos de administração de diversas empresas. Acertou com Eike que permaneceria apenas no conselho. "Ele foi um importante colaborador do nosso grupo. Mais que isso, foi um ser humano exemplar e, especialmente, um brasileiro que trabalhou a serviço do desenvolvimento do seu País", disse Eike.

Em Nova York, o presidente da Petrobrás, José Sérgio Gabrielli, manifestou o pesar pela morte de Gros. "É uma pena muito grande. Lamentamos e levamos nosso pesar a seus familiares. Gros foi um presidente muito importante para a companhia e vamos prestar as homenagens que pudermos prestar."

Gros continuou trabalhando no escritório de sua casa mesmo durante o tratamento. Nos últimos 15 dias, esteve internado, muito debilitado. O corpo do economista será cremado hoje, no Memorial do Carmo, no Rio. / COLABOROU LUCIANA XAVIER

GROS TEVE INTENSA VIDA PÚBLICA

1991-1992

Presidiu o BC no tumultuado período pré-impeachment

2000-2002

Presidiu o BNDES, com o modelo de gestão produto-cliente

2002-2003

Na Petrobrás, enfrentou-se com Lula na campanha

2007-2008

Aceitou integrar a equipe de Eike Batista na OGX

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