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José Roberto Mendonça de Barros
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Mudança e desenvolvimento

A duração das crises tem a ver com a resistência de nossa sociedade a mudanças

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S. Paulo

23 Julho 2017 | 05h00

As experiências modernas de desenvolvimento (Japão, Coreia e China, por exemplo) mostram sempre dois momentos: arranque e sustentação.

O arranque é caracterizado por um período no qual as condições são tais que a produção se eleva a taxas altas durante certo número de anos, até que algum desequilíbrio obrigue o país a um ajuste de políticas macroeconômicas. Estamos falando de movimentos endógenos, o que exclui choques decorrentes de causas naturais ou rupturas políticas. Esses desequilíbrios, no mais das vezes, tomam a forma de inflação, escassez de divisas, bolhas de crédito e crises bancárias, problemas orçamentários e crises fiscais.

O teste da verdade vem depois: feito algum programa de ajuste, o crescimento é retomado e sustentado, refletindo a recuperação da capacidade de avanço e transformação do país. Foi o que aconteceu na Coreia, que sofreu nas últimas décadas três crises profundas: o choque do petróleo de 1979/80, a crise asiática de 1997/98 e a crise financeira global de 2008/09. Em todos esses momentos, o PIB registrou evolução negativa por um ou dois anos. Entretanto, logo em seguida programas de ajuste levaram a uma recuperação do desenvolvimento, que segue até hoje.

O Brasil já teve também vários momentos de arranque seguidos de crise, como no final dos anos 50, início dos 70 e, mais recentemente, de 2005 a 2010. No primeiro caso, à crise seguiu-se um grande ajuste, expresso no Programa de Ação Econômica do Governo (PAEG), idealizado pelo ministro Roberto Campos, que resultou em uma grande retomada econômica: o milagre econômico dos anos 70. Esse plano foi implementado no período ditatorial, que, sem tirar o mérito do projeto, permitiu sua execução sem contestação, mesmo em ambiente recessivo.

O problema do Brasil é que essa sequência – crise, ajuste e recuperação – não se repetiu nas fases subsequentes. A crise do petróleo de 1979/80 levou a uma importante recessão, mais tarde denominada de década perdida. O mesmo está acontecendo nos dias atuais.

Uma observação relevante é que, nesses dois episódios, a tentativa de lidar com a crise apresenta elementos comuns, especialmente propostas de ajuste heterodoxo, via crescimento da oferta financiada por uma significativa expansão dos gastos e créditos públicos. Em ambos os casos, seguiram-se crises fiscais profundas.

A duração das crises tem muito a ver com a resistência de nossa sociedade a mudanças. Sem elas, não existem programas de ajustes mais consistentes.

Tendo morado por duas ocasiões nos Estados Unidos, fiquei impressionado como lá as pessoas e a sociedade estão sempre prontas a mudar, ousar e experimentar. Parte do progresso do país resulta dessa postura.

No Brasil, ao contrário, as mudanças são sempre difíceis. Como nosso sistema político não é desenhado para gerar maiorias (desde sempre, o que se busca é dar voz e poder de veto a minorias, regionais, profissionais e outras), os problemas vão se acentuando até se tornarem gravíssimos e sistêmicos. Apenas nessas situações-limite é que na sociedade civil acaba por se estabelecer certo consenso, que empurra o sistema político a dar suporte às reformas.

Foi o que aconteceu com a inflação: foi preciso atravessar a década perdida dos anos 80 e chegar à hiperinflação para que, em 1994, o Plano Real pudesse ser lançado com sucesso. Ainda assim, a esquerda e outros grupos de pressão foram violentamente contra ele.

É o que também está ocorrendo com a corrupção, que se transformou em ferramenta de poder pelo menos desde 2005 e se alastrou de forma alarmante. Foi preciso chegar ao total descalabro para que a Lava-Jato fosse criada e se iniciasse um ataque frontal ao problema. A partir daí a governança pública e privada deverá melhorar, e com ela a qualidade dos gastos e dos investimentos, indispensáveis para a volta do crescimento.

Finalmente, ainda estamos em meio ao debate da imperiosa necessidade de reorganização das finanças públicas e do sistema previdenciário. Aqui também a resistência à necessária mudança é muito forte. Mas não tenhamos ilusão: enquanto não corrigirmos nossas finanças, não será possível retomar o crescimento. 

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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