Mudança na política do Fed pode encarecer crédito nos EUA

Uma das preocupações dos analistas é que ocorra um impacto na economia real, com recuo do consumo e investimentos

Altamiro Silva Júnior, correspondente da Agência Estado,

20 de agosto de 2013 | 18h10

NOVA YORK - A alta dos juros dos títulos do Tesouro dos Estados Unidos, que ontem (19) atingiram os níveis mais altos em dois anos, trouxe de volta a preocupação entre os economistas de que a mudança na política monetária do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) pode ter impacto não só no mercado financeiro, mas também no setor real da economia.

Os especialistas apostam que as taxas de juros ainda devem subir mais, com os investidores internacionais se ajustando à possibilidade de redução nas compras mensais de ativos pelo Fed. Ontem, elas bateram em 2,88% para os títulos de 10 anos. Nesta terça-feira (20), estão em queda, a 2,83%, mas alguns bancos já preveem taxas acima de 3% no curto prazo. Uma pesquisa do The Wall Street Journal com 52 economistas mostra que entre eles há quem veja as taxas em 3,76% em dezembro. Desde maio, quando o presidente do Fed, Ben Bernanke, falou que o ritmo de compras de ativos poderia ser reduzido até o final de 2013, as taxas já subiram 75%, saindo de um patamar de 1,61% para títulos de 10 anos.

A expectativa de mudanças na política monetária do Fed tem tido impacto forte no mercado financeiro. Além dos juros subindo, as bolsas têm caído e os investidores retirado recursos dos países emergentes para aplicar no Tesouro dos EUA, que fica com taxas mais atrativas. Com a proximidade de mudanças na política monetária, alguns economistas temem que os efeitos dos ajustes dos investidores respinguem na chamada economia real, sobretudo se os juros se mantiverem nos níveis elevados.

Um dos canais imediatos para isso é o encarecimento do crédito bancário, por conta dos juros maiores, tanto para empresas como para pessoas físicas, com impacto negativo no consumo e no investimento. Outro segmento que pode ser afetado é o setor imobiliário, avalia o estrategista-chefe de renda variável da gestora Rockfeller, Jimmi Chang em um estudo sobre os impactos das mudanças da política monetária. A alta dos juros desde maio já encareceu o custo das hipotecas. O volume de pedidos destes financiamentos está em queda nas últimas semanas, mas o recuo tem se concentrado sobretudo nas solicitações de refinanciamento. Por isso, não houve até agora um efeito negativo nas vendas de imóveis nos EUA, setor que têm se recuperado desde o começo de 2012, com os preços das residências aumentando 12% nos últimos 12 meses. Em junho, as vendas de imóveis novos atingiram o nível mais alto no pós-crise financeira de 2008.

Os números de julho serão divulgados na sexta-feira e o custo maior das hipotecas deve pesar nas vendas. O Wells Fargo, maior banco dos EUA em crédito hipotecário, prevê desaceleração nas comercialização de casas novas em julho. No mês anterior, o nível anualizado de vendas chegou a 497 mil residências e os economistas do banco projetam que o indicador recue para 495 mil em julho. Já as vendas de moradias usadas devem ficar de lado. A previsão é que as vendas fiquem em 5,10 milhão em um nível anualizado, ante 5,08 do mês anterior.

Paro o economista-chefe do RBC Capital Markets, Tom Porcelli, muitos consumidores, diante dos juros maiores, podem adiar sua decisão de compra de imóvel, por isso, para o longo prazo, a tendência no setor é que o crescimento continue. Já o mercado de imóveis usados tende a ser menos afetado porque cerca de um terço das vendas são feitas em dinheiro.

Além do crédito e do setor imobiliário, os economistas falam que a economia real pode ser afetada de outras formas nos EUA. A queda das bolsas, por exemplo, reduz a riqueza das famílias, com impacto negativo no consumo. Já a valorização do dólar ante outras moedas encarece as exportações norte-americanas e pode piorar o déficit comercial do país. A alta dos juros encarece as captações das empresas no mercado de bônus, o que pode ter efeitos nos planos imediatos de financiamento e investimento das companhias.

Uma pesquisa da Blue Chip Economic Indicators revelou que 66% dos economistas esperam que o Fed vá reduzir o ritmo de compras de ativos na reunião de política monetária nos dias 17 e 18 de setembro. Com essa expectativa, reforçada nos últimos dias com bons indicadores econômicos, sobretudo de inflação e pedidos de auxílio-desemprego, os investidores vêm ajustando novamente suas carteiras. A maioria dos especialistas aposta que o ritmo atual de compras será reduzido de US$ 85 bilhões para algo em torno de US$ 70 bilhões, com o encerramento total dessa estratégia em meados de 2014.

Nesta quarta-feira (21), o Comitê de Política Monetária (Fomc, na sigla em inglês) vai anunciar a ata de sua última reunião e os investidores esperam ver mais pistas sobre a estratégia do Fed. A grande aposta é que o documento revele como está o consenso entre os dirigentes sobre a redução das compras em setembro.

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