Mudança no compulsório dá estímulo à venda de papéis de bancos menores

Finanças. Após as medidas anunciadas pelo Banco Central na sexta-feira, houve, segundo fontes, um aumento nas conversas entre os bancos para a compra de papéis, em negócios que podem chegar a R$ 17 bilhões, concentrados em letras financeiras

ALTAMIRO SILVA JÚNIOR, ALINE BRONZATI, O Estado de S.Paulo

21 de setembro de 2012 | 03h05

As mudanças no compulsório estão estimulando o aumento do apetite dos grandes bancos por papéis de instituições menores. Executivos de bancos menores ouvidos pela 'Agência Estado' disseram que, desde segunda-feira, as conversas e sondagens aumentaram, mas o interesse das instituições de maior porte segue se concentrando na aquisição de letras financeiras. Já o mercado de cessão de carteiras segue praticamente parado.

A estimativa de um grande banco é que as captações via letras movimentem cerca de R$ 17 bilhões após as medidas do Banco Central. O cálculo leva em conta o aumento do porcentual sem remuneração sobre o adicional dos depósitos a prazo, que passou de 36% para 50%, anunciado na última sexta-feira. O estoque de letras financeiras registrado na Cetip é de R$ 220 bilhões. Lançado em 2009, esse produto tem ganhado espaço na captação dos bancos médios e já representa 30% do estoque total de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs).

As sondagens para a compra de letras estão acontecendo principalmente em banco médios com foco em crédito a empresas ("middle market"). Isso porque, segundo uma fonte, as operações de varejo estão mais sujeitas a fraudes, como aconteceu com o Panamericano e o Cruzeiro do Sul. E, como as fraudes, nesses dois casos, ocorreram com vendas de carteiras, os grandes bancos ficaram mais seletivos na escolha desses ativos.

"Acreditamos que os grandes bancos estejam mais inclinados a manter seu dinheiro depositado no Banco Central do que adquirir carteiras de créditos de bancos menores, como já vimos acontecer depois de medidas similares pelo Banco Central. Em nossa opinião, não há bons negócios no mercado de bancos pequenos 'mal das pernas'", destaca o relatório de uma grande instituição financeira avaliando as medidas do BC.

Dívidas. Alguns bancos médios vão precisar captar recursos para financiar passivos que estão vencendo. O mercado de bônus internacionais já estava ruim, por causa da crise na Europa. Com a liquidação do Cruzeiro do Sul, vai ficar ainda mais complicado para os bancos menores captarem no exterior e rolarem suas dívidas, avalia o sócio de um banco médio. Ou seja, a principal fonte de captação deve ser no mercado interno.

Até julho de 2013, os bancos menores precisam rolar US$ 1,2 bilhão em bônus, incluindo operações a vencer do Banco Votorantim, do BicBanco e do Panamericano.

Nos últimos meses, instituições menores lançaram programas de emissão de letras financeiras. O Banco Pine anunciou seu primeiro programa de distribuição de letras, que prevê a captação de até R$ 1 bilhão. Além disso, o Pine planeja emitir R$ 300 milhões também em letras. O Daycoval também prepara uma segunda oferta pública, conforme explicou o banco em conferência com analistas ao divulgar seu balanço.

Para Fabio Zenaro, gerente executivo de Novos Negócios da Cetip, as mudanças no compulsório incentivam a aquisição e, consequentemente, a emissão de letras financeiras. "A tendência é de que as instituições de menor porte, que hoje têm uma dificuldade maior de colocação desses papéis, sejam as principais beneficiadas", afirma.

O objetivo da medida do Banco Central é exatamente dar novo estímulo para aquisições de ativos e dar liquidez para as instituições menores. Desde o primeiro trimestre, algumas operações foram fechadas, mas, após a descoberta da fraude no Cruzeiro do Sul, os grandes bancos ficaram mais seletivos.

Na opinião do presidente do Austin Rating, Erivelto Rodrigues, para destravar o mercado de cessão de carteiras, esse porcentual deveria ser aumentado para 100%.

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