Mudança de comando na Volks

Saída do presidente do conselho Ferdinand Piëch não deve trazer grandes mudanças na montadora alemã

O Estado de S.Paulo

04 Maio 2015 | 02h03

Não está claro por que o presidente do conselho da Volkswagen, Ferdinand Piëch, não conseguiu tirar seu diretor executivo (CEO), Martin Winterkorn. A maioria dos observadores calcula que a dupla se desentendeu sobre a estratégia da VW, mas se surpreende que o voluntarioso Piëch, um membro da família que controla a montadora alemã, foi forçado a renunciar em 25 de abril em vez de expelir Winterkorn. O que é óbvio é que, em seus 22 anos como CEO da empresa e depois presidente do conselho, a obsessão de Piëch em torná-la a maior e melhor fabricante automotiva do mundo a deixou com fraquezas significativas em sua marca VW original e no mercado americano.

Tendo se livrado do diretor executivo do grupo, Bernd Pischetsrieder, em 2006, com uma combinação de menosprezo público e campanha por trás do pano, Piëch provavelmente achou que o mesmo truque funcionaria de novo.

Numa entrevista recente à revista alemã Der Spiegel, ele disse que estava "distante" de Winterkorn, mas outros membros do conselho consultivo do grupo apoiaram o CEO.

A derrota de Piëch deixa Winterkorn numa posição-chave para o suceder como presidente do conselho consultivo, um órgão poderoso que nomeia os executivos da montadora e aprova grandes decisões estratégicas. A questão é o que Winterkorn poderia fazer diferente agora? Sob muitos aspectos, Piëch deixa a companhia em grande forma. Com a construção de fábricas mundo afora e uma série de aquisições, da Bentley, uma fabricante de carros de luxo, à Scania, uma produtora de caminhões, ele fez da Volkswagen a segunda maior fabricante de veículos do mundo, atrás apenas da Toyota. No ano passado, produziu mais de 10 milhões de veículos e registrou um lucro líquido de 10,8 bilhões (US$ 12 bilhões).

Essa busca incessante de escala provavelmente terminará. A atenção se concentrará possivelmente na sintonia de algumas partes desafinadas do negócio. Os lucros da VW dependem pesadamente de suas linhas de luxo Audi e Porsche e, por isso, são vulneráveis a uma retração na ponta superior do mercado. Os resultados do primeiro trimestre publicados na última semana mostraram que as margens operacionais de carros mais humildes que ostentam o emblema VW - que respondem por quase metade das vendas do grupo em volume - foram 2% piores que o esperado. A Volkswagen espera melhorar essas margens para 6%, perto da média do grupo.

Mas isso será difícil. Está em andamento um plano de corte de custos de 5 bilhões (US$ 5,6 bilhões) para os carros da marca VW, e a empresa está introduzindo em todo o grupo a MQB, uma plataforma modular que permitirá que ela faça a base de dois quintos de todos seus carros de um único conjunto de partes. Isso poderá eventualmente economizar dinheiro, mas sua implementação está se mostrando mais cara do que o esperado.

Mas deslocar o trabalho de fábricas alemãs da VW para o exterior, ou reduzir o enorme orçamento de pesquisa do grupo seria quase impossível para Winterkorn ou para quem o suceder como CEO.

O Estado da Baixa Saxônia possui 20% dos votos no conselho consultivo, e com isso o direito de veto sobre decisões estratégicas por uma lei aprovada quando a empresa foi privatizada em 1960. Os sindicatos também têm representação no conselho (um homem do sindicato é o presidente do conselho interino até o sucessor de Piëch ser escolhido). Ambos provavelmente resistiriam a qualquer grande corte de empregos na Alemanha.

Resolver seus problemas nos Estados Unidos será igualmente difícil. A participação da VW no segundo maior mercado do mundo, já pouco considerável, está caindo. Sua linha de veículos utilitários esportivos (SUVs), o estilo de carro que mais cresce nesse mercado, é limitada, e não muito empolgante. A VW está lançando, com atraso, o que Winterkorn chama de "a maior ofensiva de SUV na história da companhia". Mudar a percepção da marca nos Estados Unidos será uma tarefa mais longa e mais difícil.

Os investidores que esperam que a saída de Piëch indique uma mudança ainda mais radical na estratégia parecem fadados, porém, à decepção. O conselho pode ter resolvido simplesmente apoiar Winterkorn, que se aproxima dos 70 anos, em vez de Piëch, mais de uma década mais velho, porque o homem mais jovem é uma melhor aposta no longo prazo para as coisas continuarem como antes.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR CELSO PACIONIRK, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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