Celio Messias/Estadão
Garcia, da Thermoval, está reduzindo compras da China com produção local Celio Messias/Estadão

Sem peças do exterior, indústria busca aumentar produção local, mas esbarra em custos altos

Com escassez de itens e aumento de custos trazidos pela pandemia, setores industrias tentam se organizar para depender menos de importações, mas situação brasileira dificulta investimentos; há iniciativas individuais que estão prosperando

Cleide Silva, São Paulo

19 de setembro de 2021 | 05h00

A falta generalizada de produtos importados especialmente da Ásia desde o início da pandemia levou a indústria brasileira ao consenso da necessidade de nacionalizar parte dos itens que vêm de fora do País.

Porém, esse movimento, que resultaria em desenvolvimento de tecnologias locais e empregos, encontra dificuldades em se concretizar em razão do cenário de incertezas econômicas e políticas e principalmente pelo fato de que produzir no Brasil continua sendo mais caro do que em vários países.

A escassez de máscaras e respiradores na chegada do coronavírus ao Brasil, que depois se estendeu, entre outros, para semicondutores, insumos para a indústria química e peças para automóveis, se agravou ainda mais com o aumento dos preços desses itens e dos fretes, além da indisponibilidade de contêineres e de navios para entregas. O caso dos semicondutores é o mais visível diante dos anúncios de paradas de produção em várias montadoras.

Desde o ano passado, diversas entidades de classe criaram grupos envolvendo representantes das cadeias produtivas em que atuam e do governo para discutir a criação de políticas de nacionalização para produtos essenciais ao País. Há grupos de setores como automotivo, químico, calçados e da construção.

Ainda não há ações concretas, mas há algumas iniciativas individuais de empresas que tentam escapar da dependência de poucos fornecedores externos.

Entre elas está a Thermoval, fabricante de válvulas para as áreas agrícola, automotiva, de energia, saneamento, mineração e alimentos e bebidas, entre outras. O diretor-geral, Rodolfo Garcia, diz que o aumento do custo do frete e do tempo de entrega levou o grupo a desistir de importar peças da China.

“Antes o prazo máximo de entrega era de 90 dias e agora chega a 270 dias para alguns itens.” Garcia fez parceria com uma empresa brasileira para a produção de 20% de peças forjados, e ainda importa o restante. Em 2022, a empresa terá linha própria para o processo e fará 100% dos itens em Cravinhos (SP), onde está sua sede.

Brasil é pouco competitivo

“Houve um repique de substituição de produtos importados no fim de 2020 e início deste ano, mas não teve vida longa”, afirma Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV/Ibre.

“O Brasil é pouco competitivo para produzir qualquer coisa e me parece pouco provável, com a estrutura de riscos que temos, que se retome um processo sustentado de substituição de importações”, afirma Ribeiro.

Ele lembra que a indústria local vem há muito tempo num processo de redução de tamanho porque a produtividade no País é baixa, o custo de acessórios é alto, a carga de imposto é elevada e o sistema tributário é complexo. “É um País fechado, que agora vai sofrer choques importantes que vão diminuir sua capacidade de produção, como a questão hídrica.”

O economista da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Marcelo Azevedo, afirma que, apesar da reversão de expectativas de crescimento da economia, a intenção de investimento por parte generalizada da indústria segue alta desde o início da pandemia.

Parte disso, acredita ele, está relacionada à expectativa de internalização de produtos. Em 2019, o índice fechou em 58,1 pontos, subindo para 59,1 ao fim de 2019. Em agosto passado estava em 59 pontos. No momento, contudo, a CNI não consegue dizer se a expectativa de nacionalização está sendo concretizada.

“Há muitas coisas atrapalhando essa intenção, pois a pandemia está trazendo um monte de incertezas para investimentos, seja por conta do próprio cenário ou da questão do câmbio”, afirma Azevedo.

Outra barreira, ressalta o economista, é a incerteza política e o que isso causa, por exemplo, em relação a trâmites como o da reforma tributária. “Investimento financeiro é um comprometimento de muitos anos e não saber em que sistema tributário se vai operar é mais um problema para a tomada dessa decisão.”

 

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Empresas reduzem compras de insumos do exterior e defendem imposto menor para produzir no País

Prazos de entrega longos levam companhias a ampliar a produção no País, mas burocracia e impostos altos tiram a competitividade local

Cleide Silva, São Paulo

19 de setembro de 2021 | 05h00

Três anos após abrir uma unidade de usinagem de peças na Flórida (EUA), a fabricante de válvulas Thermoval decidiu, em março, fechar a filial, trazer os equipamentos para o Brasil e dar continuidade à operação na fábrica do grupo em Cravinhos (SP).

Quando instalou a célula produtiva nos EUA, o custo de produção era 30% inferior ao do Brasil. Hoje, está cerca de 40% acima, afirma Rodolfo Garcia, diretor-geral e fundador da Thermoval. O cálculo leva em conta a alta do dólar e dos salários dos empregados locais, assim como os custos com transporte das peças para o Brasil.

“Vamos comprar mais equipamentos aqui, gerar empregos e ainda assim enfrentamos uma burocracia para trazer as máquinas para cá, que só vão chegar em outubro”, diz o executivo.

No ano passado, quando respiradores estavam em falta no País logo após a chegada da pandemia, a Thermoval desenvolveu e produziu válvulas proporcionais (que aumentam ou diminuem a vazão de ar eletronicamente) para o equipamento fabricado por outras empresas.

A Leroy Merlin, rede varejista de materiais de construção com 45 lojas no País, tem 15% de seu faturamento, previsto em R$ 8 bilhões este ano, com produtos importados diretamente de diversos países ou por meio de seus fornecedores. A ideia é que essa fatia caia para 5% a 7% em quatro anos, diz Ignacio Sánchez, presidente do grupo.

Além de ter de lidar menos com atrasos de navios e com a inflação de preços provocada pelo falta global de produtos e matérias-primas, a localização de itens vendidos pela rede traz tecnologia e gera empregos no País, afirma Sánchez.

“O Brasil deveria aproveitar este momento para simplificar os impostos, favorecer os investimentos e produzir tudo o que for possível, de produtos têxteis até móveis de banheiro, de jardins e pisos laminados”, afirma o executivo. Ele defende incentivos para a nacionalização por meio de redução de impostos de máquinas e equipamentos para a produção.

Acordos feitos com fornecedores que importam produtos revendidos à rede levaram vários deles a produzir itens no País. Cerâmicas que vinham da Itália, Espanha, Turquia e China agora são 100% adquiridas localmente pela Leroy e a parcela de pisos laminados nacionais cresceu. 

Produção local desenvolve toda a cadeia produtiva

A pandemia também levou a Basf a intensificar seu programa de nacionalização, que já estava em andamento há vários anos. A vice-presidente de Care Chemicals para a América do Sul, Priscila Camara, afirma que 15 produtos foram nacionalizados desde março do ano passado com tecnologias trazidas da Alemanha e dos Estados Unidos.

 Um desses produtos é o espessante para a produção de álcool em gel. "Em 20 dias passamos a produzir centenas de toneladas do produto na fábrica de Guaratinguetá (SP) e pudemos abastecer o mercado nacional com o insumo que estava em falta no ano passado", diz ela.

Outro exemplo é o início de fabricação, na unidade de Jacareí (SP), de um aditivo para adjuvante para o mercado da agroindústria, que tem origem vegetal, em substituição ao de origem mineral. Segundo Priscila, oito meses depois do início da fabricação, no fim do ano passado, a empresa conseguiu a aprovação da matriz para duplicar a capacidade produtiva do produto.

"Com a produção local conseguimos vencer obstáculos que são comuns na importação de produtos químicos como a maior complexidade da logística, a pouca flexibilidade quanto aos volumes adquiridos e prazos menos previsíveis", afirma Priscila.

Outra vantagem, reforça ela, é que a produção local desenvolve toda a cadeia produtiva, promovendo seu adensamento, e traz inúmeros impactos positivos como investimos em inovação, compra de matéria-prima no Brasil e geração de empregos.

Há 29 anos operando apenas como importadora de óleos para motores e lubrificantes para veículos, a Motul, com escritório em São Paulo, passou a receber os produtos da matriz francesa com atrasos de 60 a 90 dias em razão da falta de insumos químicos para a produção e da indisponibilidade de contêineres e navios para o transporte.

O grupo decidiu então iniciar a fabricação de alguns itens, e começou com lubrificantes para motos de baixa cilindrada. Guillaume Pailleret, CEO da Motul Brasil, conta que nesta primeira etapa a opção foi por terceirizar a produção, mas a ideia é ter fábrica própria em dois anos e expandir a linha de produtos.

“Com a produção local economizamos apenas 10% em relação ao custo de importação, mas nosso objetivo era não ficar dependente do transporte internacional e poder atender nossos clientes”, diz Pailleret.

Às voltas com a falta de semicondutores que tem levado várias fábricas a suspenderem a produção, a indústria automobilística participa de um grupo coordenado pela Secretaria Especial de Produção Industrial e Comércio Exterior do Ministério da Economia - chamado de "made in Brasil" -, que tem também representantes do setor de autopeças e de entidades sindicais.

Henry Joseph Junior, diretor técnico da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), afirma que um dos candidatos à nacionalização é a transmissão automática. O item já está em mais da metade dos carros novos vendidos no País, mas não tem produção local. 

 Também está na mira do setor itens relativos à tecnologia embarcada, principalmente os de controle eletrônico. Segundo Joseph, o Brasil é fortemente dependente de importação desses componentes. 

Menos volatilidade cambial

No início do ano, a Bosch anunciou a transferência de uma linha de produção de sistemas injetores a diesel dos Estados Unidos para sua unidade de Curitiba (PR), onde mantém um centro de desenvolvimento de plataforma desses sistemas voltados à exportação. 

A NGK, fabricante de velas de ignição, teve o processo de nacionalização de velas especiais antecipado pela pandemia, que dificultou as importações. A peça é feita com materiais nobres e vinha da matriz japonesa, que continuará fornecendo insumos para a produção local. 

Segundo José Eduardo de Souza, chefe de assistência técnica no Brasil, uma das vantagens é reduzir a exposição do produto à volatilidade cambial.

 

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Brasil tem oportunidade de substituir China em exportações na região

Fabricantes de componentes para a indústria calçadista veem brecha para setor vender mais produtos aos países da América do Sul com prazos de entrega mais rápidos e custo menor de transporte

Cleide Silva, São Paulo

19 de setembro de 2021 | 05h00

Se houvesse um ambiente de negócios mais favorável no País, é possível que estivesse em andamento uma ação mais coordenada no setor de calçados para a nacionalização de insumos e matéria-prima, afirma Luiz Ribas Júnior, da Associação Brasileira de Empresas de Componentes para Calçados (Assintecal).

Ele avalia que isso ocorrerá se, em até dois anos, os preços do frete e a dificuldade de transporte se mantiverem nos níveis atuais. O valor médio para contratar um contêiner hoje, por exemplo, é de US$ 10 mil, quatro vezes mais em relação ao cobrado antes da pandemia. Se permanecer nesses patamares “haverá um processo de mobilização da indústria”, acredita Ribas.

Em sua opinião, porém, os custos devem baixar à medida em que os países forem vacinando suas populações e as restrições para desembarques de navios atracados nos portos reduzam, o que levará também a uma maior disponibilidade de contêineres. “Mas os preços não vão retornar aos níveis anteriores porque as companhias marítimas entenderam que havia espaço para subir o preço médio”, prevê  Ribas.

O setor de componentes para calçados, com 2,4 mil empresas concentradas principalmente em São Paulo (44%) e no Rio Grande do Sul (35%), importa basicamente insumos químicos como resinas de PVC, em sua maioria da China. O repasse de custos para o consumidor é inevitável. No momento, a Assintecal e outras associações discutem com o governo medidas como a redução de tarifas das importações.

Ribas vê no cenário atual uma oportunidade para o Brasil ampliar as exportações de componentes e de calçados para a América do Sul por questões de logística. O País concorre com a China no fornecimento à região, mas com o preço alto do frete e a demora nas entregas, as empresas brasileiras podem ser uma alternativa regional, pois o tempo de entrega será menor, assim como o custo do transporte.

Além disso, o setor trabalha com alternativas locais e sustentáveis ao insumo importado, como fibras da folha de abacaxi, poliamidas biodegradáveis e fios de garrafas pets reciclados.

Já ocorre, desde meados do ano passado, procura maior por produdos brasileiros. Até agosto, as exportações de componentes para calçados para sete países da região aumentaram 44% em relação a igual período de 2020, totalizando US$ 65,4 milhões. 

Desorganização do setor produtivo

Segundo o vice-presidente de Economia do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon-SP), Eduardo Zaidan, os poucos itens importados pelo setor, como esmalte para cerâmicas e dióxido de titânio para tintas, demoram mais a chegar, mas são de difícil nacionalização.

Ele cita a cerâmica, que pode levar de 90 a 120 dias para ser entregue, quando o normal seria 30 dias. Há dificuldades também com louças, metais sanitários, vidros e madeira. “E os preços subiram uma barbaridade, assim como o dólar.”

Zaidan diz que os atrasos na entrega estão ligados também à desorganização do setor produtivo local. Após quatro anos de crise (de 2017 a 2020), a indústria da construção viu seu Produto Interno Bruto (PIB) reduzir em um terço, impactando investimentos em capacidade produtiva.

Ele cita ainda a demora na reforma tributária. “Que empresário vai fazer altos investimentos sem saber quanto vai pagar de imposto quando maturar esse investimento?”

 

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