Motivo para nível de juros brasileiros divide estudiosos

País continua no topo do ranking dos países com maiores taxas de juros reais.

Fabrícia Peixoto, BBC

30 Outubro 2008 | 06h30

O Banco Central do Brasil decidiu manter inalterada a taxa de juros em 13,75%. Mas, apesar da interrupção nas altas que vinham desde abril, o Brasil segue nas primeiras posições do ranking de países com as maiores taxas de juros reais do mundo, com 8%, levando-se em conta a expectativa de inflação de 5,29% para os próximos 12 meses, como foi apontado pelo relatório Focus, divulgado pelo BC na segunda-feira.Segundo economistas, não existe consenso - nem no mercado e tampouco no mundo acadêmico - sobre os motivos para uma taxa de juros tão alta.Ainda que a taxa brasileira tenha caído nos últimos dois anos - chegou a 45% em 1999 -, o patamar dos juros no Brasil ainda é muito elevado quando comparado com outros países, sejam eles ricos ou emergentes. A principal explicação, em tese, está na política de metas de inflação. Ou seja, para colocar a inflação na meta, atualmente 4,5%, o Banco Central precisa de uma taxa de juros elevada.Os juros são o principal instrumento para controle da inflação. Ou seja, os governos precisam aumentar os juros quando a economia está superaquecida.No entanto, outros países que possuem inflação superior à do Brasil não têm juros tão elevados quanto os nossos.Incerteza jurisdicionalO professor da PUC-Rio, Márcio Garcia, diz que a inflação não é o único motivo para juros tão altos. O economista está pesquisando as razões dos juros elevados no Brasil. Ele e seu colega no MIT (Massachusetts Institute of Technology), Roberto Rigobon, já levantaram oito possíveis explicações até o momento. Os resultados serão divulgados em um artigo acadêmico, previsto para janeiro do ano que vem.Uma das explicações, segundo Garcia, é a chamada "incerteza jurisdicional", ou seja, a falta de um ambiente seguro no que diz respeito à Justiça e ao direito privado levaria o país a compensar esse risco com juros mais altos.Outra explicação é de que o crédito no Brasil ainda é baixo em relação ao PIB (cerca de 35%). Com isso, o aumento dos juros teria pouco impacto sobre o consumo, exigindo do BC uma dose mais alta de juros para conseguir frear a demanda.No entanto, uma das razões mais citadas por economistas está no tamanho da dívida brasileira em relação ao PIB. Nesse caso, o culpado pelos juros altos seria o próprio governo, que gasta demais.Essa é a opinião, por exemplo, da economista Eliana Cardoso, da Fundação Getúlio Vargas (SP)."É a única explicação que encontro", diz. A tese é de que o governo gasta demais e aumenta seu risco de calote. Para compensar, precisa oferecer juros atraentes ao investidor.MistérioJá o professor Fernando Carlos Cerqueira, da UFRJ, diz que a relação da dívida com os juros não é tão clara. Ele diz, por exemplo, que quando Fernando Henrique Cardoso assumiu a Presidência, a dívida pública era praticamente a metade da de hoje."Nem por isso tínhamos juros baixos", diz.Segundo Cerqueira, o Brasil tem juros elevados desde o século 19 e que não se deve descartar aspectos sociais e políticos para explicar esse fato."O Brasil é, tradicionalmente, um país com uma forte elite que vive de renda", diz o professor. Ele diz, porém, que não conhece nenhum estudo aprofundado sobre as causas dos juros altos no país.O especialista em política monetária da Universidade da Califórnia, Berry Eichengreen, diz que existem "muitas teorias" que poderiam explicar o patamar elevado dos juros no Brasil."A verdadeira explicação, porém, continua sendo um mistério", diz.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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