Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Morte e transfiguração

Os lucros mais que triplicaram de 1980 e 2013, mas era de ouro da corporação ocidental talvez esteja chegando ao fim

The Economist

23 Setembro 2015 | 08h39

Edward Gibbon, o grande historiador inglês, começa seu Declínio e Queda com um retrato, em tom panegírico, do Império Romano no período de Augustus. O Império “abarcava a maior parte da Terra”. “A fama antiga e a bravura disciplinada”, mantinham à distância os inimigos de Roma. Os cidadãos “usufruíam e abusavam dos benefícios da riqueza e do luxo”. Infelizmente, porém, esse afortunado estado de coisas não haveria de perdurar: o Império continha, em si, as sementes de sua própria ruína. Da celebração dos triunfos, Gibbon logo passa à crônica dos desastres.

É possível que a história da corporação ocidental venha um dia a ser escrita em termos semelhantes. Os impérios corporativos da atualidade alcançam todos os cantos do planeta. Enfrentam seus adversários com legiões de administradores muito bem treinados.

Mantêm os políticos sob controle com promessas de um investimento aqui e um emprego como consultor acolá. Os maiores dentre eles dispõem de recursos em quantidades raras vezes vistas - a Apple, por exemplo, está sentada sobre uma montanha de mais de US$ 200 bilhões - e garantem a seus principais executivos e investidores um nível de “riqueza e luxo” que deixaria impressionado o mais cínico dos romanos.

Um novo estudo do McKinsey Global Institute (MGI) apresenta estatísticas indispensáveis para qualquer Gibbon do futuro, calculadas a partir de dados referentes a quase 30 mil empresas do mundo todo. Os lucros corporativos mais que triplicaram entre 1980 e 2013, passando de 7,6% para 10% do PIB - sendo que mais de dois terços disso foram abocanhados por companhias ocidentais. O lucro após impostos das empresas americanas está em seu nível mais elevado, como proporção do PIB, desde 1929.

No entanto, assim como Gibbon, os analistas do MGI não perdem tempo em identificar os germes do declínio. A era de ouro da corporação ocidental, argumentam eles, foi o produto de dois fenômenos benignos: a globalização dos mercados e seu subproduto, a redução de custos. De 1980 para cá, 1,2 bilhão de pessoas ingressaram na força de trabalho mundial, a maior parte delas em economias emergentes. No mesmo período, a carga tributária do setor privado entre os países em sua maioria, ricos que fazem parte da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) encolheu 50%. E o grosso das commodities perdeu valor em termos reais.

Tem início agora uma era mais difícil. O número de multinacionais em operação dobrou em relação a 1990. As margens se estreitaram e os lucros exibem volatilidade cada vez maior. Entre as empresas da América do Norte, o retorno sobre o capital apresenta atualmente variância média mais de 60% superior à registrada entre 1965 e 1980. O MGI prevê que em dez anos os lucros corporativos cairão de 10% para cerca de 8% do PIB mundial.

Duas coisas em particular abalam o confortável mundo das velhas multinacionais imperiais. A primeira é a ascensão de concorrentes oriundas de mercados emergentes, que entre 1980 e 2000 representavam 5% das empresas incluídas na lista Fortune 500 e hoje chegam a 26%. Nessa expansão global, as multinacionais de nações emergentes seguem os passos de suas predecessoras japonesas e sul-coreanas. Na década passada, o porcentual das receitas geradas no exterior pelas 50 maiores companhias com sede em países emergentes dobrou, chegando a 40% do total de seu faturamento. E, uma vez que as perspectivas para a maioria das economias emergentes não são mais tão positivas como eram há alguns anos, as dificuldades no cenário interno podem levar essas multinacionais ascendentes a embarcar num esforço de globalização ainda mais intenso.

O segundo fator de desestabilização é o crescimento das empresas de alta tecnologia, tanto no Ocidente, como no Oriente. Essas companhias conquistaram, num piscar de olhos, quantidade monstruosa de consumidores. O Facebook diz que seus usuários se equiparam, em número, à população chinesa: 1,4 bilhão. Os titãs da tecnologia podem usar seus centros de processamento de big data para rapidamente colonizar territórios até então dominados por outras empresas. É o que estão fazendo no segmento de serviços financeiros as gigantes do comércio eletrônico chinês Alibaba, Tencent e JD.com. E elas podem oferecer plataformas de lançamento de baixo custo para empresas menores que queiram competir no mercado global.

Os analistas do MGI não se detêm neste aspecto, mas o fato é que o ambiente político também está se tornando mais hostil. À esquerda e à direita, políticos populistas vociferam contra a ganância corporativa. Nos Estados Unidos, os pré-candidatos à presidência Bernie Sanders, do Partido Democrata, e Donald Trump, do Partido Republicano, criticam empresas que exploram falhas na legislação para pagar menos impostos. Até políticos mais moderados começam a rezar pela cartilha anticorporativa. Em 2014, Angela Merkel patrocinou a adoção do salário mínimo na Alemanha; e, na Grã-Bretanha, David Cameron aprovou a introdução gradual, entre 2016 e 2020, do “living wage”, um patamar mínimo de remuneração salarial, calculado com base no custo de vida de cada região do país. As empresas talvez passem a ser pressionadas a oferecer mais “compensações” à sociedade como um todo.

O que as companhias ocidentais podem fazer para lidar com as ameaças a seu reinado? A recomendação do MGI é que elas centrem esforços na área em que ainda dispõem de uma vantagem comparativa: o domínio das ideias. Em setores que fazem uso intensivo de trabalho - e capital -, muitas empresas foram trucidadas por concorrentes estrangeiras, ao passo que, onde há uso intensivo de ideias - característica presente não apenas em segmentos óbvios, como os de mídia, finanças e medicamentos, mas também em áreas como as de logística e automóveis de luxo -, as companhias continuam a florescer. O que o MGI chama de “setor das ideias” é responsável atualmente por 31% dos lucros gerados por empresas ocidentais, frente a 17% em 1999.

Redenção capitalista. É possível que declínio relativo da corporação ocidental também leve a um reexame de antigas suposições sobre o que garante o sucesso de um negócio. As companhias de capital aberto talvez percam espaço para outros tipos de empresa: nos Estados Unidos, o número de empresas com ações listadas em bolsa caiu de 8.025, em 1996, para cerca de metade disso atualmente. É possível que o culto aos dividendos trimestrais venha a perder ainda mais adeptos. 

Entre as novas campeãs corporativas, são muitas as controladas por fundadores poderosos, que se dispõem a abrir mão de resultados no curto prazo, a fim de construir um negócio mais duradouro, como Mark Zuckerberg, no Facebook, os Mahindra e outras famílias indianas perseverantes, e também alguns fundos de private equity. Em sua obra, Gibbon narra uma história de declínio e queda, em que a civilização clássica dá lugar à barbárie e à autocomplacência. Com alguma sorte, a história do declínio relativo da corporação ocidental será também a história da reinvenção do capitalismo, em que surgirão novos tipos de empresa para capturar oportunidades até agora exploradas pelas velhas corporações.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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