Imagem Pedro Doria
Colunista
Pedro Doria
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Morte dentro do carro robô

A pergunta é inevitável: carros sem motorista são seguros?

Pedro Doria, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2016 | 05h00

No último 7 de maio, o Tesla Modelo S dirigido por Joshua Brown, um empresário e ex-Seal – a elite dos fuzileiros navais americanos – chocou-se contra um trailer branco numa estrada da Flórida. Brown morreu instantaneamente. No início desta semana, quando o engenheiro Luo Zhen viu seu carro raspar de lateral com outro numa rodovia de Beijing, a segurança do Tesla Modelo S voltou a ser questionada. Porque Luo, assim como Brown, dirigiam só por modo de dizer. Seus automóveis estavam em piloto automático. A pergunta é inevitável: carros autômatos são seguros?

Segundo a Tesla, os números dizem muito. Modelos S já rodaram em piloto automático mais de 225 milhões de quilômetros. O computador de bordo registra o uso da função e o cataloga, por isso a fabricante tem os dados precisos. Houve um único acidente grave com vítima fatal. Só nos EUA, mais de cem pessoas morrem em acidentes de carro por dia. No frigir dos ovos, o Modelo S é um carro extremamente seguro.

Números não bastam. Mas a Tesla tem outro argumento: o Modelo S não é um carro autômato. O piloto automático não dispensa a atenção do motorista. E aí está o cerne da polêmica dentro da indústria automobilística.

O autopilot da Tesla é como uma versão turbinada do cruise control que já existe em inúmeros veículos de ponta. O que o cruise control faz é, quando ligado em uma estrada, manter constante a velocidade do carro. O piloto automático vai além em dois níveis. No primeiro, sofistica um tanto. Com os sensores de frente e de trás, além dos laterais, acompanha o tráfego para acelerar e desacelerar sempre que necessário e dentro do limite permitido. No nível máximo de automação, o computador de bordo assume o volante. Pode mudar de faixa e, numa estrada bem demarcada, mantém-se no centro como um motorista responsável.

No acidente fatal de Brown, o trailer branco entrou de repente a sua frente. Além disso, era um dia muito claro e a estrada refletia o sol. Entre o brilho do asfalto e o branco do trailer, os sensores não viram diferença, não perceberam o objeto sólido pronto para o impacto a 110 km/h. O motorista, confiante no piloto automático, assistia a um filme. Não houve freio ou tentativa de desvio, só o choque repentino e a morte. Algo semelhante ocorreu no acidente de Luo. Ele também não tinha as mãos no volante, estava distraído.

O piloto automático torna o carro mais seguro. Dirigir em estradas pode ser muito monótono, dá sonolência. Na rua, com o constante anda e para, pode ser estressante. O carro assume o ônus, o motorista só intervém quando é necessário.

John Krafcik, o executivo no comando do projeto de automóveis autômatos do Google, acha que o erro está aí. Um carro semiautômato não será seguro. Pelo simples motivo de que essa atenção constante é humanamente impossível. No momento em que o veículo assume quase todas as funções, o motorista vai se distrair. No início, talvez fique ligado. Mas dê alguns meses de uso, alguns quilômetros rodados, e a confiança surgirá. Logo uma paisagem vai distrair ou uma mensagem de texto que exige resposta imediata saltará à tela. Os incidentes que exigem atenção são sempre repentinos. Um estalo de dedos e pronto. Ou reagiu, ou não.

Elon Musk, principal acionista da Tesla, insiste que o piloto automático torna a direção muito mais segura. E, ao menos por enquanto, as estatísticas parecem confirmar o que ele diz. A crise de imagem, no entanto, é real.

E talvez o problema esteja no nome. Piloto automático. Sugere, literalmente, que o carro tem plena condição de assumir o comando. Só que isso ele não pode fazer. Ao menos, não ainda.

Tudo o que sabemos sobre:
FlóridaTeslaGoogle

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.