David Kasnic/The New York Times
David Kasnic/The New York Times

Motocicletas com uma roda no futuro e outra no passado

Nos EUA, motos produzidas na cidade de Goshen têm motor chinês e insumos fabricados pela comunidade amish da região

Mark Gardiner e David Kasnic, The New York Times

27 de maio de 2019 | 18h51

O centro de Goshen, no Estado americano de Indiana, parece o mesmo de quando motocicletas das marcas Merkel, Thor ou Henderson começavam a assustar os cavalos nas ruas.

Com uma forte presença amish na comunidade, hoje motos construídas localmente fazem mais do que simplesmente compartilhar as ruas com cavalos e carroças. Muitos dos principais componentes dessas motos, incluindo chassi, paralama e tanque, são manufaturados e pintados por artesãos amishs.

As motos modelo Alcyon de quadro rígido da Janus Motorcycles, montadas numa antiga lavanderia a seco perto da Main Street, lembram modelos construídos décadas atrás.  

Quase todos os dias, Cameron Gruntman, o piloto oficial de testes da Janus, leva uma ou duas das recém-montadas motos para um teste final, antes de despachá-las para clientes de todo o país. Visitantes olham as motocicletas e ficam imaginando quanto recuaram no tempo.  

A Janus nasceu da amizade entre Richard Worsham, um entusiasta de motonetas, estudante de Arquitetura em Notre Dame, e Devin Biek, que tinha uma loja de motonetas em Elkhart, a alguns quilômetros da universidade. Num verão, Worsham optou por trabalhar na loja em vez de tentar um estágio em arquitetura na recessão pós-2008.

“Eu me formei em 2011”, recorda Worsham, "e me pergunto se alguém de minha turma conseguiu emprego em arquitetura”. Enquanto isso, Biek estava transformando a loja de motonetas num bem-sucedido negócio de fabricação de peças e acessórios, e pensando em seu próximo desafio.

Os dois decidiram começar uma fábrica de motocicletas – apesar de o mercado americano de motos estar na época no mínimo pior que o de arquitetura e construção. Eles deram à indústria o nome Janus, em homenagem ao deus romano de dois rostos que olha, simultaneamente, para o futuro e para o passado.

Worsham desenhou o primeiro modelo da Janus, chamado Halcyon. Era inspirado nas motos que corriam em pistas ovais de madeira nos anos 1900 e tinha motor de motoneta de 50 cc. Biek construiu a mão o primeiro protótipo, em 2011. “Muita gente produz motos costumizadas para parecerem exclusivas”, disse Worsham. “Devin e eu sempre quisemos fazer algo que parecesse vindo de uma fábrica.”

Há uma enorme distância entre administrar uma loja de motonetas costumizadas – que, com motor de 50 cc, ficam no limite da regulamentação – e começar uma real, embora pequena, fábrica de motocicletas.

Com a ajuda de uns poucos investidores locais (que também se tornaram orientadores comerciais), Worsham e Biek requisitaram na Sociedade de Engenheiros Automotores um número oficial de identificação de sete dígitos que atendia às regulamentações do Departamento de Transportes e da Administração de Segurança de Trânsito nas Estradas.

Oficializar significava adotar um motor de quatro tempos que fosse certificado pela Agência de Proteção Ambiental e – ainda mais difícil – atendesse aos padrões  do Escritório de Clima e Qualidade do Ar da Califórnia. Eles escolheram um motor de 229 cc de um pistão usado num antigo modelo da Honda e construído na China (desenhar e construir o próprio motor era impraticável, e nenhuma empresa americana tinha um que se ajustasse).

Com exceção do motor chinês, todo o restante da moto é fabricado num raio de 30 quiômetros de Goshen. Lembremos que a indústria de motos precisa de peças feitas por máquinas de precisão, soldagem a laser, corte de metal com jato d’água e pintura a pó. Os fornecedores de todos esses insumos são empresas operadas pela comunidade amish.

Amishs: os parceiros perfeitos da Janus

Os amishs chegaram à região no século 19. Eram originalmente fazendeiros, mas prezavam a autossuficiência e, por isso, tinham seus próprios ferreiros e construtores de carroças, tornando-se altamente eficientes nessas áreas. Hoje, muitas comunidades se afastaram da agricultura e passaram a operar pequenas indústrias.

“A maior parte dos componentes de nossas motos é feita por pessoas que não usam celular ou e-mail”, disse Worsham. Assim, ele desenha muitas peças e acessórios usando software, imprime o desenho e entrega-o aos fornecedores – em papel.

O pessoal da Janus não questiona os valores amishs porque esses artesãos são parceiros perfeitos. Muitos dos principais componentes usados pela Janus são produzidos pelos amishs a preços acessíveis e têm a vantagem da proximidade. Não é raro uma partida de chassis, tanques ou paralamas ser entregue de carroça. Dirigir carros ainda não é tolerado pelos amishs – aliás, nem motocicletas.   

A Janus tem nove funcionários de tempo integral e quatro de meio período. Não existe linha de montagem. Um técnico pega um chassi e vai acrescentando os principais componentes. A montagem leva umas poucas horas. A Junus espera vender 250 motos neste ano, com um faturamento de cerca de US$ 2 milhões. A produção pode subir para 500 unidades por ano.

Uma Janus custa a partir de US$ 6.995 (aproximadamente R$ 28 mil). O comprador faz um depósito de US$ 995 (R$ 4 mil) e a moto é entregue três meses depois.  O modelo mais próximo feito por uma grande fabricante é a Suzuki TU25X de estilo retrô, que sai por menos de US$ 5 mil (cerca de R$ 20 mil). A diferença de preço não assusta Worsham. “Por US$ 7 mil você tem uma motocicleta de luxo feita à mão”, diz ele. “Ela atinge 110 quilômetros por hora. Para que mais que isso no dia a dia?” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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