Morre no Rio empresário Gouvêa Vieira

O brasileiro que sempre teve orgulho de ser um comprador de multinacionais aposentou a caneta. João Pedro Gouvêa Vieira, que completou 91 anos no dia 17 de fevereiro faleceu ontem e seu corpo foi cremado hoje, em cerimônia no Cemitério do Caju, no Rio de Janeiro. O sorriso com que Gouvêa Vieira assinou, com uma modesta caneta Bic, o ato de compra da Atlantic, a subsidiária brasileira da poderosa norte-americana ARO, em 1993, elevando o grupo à segunda posição no mercado de distribuição de combustíveis, cedeu nos últimos anos da sua vida, segundo amigos próximos, a um olhar de indisfarçável tristeza. O patriarca dos Gouvêa Vieira, pai de sete filhos - seis homens e uma mulher, entre os quais o presidente da Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan), Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira, não gostou da idéia de vender o controle do grupo Ipiranga, que, com sócios como as famílias Tellechea, Ormanzabal e Martins Bastos, levou décadas para erguer. O início Em 1939, quando o advogado João Pedro Gouvêa Vieira foi convocado por investidores argentinos para defendê-los de uma decisão do governo de Getúlio Vargas, ele não imaginava que naquele momento a sua vida mudaria de rumo. Vargas, o homem que chegou ao Palácio das Águias, no Rio, como era conhecido o Catete, sede da Presidência da República, com o Estado Novo, deu prazo para que os investidores estrangeiros, donos da refinaria no Rio Grande do Sul, vendessem suas posições a brasileiros. Gouvêa Vieira brigou nos tribunais, mas só conseguiu que o prazo dado por Vargas, de 60 dias, fosse prorrogado por mais 60 dias. Os argentinos que beneficiavam o petróleo decidiram, então, entregar parte das ações como honorários advocatícios a Gouvêa Vieira, e o restante a ser pago em comum acordo. Ele buscou sócios e foi beneficado por novo golpe de sorte. A guerra eclodiu na Europa e ficou difícil importar combustíveis. A refinaria, em Uruguaina, que beneficiava petróleo vindo da Argentina, ganhou fôlego. Capitalizou-se e abriu espaço para que o empresário, em 1959, comprasse toda a rede de postos da multinacional Gulf Oil. "Essa foi a primeira multinacional que comprei, o que me deu muita alegria", disse o empresário 34 anos depois, no dia em que assinou a compra da Atlantic, na sede da Ipiranga, no bairro do Maracanã, no Rio. Outras atividades Advogado que nunca abandonou a profissão, Gouvêa Vieira, viria também intermediar uma outra aquisição. Em 1946, negociou com Gastão Vidigal a compra de uma instituição financeira para o Crédit Lyonnais que deu origem ao Banco Francês Brasileiro. A fama de bom advogado o conduziu à política. Foi suplente do senador petebista Vasconcellos Torres, do Estado do Rio, entre 1962/70, conselheiro do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e consultor jurídico do Ministério da Aeronáutica, onde atuou ao lado do brigadeiro Eduardo Gomes. O patriarca dos Gouvêa Vieira nunca escondeu, porém, suas decepções com a vida pública. E sempre reafirma a amigos que se aprendeu nessa área foi pouco, e que ela só trouxe decepções. Risonho, bom papo, o empresário só não gostava de aparecer. Evitava entrevistas, mas quando decidia falar reconstituía, com riqueza de detalhes, uma parte da história empresarial do País. Foi assim quando assinou o contrato de compra da Atlantic. "Olha, paguei e assinei o contrato com uma caneta Bic", disse mostrando o objeto e completando: "Eu gosto de comprar multinacionais". E brincou: "Se a Texaco estiver à venda, eu compro também". Risonho como nunca, ele falou de planos de crescimento. O que Gouvêa Vieira não poderia prever naqueles idos de 1993 é que o mercado passaria por uma forte abertura em 1999, quando novas distribuidoras e consumidores mais preocupados com preço deixaram de lado a fidelidade a marcas, fossem elas de produtos ou serviços. A fidelidade à imagem de tradição e seriedade que o patriarca dos Gouvêa Vieira sempre ordenou que fosse a marca dos postos Ipiranga. A marca ainda hoje é forte. E disputada. Mas o homem que melhor a incorporava partiu.

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