Gabriela Biló/Estadão
Aumento das discussões sobre práticas socioambientais no País promete impulsionar criação de fundos verdes. Gabriela Biló/Estadão

Motivadas por demanda global, gestoras brasileiras apostam em 'fundos verdes'

Com a maior procura por investimentos em projetos sustentáveis no exterior, administradoras de recursos estão criando produtos voltados para o tema; no País, há apenas três gestoras dedicadas à área

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2020 | 05h00

Gestoras de grandes fortunas brasileiras estão ampliando a oferta de fundos voltados à sustentabilidade. Impulsionadas pela maior demanda no mercado global por investimentos em “causas verdes”, administradoras de recursos estão migrando suas carteiras de negócios e estruturando novos produtos direcionados pelos critérios ambiental, social e de governança (ESG, na sigla em inglês). Com cerca de R$ 30 bilhões sob gestão em fundos verdes, o Brasil ainda engatinha se comparado ao mercado global, que administra quase US$ 1 trilhão em fundos sustentáveis.

Com os recursos concentrados nas mãos de apenas três gestoras exclusivamente verdes no País (Fama, JGP e Constellation, todas de pequeno e médio portes), grandes instituições financeiras começaram se estruturar, sobretudo por meio de parcerias, para também gerir fundos de recursos associados a projetos ambientais. Entre as grandes casas, estão o BTG Pactual e a XP.

A corretora fundada por Guilherme Benchimol está lançando “um fundo de fundos” de R$ 100 milhões para estimular gestoras locais a administrar recursos em empresas e em títulos de dívidas verdes. “Queremos atuar como um banco de fomento para desenvolver o mercado de gestoras que seguem critérios ESG”, diz Gustavo Pires, sócio da XP.

A expectativa é de que mais gestoras e instituições financeiras engrossem esse movimento, já nos próximos meses, na medida em que as discussões sobre práticas socioambientais ganhem mais musculatura no Brasil, afirmam gestores e bancos. 

Na semana passada, o Santander afirmou que sua gestora de recursos está lançando um fundo ESG, em parceria com a casa de investimentos holandesa Robeco, conhecida por ser ativista em projetos socioambientais. A gestora, que foi uma das casas que cobraram ações concretas do governo sobre desmatamento na Amazônia, tirou a mineradora Vale de seu portfólio.

Pioneira

Com R$ 2,5 bilhões sob gestão, a Fama é a única das casas de investimento que nasceu 100% com projetos sustentáveis. Fundada em 1993, investe em cerca de 15 empresas listadas na B3, bolsa paulista. “Todas as empresas alvo de investimento seguem propósitos socioambientais”, diz Fabio Alperowitch, um dos fundadores. 

“A chegada do debate ambiental é importante e ainda bem que está acontecendo. Esperei 30 anos por isso. Vejo ainda que gestores e empresas ainda tratam o assunto com superficialidade”, afirma Alperowitch. Empresas como Vale e Petrobrás estão fora do portfólio de investimento da gestora.

Na JGP, que foi fundada pelos ex-sócios do BTG Pactual André Jakurski e o atual ministro da Economia, Paulo Guedes, no fim dos anos 1990, a transição para fundos verdes começou no início do ano passado, após a tragédia ambiental da Vale, em Brumadinho (MG). A gestora, que estava bem posicionada em ações na mineradora brasileira, recebeu pedido de um cliente – o family office SKP, que administra fortuna de famílias alemãs, para migrar os investimentos para os critérios ESG.

Com mais de R$ 20 bilhões de ativos sob gestão, a JGP anunciou em abril sua migração total para os critérios ESG e lançou em junho um fundo totalmente dedicado a projetos verdes. 

Mas, ao contrário da Fama, que não investe em empresas como a Vale e Petrobrás, a JGP mantém essas empresas em seu portfólio porque acredita que os acionistas têm mais poder para cobrar posturas de seus controladores. “Esse é nosso papel como acionistas de empresas. Temos de provocar o movimento e cobrar”, afirma Márcio Correia, sócio responsável pela área de renda variável da gestora.

Na gestora Costellation, que tem entre seus investidores o bilionário Jorge Paulo Lemann (dono da AmBev e da Kraft Heinz), a força do acionista também pode influenciar nas decisões das empresas que receberam o investimento. Com R$ 14 bilhões em ativos, a casa de investimentos está no conselho de administração da B3, bolsa paulista, diz o sócio Florian Bartunek. 

“As empresas já fazem mais do que a gente imagina. Quando a gente começou a engajar para critérios ESG, ficamos surpresos”, afirma o gestor. Segundo ele, outra preocupação do mercado em investir em fundos com esses critérios é a performance do investimento. “Muitos acham os fundos com esses critérios ESG têm uma performance menor, mas não é assim”, diz Bartunek. “As maiores empresas listadas na Bolsa seguem critérios socioambientais e de governança. A Natura é referência no País em sustentabilidade, mas muitas empresas brasileiras estão seguindo os passos.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

XP Investimentos quer incentivar o desenvolvimento sustentável no País

Corretora vai liberar R$ 100 milhões para que gestoras parceiras apliquem recursos em projetos socioambientais e de governança

Mônica Scaramuzzo, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2020 | 05h00

A XP Investimentos quer se tornar referência de investimentos verdes. A corretora está lançando esta semana um fundo para fomentar gestoras parceiras a aplicar recursos em critérios destinados a projetos socioambientais e de governança (ESG, na sigla em inglês).

De acordo com Gustavo Pires, diretor de produtos da corretora, a XP quer ser uma instituição de fomento para incentivar que as gestores integrem temas sustentáveis no seu processo de gestão. “Vamos liberar R$ 100 milhões de recursos próprios, de nossa tesouraria, para que sirvam de capital semente para que outras casas de investimentos desenvolverem estratégia ESG no Brasil.”

Segundo Pires, em vez de esperar esse mercado se desenvolver, a XP quer incentivar gestoras a adotar essas práticas. A corretora também quer incentivar as empresas emitirem “green bonds” (títulos de dívida verde) e fundos imobiliários em projetos de empreendimentos imobiliários. “Hoje temos apenas três gestoras dedicadas a esse tema.”

Em junho, a XP já tinha lançado um fundo que investe em ações de empresas sustentáveis fora do Brasil. “É preciso criar uma grande base aqui no Brasil e dar mais opções aos investidores”, afirmou.

O BTG Pactual também está estruturando sua gestora de recursos para investir com base em critérios ESG. O banco de André Esteves tem mais de R$ 150 bilhões sob gestão atualmente. Procurado, o BTG não quis comentar o assunto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Executivos vão atrás de Rodrigo Maia para destravar pauta ambiental no Brasil

Setor privado quer que governo e Congresso priorizem projetos de desenvolvimento sustentável para o País

Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2020 | 05h00

RIO - Após se reunir com o vice-presidente da República, Hamilton Mourão, há cerca de duas semanas, um grupo de executivos do setor privado vai recorrer agora ao presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), para pressionar por uma pauta de desenvolvimento sustentável e contra o desmatamento da Amazônia. O encontro virtual está marcado para hoje, às 9h30.

Os sete executivos confirmados para a reunião fazem parte do movimento de líderes do setor empresarial brasileiro, ligado ao Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds).  

São representantes de grandes companhias, com peso relevante na economia: Domingo Lastra (presidente da ADM); Horácio Lafer Piva (conselheiro da Klabin); Leila Melo (diretora do Banco Itaú); Marcos Matias (presidente da Schneider); Otávio Carvalheira (presidente da Alcoa); Patrícia Audi (vice-presidente do Banco Santander); e Tânia Cosentino (CEO da Microsoft).

Do lado das associações estarão a presidente do Cebds, Marina Grossi, e os presidentes do Instituto Brasileiro de Árvores (Ibá), Paulo Hartung, e da Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Marcello Brito. Na pauta de reivindicações estará o aperfeiçoamento da legislação de regularização fundiária e a proposta de criação de um mercado de carbono no Brasil.

Ao vice-presidente Mourão, que preside o Conselho Nacional da Amazônia Legal, eles pediram, no último dia 10, o fortalecimento das ações de combate ao desmatamento na Amazônia e em outros biomas. Pediram também para participar da implementação de políticas que induzam a uma retomada verde da economia, para um cenário de baixo carbono. E destacaram que o desmatamento ilegal prejudica os negócios e a imagem do Brasil no exterior.

“A principal fala dos empresários é que o desmatamento não deve ser mais tolerado. Foi falado muito dos investimentos que a gente pode estar trazendo. Todos frisaram a questão do desmatamento. Por isso acho importante Mourão ter assumido 100% do compromisso contra o desmatamento”, disse Marina Grossi na coletiva de imprensa após a reunião com o vice-presidente da República, no último dia 10.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.